A proclamação da nova revolução burkinabê não surge como um gesto isolado. Representa a formalização ideológica de um processo político aberto a 30 de setembro de 2022, quando Ibrahim Traoré, então com 34 anos, derrubou o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba e assumiu a liderança do Movimento Patriótico para a Salvaguarda e a Restauração. O Burkina Faso entrava assim no segundo golpe militar em menos de um ano, num contexto em que o colapso da segurança, o descrédito das elites dirigentes e o desgaste da presença francesa tinham já corroído profundamente a legitimidade da ordem existente.
Mas o essencial talvez não esteja apenas no facto de Traoré ter tomado o poder, e sim na linguagem histórica com que escolheu justificá-lo. Ao anunciar, a 1 de abril de 2025, a entrada do país num novo ciclo revolucionário, o Presidente burkinabê não procurou apenas nomear o presente. Procurou filiá-lo e a data não foi escolhida ao acaso. Remete deliberadamente para o momento inaugural da Revolução Democrática e Popular lançada por Thomas Sankara em 1983, inscrevendo o atual regime numa continuidade simbólica que a História oficial do país tentou durante décadas amputar.