Lisboa chora a morte de Gastão Reis. Se é desolador sempre que alguém desaparece sem aviso, e ainda para mais um jovem, Gastão Reis não era só um jovem. Gastão era uma luz rara numa cidade nostálgica, que o levou de um modo estúpido, brusco e imperdoável. Lisboa, a mãe, perdeu um filho e nós perdemo-lo com ela. Com ela, choramos a morte de um filho brilhante, lindo, generoso e com o mundo inteiro à sua espera.
Os factos são conhecidos. No domingo, uma fuga de gás num prédio na Rua de Santa Marta, em Lisboa, motivou uma explosão que fez desabar o prédio. Gastão Reis, 24 anos, foi encontrado sem vida na madrugada seguinte. Amado pelos amigos, admirado pelos pares e debaixo de olho dos entusiastas, Gastão compunha, cantava e tocava nos Zarco – uma das bandas mais interessantes e originais da “nova geração” lisboeta. Zarco, cujo som distintivo carrega vestígios de um prog italiano dos anos 70, ou talvez britânico, temperado pelas águas do Tejo e misturando influências de um Fausto ou de um Zé Mário, afirmaram-se, em especial desde 2019 com o álbum Spazutempo, como uma banda a seguir pelos melómanos. A receita de expansão dos verdadeiros músicos, os raros, os bons, os que são mais do que músicos, é apenas essa: entusiasmar e apaixonar carolas que se sentem quase parte da banda, de tanto gostarem dela, de tanto sentirem que ela os representa, que se sentem amigos do peito, mesmo quando não são, e impingem a sua música a outras pessoas, espalhando uma fé que sentem ser sua. No fundo, fãs como eu.
Partindo, Gastão Reis deixa um rasto de luminescência que ainda agora se começava a notar, numa cidade que não chegou a dar-lhe a devida atenção, por vezes desatenta face a quem lhe traz brilho. Um rasto discreto, e talvez por isso tão grande, e agora gigante, mas forte demais para se perder no espaço. Ou P’ra Lá do Rio. Não se perderá.
Hoje, a música, a cultura e o tecido humano lisboeta perdem um amigo devoto, uma faísca de vida e uma promessa demasiado grande para nos ser roubada.
À sua família, um abraço de respeito e coragem.
Chegado ao mar
O mar estava vazio
Adeus, Gastão.
Já cá não está quem mais sorriu