Na primeira pessoa: “Não tenho nome para esta relação. É muito forte, mais do que uma amizade. É como se fosse uma segunda mãe”

Foto: Lucília Monteiro

Na primeira pessoa: “Não tenho nome para esta relação. É muito forte, mais do que uma amizade. É como se fosse uma segunda mãe”

Marcelo (M): Cheguei ao Porto em setembro de 2023. Sou médico-dentista no Rio de Janeiro e queria trabalhar em Portugal, mas para isso era necessária a revalidação do diploma universitário. Para completar a formação, tive de fazer o último ano do mestrado integrado em Medicina Dentária. Já trabalhava há 13 anos, esta experiência foi quase como tirar um ano de férias. Sempre desejei morar fora do Brasil, mas, como sou muito próximo da minha família, adiei esse passo. Aos 35 anos, decidi voar.

Tinha ouvido falar do programa Aconchego, fiz umas pesquisas e resolvi tentar. As outras opções não eram ideais: podia arranjar um quarto e morar com desconhecidos, provavelmente mais jovens do que eu, com uma dinâmica que não me interessava, ou alugar um apartamento sozinho, e aí a questão financeira pesava muito. O facto de, neste programa, poder apoiar outra pessoa também me pareceu interessante. Estou numa fase da minha vida em que quero dar um pouco.

Antonieta (A): Não tenho família no Porto. Os meus dois filhos há muitos anos que vivem fora, um em São Paulo e o outro em Londres. A minha médica de família dizia que não podia continuar a viver sozinha. Falei com a assistente social e ela informou-me sobre o Aconchego. E, pronto, aconcheguei-me ao Marcelo [risos]. Foi a primeira pessoa que acolhi na minha casa. Receber um estranho não me fez confusão, sou uma pessoa com espírito aberto e, quando o conheci, fiquei ainda mais confiante, porque ele me transmitiu essa confiança.

M: O programa faz algumas entrevistas individuais prévias e depois promove um encontro entre os dois interessados, na casa do senhorio. Posteriormente, temos uma semana para pensar e tomar uma decisão. A casa tem a localização perfeita, é muito central. Não vi nenhum impeditivo e toquei para a frente. 

A: A adaptação correu muito bem, nunca tivemos problemas. Se alguma coisa não está bem, conversamos, e tudo se resolve. Logo nos primeiros tempos tive um problema grave de saúde, dei uma queda nos degraus da entrada do prédio e parti um braço. Estive mais de dois meses com o braço imobilizado e o Marcelo ajudou-me imenso.

M: A Antonieta também me apoiou muito nessa fase inicial, qualquer coisa de que eu precisasse saber, sei lá, sobre o funcionamento dos serviços ou sobre o Porto, perguntava-lhe. Se estivesse sozinho seria completamente diferente. Tenho outros colegas brasileiros que sentiram muitas mais dificuldades de adaptação. No nosso caso, ambos nos sentimos confortados com a presença do outro.

O programa exige que esteja em casa cinco dias da semana e nos outros dois posso estar livre, normalmente o fim de semana. Contudo, construímos uma relação fora do Aconchego, não temos essas regras tão restritas. Quando precisamos de algo um do outro, falamos.

Normalmente, jantamos juntos, o próprio programa incentiva essa proximidade. A minha dieta é um pouco diferente, porque faço ginásio e como pratos mais simples e saudáveis.

A: Ao jantar, só costumo comer fruta e sopa, que partilho com o Marcelo. Quando veio morar para aqui, preparei-lhe um almoço para o apresentar aos vizinhos – sapateira e jardineira, se não estou em erro. Se ele fica cá durante o fim de semana, também preparo o almoço de domingo. Já fiz muitos pratos diferentes.

Não há renda, recebo todos os meses €25 em bens alimentícios, um contributo simbólico. O Marcelo tem um quarto e uma casa de banho independente, e pode usar a cozinha à vontade. Se utilizamos coisas um do outro, avisamos e depois substituímos.

Foi a primeira pessoa que acolhi na minha casa. Receber um estranho não me fez confusão, sou uma pessoa com espírito aberto e, quando o conheci, fiquei ainda mais confiante, porque ele me transmitiu essa confiança

M: No primeiro semestre tinha menos aulas e mais disponibilidade. Neste momento, tenho menos tempo, mas ainda fazemos muitas coisas em conjunto: vamos ao supermercado, fazemos algumas viagens – ainda há dias fomos a Vigo.

A conversa rola normalmente. Temos a nossa vida pessoal, mas contamos muito do que fazemos no nosso dia a dia. A diferença de idades não é uma barreira. É a primeira vez que lido com uma pessoa mais velha, mas não penso assim tanto na questão da idade. A Antonieta é alguém que já viveu muita coisa e, contudo, mantém um espírito jovem.

A: Tem sido muito agradável esta companhia diária. Saíamos de braço dado e dizia-lhe: “não tens vergonha de ir assim com uma velha?” [risos]. A sua presença deu-me mais ânimo. Sou lisboeta e trabalhei muitos anos para uma empresa sediada em Lisboa, por isso ia lá frequentemente. Mantenho uma grande amizade com uma antiga colega de trabalho, que gosto de visitar. O Marcelo ajuda-me a apanhar o transporte e a levar as malas, porque tenho muita dificuldade em andar. Se estivesse sozinha, não me sentia capaz de continuar a fazer estas visitas. Quando vou para fora, entrego a casa ao Marcelo, não tenho nada fechado. Tenho confiança absoluta nele.

Algumas amigas no Porto fazem-me muitas perguntas e dizem que também querem aderir ao programa. Mas nem todas o podem fazer. Quem recebe tem de ser uma pessoa com alguma independência, a ideia não é o estudante ser um cuidador, é apenas alguém que faz companhia.

M: Não fazemos divisão de tarefas domésticas, temos uma empregada que pagamos em conjunto. Há coisas que adotei naturalmente, como levar o lixo lá fora, que é mais complicado para ela, nem sequer foi necessário pedir. Se vejo uma porta que não está a funcionar, conserto.

A: A nossa relação tem sido extremamente boa, tendo em conta que somos de idades e de culturas diferentes. O Marcelo é uma pessoa muito respeitadora, afetuosa e atenciosa. No final deste mês, quando terminar a formação, vai embora [a idade-limite dos estudantes inscritos no Aconchego é 35 anos]. Estou um pouco cética em fazer nova inscrição no programa, porque estou a sofrer com esta partida e não quero passar novamente por isso.

M: Não tenho nome para esta relação. É muito forte, mais do que uma amizade. É como se fosse uma segunda mãe que tenho aqui em Portugal. Em princípio, vou mudar para um apartamento aqui perto e quero manter este contacto. Vou estar por aqui.

Depoimentos recolhidos por Joana Loureiro

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