Desculpa o atraso, tive numa reunião que se prolongou, já apanhei a hora de ponta e fiquei parado na circular. Obrigada por tomares conta da minha filha, isto agora com a separação e as escolas fechadas é uma chatice, não tenho pais aqui, tu sabes, ando desanimado, é tudo muito complicado. Um homem sozinho não é a mesma coisa que uma mulher sozinha, sabes? E, claro, tu sabes, eu sou completamente a favor da igualdade de género e isso, eu cresci rodeado de mulheres, eu até sei cozinhar, mas não é a mesma coisa, fazer isto tudo sem a Natália. Mas não vou estar a maçar-te com estes lamentos, até porque ainda tenho de passar na padaria que eu hoje vou apresentar a Clara à… à…é uma miúda com quem ando a sair, quer dizer, é só uma amiga, não é nada sério, não é assim uma companheira, mas é boa companhia, quer dizer, mas eu acho importante que a Clara a conheça, pode ser que se deem bem, vamos ver, não é? É só um jantar, ela ainda vive com os pais, é muito nova e enfim, por vezes penso que tudo isto é um disparate…
Sim, aceito uma cerveja, mas só uma, depois tenho de sair a correr, e tu também deves ter imensa coisa para fazer, vejo-te sempre a trabalhar, não sei como consegues, tens de sair mais, conhecer pessoas, há aí tanto moço giro, não te interessa ninguém? Devias soltar o cabelo, e seres só um bocadinho mais fútil, pôr um batom, um rimelzito. Há uma coisa que tens de perceber, os homens são diferentes das mulheres e os homens até podem preferir uma mulher inteligente a uma mulher bonita, mas quando estão frente a uma mulher bonita deixam de pensar, compreendes? É uma coisa científica, mas também não duvides, um dia, mais tarde, acordamos, olhamos para trás, e percebemos que andámos a perder este tempo todo com miúdas de 20 anos e que não serviu para nada, mas também qual é a alternativa? Um homem gosta mas também tem medo de ter uma mulher inteligente, e vocês, assim na casa dos 40, são muito independentes, já com filhos e vida feita, e já não estão para aturar as crises de um homem de meia idade como eu, já não se deixam controlar por qualquer um, e um homem precisa de segurança, precisa de ter a certeza de que a mulher o ama e está ali para ele, aconteça o que acontecer, percebes? Um homem não pode viver aflito sem saber se a mulher amanhã não muda de ideias e sai de casa pra ir à vida dela!
Não me entendas mal, eu não estou a dizer com isto que é isto que te vai acontecer, que vais ficar sozinha porque és inteligente, sabes que te admiro imenso, e por certo há homens melhores do que eu que conseguem ver para além da beleza e controlar-se para não fazerem disparates, mas digo-te do fundo do coração: eu vivi sempre rodeado de mulheres, ouvi sempre muitas histórias, sim, que eu sou bom ouvinte e compreendo bem as mulheres, e a verdade é que tanto as minhas irmãs como as minhas tias estão sozinhas há anos e não estou a ver nenhuma a mudar de rumo! Porque isto de sermos iguais é tudo uma grande falácia, somos diferentes e pronto, há que aceitar. Isto da biologia e do casamento tem muito que se lhe diga, porque uma coisa são as vontades, outra coisa são os compromissos, e aí não há volta a dar. E eu gosto de mulheres livres e eu também sou um homem livre, e nem sou muito de tomar grandes posições contra os outros. Eu, por exemplo, nunca votei, porque eu não estou contra ninguém, mas também não me revejo em lado nenhum. Gosto de umas coisas aqui, outras acolá, por isso não me sinto representado por nenhum partido. Isto tinha de dar uma grande volta para eu acreditar na política. E como eu há muitos, sabes?
É assim que eu vejo a vida, devíamos ser todos livres em vez de nos estarmos para aqui a debater por isto ou por aquilo, a criar conflitos e confusão, quando na verdade nem estamos convictos do que realmente queremos. Até porque o problema é que estamos todos em posições de poder! É por isso que não percebo a Natália. Nós falávamos disto tudo, eu vi-a a chegar a casa do emprego todos os dias, sempre furiosa, porque lá publicavam mais um texto de um homem branco sobre um assunto qualquer que bem espremido não queria dizer nada, enquanto outro artigo bem mais pertinente mas de uma mulher mais discreta era escortinhado até ficar uma nota de rodapé. A Natália nunca aceitou que é mesmo assim. Eu costumava dizer-lhe: Olha que esses homens têm por certo mulheres lá em casa que os apoiam, por isso tens de ver que essas posições que eles expressam são no fundo também as posições das suas mulheres! Quantos homens solteiros e solitários conheces tu que sejam bem sucedidos e escrevam bons artigos? E quantas mulheres e mães solteiras? Ah pois é, não é fácil, leste aquele artigo do The Guardian que dizia que na quarentena os homens produziram duas vezes mais artigos académicos do que as mulheres? E estavam ambos em casa a tomar conta dos filhos! Agora, diz-me lá, como é que tu explicas isto? Eu digo-te: nós fomos educados por vocês, que também são mães, para sermos assim, e nós até compreendemos que deveria ser tudo diferente, mas não conseguimos evitar, percebes?
Eu sei, tu gostas imenso dela, e achas que eu fui estúpido, e que ela era a mulher perfeita para mim, mas olha que ela também não é o que parece. Eu nunca te disse, mas a Natália enganou-me e isso eu não posso aceitar. Foram 18 anos juntos! 18! Não se deita assim uma relação por terra, sem mais nem menos1 Temos uma filha, tínhamos uma casa juntos, funcionava tudo lindamente! Não faz sentido! Como é que ela se vai virar agora, sozinha, sem a escola a funcionar e com o novo emprego? Se estivéssemos na mesma casa não era tudo tão mais fácil? Sim, podes dizer que eu também a enganei durante anos e é verdade, mas um homem nunca faz isso a sério, é apenas para se divertir, são descargas de adrenalina, não é coisa para estragar uma relação! Mas uma mulher quando faz isso, é mesmo para magoar! E isso eu não posso aceitar! Eu sei que me descontrolei, e tu sabes como é, tenho sangue italiano, apesar de nunca ter vivido em Itália, e sou assim, um homem de paixões fortes, e quando percebi que ela andava com o professor de ballet da nossa filha… o professor de ballet! Da nossa filha! Perdi a cabeça completamente, pois claro! Fui lá durante a aula e esmurrei o homem… não o deveria ter feito, é certo, sobretudo à frente de toda a gente, mas uma pessoa quando sente, vai fazer o quê? Também não conseguimos estar sempre só a falar, a falar, e a resolver tudo na teoria, não é? Foi um erro, mas foi só isso, e já passou, o que lhe custava perdoar? Olha, obrigada pelo desabafo, é sempre ótimo falar contigo, temos de fazer destes encontros mais vezes, até porque nunca percebi muito bem o que fazes nem como vives, e como é que tens tempo para fazer tudo e andar sempre bem disposta. Esta cerveja estava ótima, da próxima convido-te eu.
A inútil e lúcida autocrítica

É assim que eu vejo a vida, devíamos ser todos livres em vez de nos estarmos para aqui a debater por isto ou por aquilo, a criar conflitos e confusão, quando na verdade nem estamos convictos do que realmente queremos