O início da pandemia por COVID – 19 surpreendeu-nos a todos: especialistas, profissionais e autoridades de saúde, decisores políticos e cidadãos em geral. As características do vírus, as formas de propagação e os seus efeitos para a saúde humana eram desconhecidos e propícios à assunção de posições arriscadas que a realidade a seguir se encarregava de desmentir. Foi assim que se duvidou da sua transmissibilidade entre humanos, logo no princípio, e se menosprezou, até recentemente, a proteção induzida pelas máscaras ou se assistiu à perplexidade dos médicos perante os efeitos devastadores do vírus ao nível respiratório, à ausência de soluções terapêuticas eficazes ou ao uso prematuro de ventilação mecânica. Mas o que é mais grave é a total negação dos riscos da pandemia, com que todos os dias, correntes de opinião bem organizadas nos brindam com os mais prodigiosos e fantasiosos argumentos. E ainda a sua comparação com uma simples gripe, relativizando internamentos e mortes.
As organizações internacionais e mormente a OMS não tiveram, neste contexto, o papel de liderança que se esperava, face ao acervo de conhecimento e de informação privilegiada com que habitualmente trabalham. Foram sempre a reboque dos acontecimentos, evidenciando muitas cautelas, muita insegurança e adaptando os seus postulados ao evoluir da infeção. Afinal, também sabiam pouco sobre o novo vírus.
Portugal não fugiu a esta regra de dúvidas e de ignorância, apesar das sentenças, ditas científicas, de muitos analistas e especialistas. Os políticos portugueses, dos diferentes partidos, começaram por manter a maior discrição sobre a matéria, não dando opiniões e aguardando o evoluir dos acontecimentos e, sobretudo, a atitude do Governo. Quando este, juntamente com o Presidente da República, resolveram atuar (17 dias depois do primeiro doente) pareceu reunir-se um consenso nacional sobre a bondade das medidas, com algumas exceções vindas dos partidos mais à esquerda e mais à direita do espectro político. E nestes casos, o argumento era comum. Ocorresse o que ocorresse, não era legítimo pôr em causa os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. A Igreja Católica começou por acompanhar este coro, aplicado agora à liberdade de culto. Foram reações ténues que não prejudicaram o confinamento que vivemos nos meses de março, abril e maio. Tudo correu pelo melhor, sendo Portugal um bom exemplo a nível mundial: poucos internamentos e poucos mortos.
Veio o Verão e o desconfinamento, e as preocupações voltaram-se para a Economia e o desemprego. Foi o tempo da intervenção do Estado no apoio às empresas e ao emprego, diga-se, que, apesar de tudo, com evidente sucesso. A Economia deu sinais animadores de recuperação e não se perderam tantos postos de trabalho como se imaginava. Os partidos políticos, vigilantes como sempre, não criaram especiais problemas à ação governativa, bem assim como as associações patronais e sindicais, que compreenderam a situação, pressionaram, mas na justa medida.
Tudo parecia ir continuar bem, se bem que houvesse já várias vozes a avisar para os riscos e dimensões de uma segunda vaga. E ela começou a desenhar-se a partir de outubro, após um período larvar, em julho/agosto, com a ocorrência de muitos novos casos localizados na Região de Lisboa.
Ao contrário do que ocorreu na primeira vaga, o Governo e o Presidente da República concordaram em não atuar com firmeza para travar a propagação do vírus, esperando que a simples persuasão para comportamentos de distanciamento e proteção adequados resolveria o problema e não obrigaria ao fecho, de novo, da Economia e das escolas. Os partidos políticos, todos eles, pareceram concordar com esta estratégia, porque ninguém colocou a questão de um novo confinamento. Mas rapidamente se iniciaram críticas sobre a falta de recursos para a realização de testes, os apelos para a contratação de camas no setor privado, os comentários pouco simpáticos sobre o ministério da saúde e a sua dificuldade em comunicar com a população ou a falta de interesse das reuniões do INFARMED (afinal, foram agora retomadas). Curiosamente, toda a controvérsia se centrava em questões secundárias, porque o essencial era mesmo o movimento das pessoas em sociedade, o convívio social e os riscos acrescidos que isso comportava, designadamente para os mais velhos. Mas para este “peditório” os partidos políticos, e designadamente os da oposição, viravam a cara.
Estava escrito nas estrelas que viria um segundo confinamento e que a iniciativa caberia exclusivamente ao Governo e ao Presidente da República. E assim foi, se bem que muito tarde e de forma pouco determinada. Tivemos o mês de setembro para lançar medidas mais musculadas de limitação de circulação e deixamos arrastar o crescimento exponencial de novos casos, depois dos internamentos e finalmente também dos óbitos, até meados de novembro. Curiosamente, ninguém na oposição solicitou ou sugeriu outras medidas e até houve partidos que organizaram festas ou convenções, já em plena retoma pandémica.
Desta vez, as restrições são mais seletivas e menos severas, desafiando o vírus para uma luta desigual em que ele parte em vantagem. De facto, dividir um país pequeno como o nosso em concelhos confinados e não confinados e os primeiros apenas algumas horas do dia, permite a contínua circulação entre regiões e o cruzamento sistemático entre populações de concelhos com níveis de confinamento diferentes. Haverá com certeza alguma redução marginal de contágios, mas no essencial não se registarão melhorias sensíveis que achatem rapidamente a curva, os internamentos e os óbitos. Levaremos muito mais tempo a controlar o vírus e a Economia e o emprego ressentir-se-ão muito mais do que se tomássemos medidas mais robustas em menos tempo.
As oposições, liberal, de extrema-direita, democrata-cristã ou mais à esquerda, não quiseram ou apenas toleraram as medidas aprovadas na Assembleia da República, sobre o novo confinamento. Todos argumentando que as liberdades cívicas estão primeiro, como se não houvesse um valor maior nestas circunstâncias. Mas outros acrescentando ainda que o investimento em mais profissionais de saúde, mais camas de cuidados intensivos e mais testes, é a solução, como se não devêssemos eticamente evitar doentes e não apenas tentar tratá-los, não importando o volume e a tragédia.
Quando as coisas correram bem, comentou-se, jocosamente, que não havia milagre nenhum.
Agora, quase que numa deriva esquizofrénica, não se aceitam medidas de condicionamento social e defende-se a liberdade individual como valor absoluto, mesmo aqueles que têm do conceito uma visão instrumental ou provisória. Aonde fica o interesse público?
Quem protege o SNS, os outros doentes e os profissionais de saúde?
E quem se responsabiliza pelos mortos, os atuais e os que aí vêm?