<#comment comment=”[if gte mso 9]> Normal 0 false false false MicrosoftInternetExplorer4 <#comment comment=”[if gte mso 9]> <#comment comment=”[if gte mso 10]> O Governo cortou verbas à RTP, mas não faz mal, aumenta as tarifas de eletricidade ao consumidor a fim de sacar o dinheiro que falta para continuar a alimentar a televisão pública. Sobre os bancos passa a incidir um imposto especial, mas também não faz mal – quem acabará por pagar esse imposto é o cliente, como anunciou, sem qualquer ponta de remorso, o presidente da Caixa Geral de Depósitos, o banco público cuja lógica de funcionamento devia estar para além da mera lógica de mercado. O Orçamento do Estado para 2011 prevê um corte de 10% nas pensões superiores a 5 mil euros. Parece uma medida equitativa, tendo em conta o saque anunciado dos salários e pensões de toda a classe média, o fim do abono de família para tantas crianças ou o aumento esmagador dos impostos. Pois…, mas há um problema: o Governo não sabe como chegar às tais pensões douradas. Ao que parece, há pensionistas a receberem de entidades diferentes e é difícil fazer o cruzamento de dados, sobretudo de quem já está efetivamente aposentado. Adivinham quem vai pagar? A pergunta é redundante, pois, por esta altura, já devem ter entrado em frenesim os neurónios das Finanças que só se agitam para maquinar armadilhas contra os pobres contribuintes.
Estes são só três exemplos de um Orçamento que não é apenas duro e cego. O pior deste Orçamento é não ter sentido estratégico, significando isto ser desprovido de futuro, esse horizonte para onde gostamos de nos projetar quando o presente nos rouba esse local de conforto habitado por uma senhora luminosa chamada esperança. E se a esperança é o pão dos ansiosos, Portugal está faminto, esgotado.
Mesmo se isto já é tanto, se é (quase) tudo, é preciso ainda afirmar que este é um Orçamento feito com os pés, com erros, entregue tarde e a más horas, em ambiente fúnebre, imagem perfeita da desorientação de um Governo que há muito funciona em circuito fechado, absorvido apenas na tarefa de conservar o poder. Foi para aprisionar o poder que tudo ficou remetido para este tempo, um tempo que um imperativo constitucional absurdo obriga à paralisia, acabando por justificar muito do que é apenas demissionismo e resignação. Vai prevalecendo o diktat de um homem só que resolveu jogar o jogo do “eu ou o caos”.
Há um clima de salve-se quem puder, misturado com sintomas de esquizofrenia. As chamadas elites demitem-se de exigir responsabilidades a quem nos conduziu neste percurso. Pede-se ao líder do principal partido da oposição que assine, de cruz, uma lei da dimensão e importância do Orçamento do Estado, mas não se pressiona o Governo, com igual veemência, no sentido da negociação. O primeiro-ministro afirma, com a mesma convicção com que diz um dia uma coisa e no dia a seguir o seu contrário, que este OE “protege o emprego e a economia”. Tanta gente a fazer de conta, tanta gente a omitir-se no jogo de sombras mais arriscado das últimas décadas. Tanta gente a fazer de conta, embora todos vejam que o rei está completa e irremediavelmente nu.