A Loucura Branca, de Jaime Rocha (JR), agora em 3ª edição, com posfácio de António Cabrita, impressionou-nos deveras desde que o lemos (1ª ed., Livro Aberto, 1990) em meados da década de 90. É, de facto um romance (ou novela?) “impressionante”, no sentido que imprime na mente do leitor uma marca sentimental imperecível de aversão, horror, medo, pavor ou temor, não um temor fantástico ou surreal, que singulariza em parte o romance gótico, mas um temor psicológico nascido de situações reais do quotidiano, cuja descrição gera um sentimento íntimo claustrofóbico.
Esta capacidade de descrever situações claustrofóbicas de um modo estético, não recorrendo a símbolos narrativos neorromânticos ou góticos, utilizando exclusivamente um léxico de referentes semânticos realistas, identifica e singulariza a obra romanesca de JR no horizonte do romance português contemporâneo. Obra escassa, aliás, face à sua qualidade literária: Tonho e as Almas, 1984, Loucura Branca, Os Dias de um Excursionista, 1996; Anotação do Mal, 2007 (Prémio Pen Clube), A Rapariga sem Carne, 2012.
“Estou fechado nesta rua. Apercebo-me do seu fim, de uma parede que sobe e tapa as pontas da estrada onde acabam as casas” (Anotação do Mal) – eis, numa absoluta síntese, o universo literária enclausurado em que ganham corpo os textos de JR. Narrativas urbanas, os seus textos retratam momentos semelhantes aquele e podem ser estruturados em quatro pontos singulares: 1) o insulamento das personagens, muitas delas misantrópicas, explorando-lhes os comportamentos em situação-limite; 2) a descrição ou narração de uma situação aporética (exemplo referido); 3) o anúncio gradual de uma fatalidade (em Anotação do Mal, o suicídio; em A Loucura Branca, o segundo suicídio); 4) uma descrição minuciosa, realista mas abjeta (qualidades negativas das personagens, coisas e situações) das relações humanas e dos ambientes sociais.
Os romances de Jaime Rocha obedecem a esta quádrupla estrutura de composição. Leia-se, por exemplo, o primeiro capítulo de Os Dias de um Excursionista, ou a frase inicial do cap. 4, “A rua onde vive cheira a mortos…”. O ambiente claustrofóbico está presente em todas as páginas dos seus romances. Abrimos ao acaso Anotação, p. 69, última frase: “…ou será que os seus braços se encontram dispersos pela cama”: sensação de fragmentação caótica do corpo da personagem, sem unidade física ou psicológico, princípio da loucura. A Rapariga sem Carne descreve a entrada inesperada e sombria de uma rapariga em casa de Mateus, que vive sozinho (na lógica romanesca do autor, era obrigatório que Mateus vivesse sozinho). A primeira página do romance reflecte igualmente aquelas quatro características: a insulação da personagem Mateus; o enclausuramento claustrofóbico e aporético de Mateus e da intrusa num pequeno apartamento; pelo seu conteúdo percebe-se que o desbloqueamento da situação só se operará através da violência; a descrição de sinais ou qualidades abjetas das personagens (cicatrizes, mulher pedinte dos sacos de plástico que ameaça deitar fogo ao prédio) e das situações (a estranheza de uma rapariga rolar para dentro de casa “como um embrulho”).
A Loucura Branca, título retirado de um verso de Herberto Helder, abre com o anúncio de um suicídio e a descrição perturbadora da tripla imagem de um caranguejo lutando contra as ondas, um homem indistinto avançando na praia e o rosto macabro dos náufragos advindos à praia. Está lançado o texto segundo o habitual modo de composição narrativa do autor. A 3ª página descreve o suicídio anunciado na primeira com o facalhão de “abrir o cabrito” e o ambiente social de emigração clandestina em Paris na década de 60. No seio da abjeção, levantam-se imagens de normalidade, dois cães a brincarem e pessoas a passarem na rua, ao abjecto acrescendo a beleza fantasmática.
Vítor vive uma situação claustrofóbica, preso em casa durante três meses devido a um tumor cerebral. O livro descreve o seu enclausuramento entre os filhos e a mulher e os momentos de solidão doméstica quando estes saem. Atingindo formas mentais patológicas, a sua mente, insulada, torna-se minuciosa e obsessiva. Sai para a rua trazendo consigo o objeto de um prémio publicitário, por que ansiara obsessivamente, desmaia num snack, é ajudado por uma mulher, Inês, uma ladra (ou, aparentemente, uma ladra). Com esta, Vítor torna-se ladrão, cega, ou aparentemente cega, é arrastado por uma multidão, tenta escapar e os seus pés tocam no lodo das margens do rio… Finalmente, liberta-se do universo concentracionário que lhe perfizera as horas nos últimos meses, quiçá em toda a sua vida, indo juntar-se ao companheiro suicida.
A espiral louca desestruturou-se, a aporia da existência foi quebrada. Vítor está livre… embora morto.