A Thomson, marca francesa fundada em 1893 e que pertenceu recentemente ao grupo chinês TCL, prepara-se para reforçar a sua presença em Portugal com a chegada iminente de uma nova linha de televisores ao mercado nacional.
Alicia Fernández é diretora de vendas e marketing da Thomson na Península Ibérica desde janeiro, coincidindo com o início das operações da Streamview Iberia em Espanha e Portugal. Natural de Espanha e com 39 anos, Alicia Fernández tem formação em Direito e Administração. Iniciou a sua carreira na empresa de auditoria KPMG, passou pela HP na área de impressão e esteve mais de 11 anos na TP Vision, responsável pela marca Philips TV, sempre ligada ao setor dos televisores. Em entrevista exclusiva à Exame Informática, Alicia Fernández revela os desafios e os objetivos da Thomson nos mercados português e espanhol.
Como descreve o mercado ibérico para a Thomson neste momento?

Em Espanha é complicado, porque no ano passado houve o “switch-off” [desligamento do sinal analógico], e agora o mercado está em queda, entre 30% a 60%. Não é fácil começar num mercado em declínio. Já Portugal, como sabem, é um mercado ‘louco’. É o segundo com os preços mais baixos da Europa, muito agressivo, muito orientado para promoções. E há novos concorrentes a tentar entrar, como a TCL. Portanto, não é fácil, mas estamos motivados, porque estamos a oferecer algo que os outros concorrentes não têm.
Quais são os principais desafios e oportunidades que têm enfrentado?
O principal desafio é que este é um mercado muito consolidado, com vencedores bem definidos — coreanos, como LG e Samsung. E, nos últimos anos, apareceram marcas novas como a TCL e a Hisense, especialmente esta última em Portugal. Como disse, é muito competitivo, há muitos mais concorrentes aqui do que no resto da Europa. Mas o nosso foco, sinceramente, é que o nosso principal concorrente é a Philips — também são europeus, também têm bons produtos e têm o Ambilight. Não queremos competir com marcas que aparecem e desaparecem com promoções, como a Xiaomi. Queremos competir com os grandes.
Qual tem sido a estratégia da Thomson para se diferenciar da concorrência em Portugal e Espanha? Têm um posicionamento específico nestes mercados?
O que temos feito é focar na inovação útil. Preocupamo-nos com o que as pessoas realmente precisam, em vez de pensar apenas no que podemos oferecer tecnicamente. Podemos oferecer 8K? Sim. Podemos fazer OLED de última geração? Sim. Mas faz sentido? Não creio. Temos de entender as necessidades dos mercados. Por exemplo, em Portugal, muita gente ainda usa boxes, por isso faz mais sentido ter uma televisor sem acesso à internet. Em Espanha, as pessoas precisam mais de Smart TVs para se ligarem. Portanto, adaptamo-nos às necessidades reais dos consumidores.
Que produtos ou segmentos têm registado maior crescimento na Península Ibérica? E quais têm mais potencial?
Em termos de polegadas, adoraria dizer que os tamanhos XL estão a crescer mais, e é verdade, mas os televisores com dimensões de 24 e 32 polegadas ainda são uma grande parte do mercado. Todos falamos de resolução Ultra HD, mas HD e Full HD ainda são fundamentais. Por isso, também oferecemos 32” HD, 24” HD, e até QLED HD. Em termos de tecnologia o OLED continua presente, mas as pessoas começam a perceber que não é o que esperavam — é ótimo, mas requer condições ideais. Mini LED também não está a resultar como se esperava. A tecnologia QLED é a mais importante neste momento é a que mais está a crescer. E por isso estamos a apostar também em QLED em tamanhos pequenos, como 24”, o que ninguém mais tem no mercado.
Com que parceiros estão a trabalhar cá em Portugal? Worten? Fnac? MediaMarkt?
Sim, esperemos que em maio já estejamos na Fnac e MediaMarkt. E também estamos a tentar fechar contrato com a Worten. A Databox é um dos principais distribuidores e ajuda-nos a chegar a retalhistas que não conseguimos alcançar diretamente.
Como selecionam os parceiros e distribuidores locais?
A Worten tem 40% do mercado — é um parceiro-chave. A Fnac e a MediaMarkt, com a fusão, são o segundo maior retalhista. Mas não é só o tamanho — também o que oferecem. A Fnac é conhecida pela tecnologia, certo? Por exemplo, quando falamos de QLED, com preço mais alto, é um produto ideal para a Fnac. Para televisores com grandes volumes de vendas como de 32” ou 43” Full HD, aí sim, a Worten e a MediaMarkt são fundamentais.
Quais são as expectativas da Thomson para esta nova linha de produtos em 2025?
Em termos de quota de mercado, as reuniões que tive com os retalhistas foram boas — acreditam nos nossos produtos. E acho que os portugueses confiam na marca Thomson. É uma marca europeia, bem conhecida aqui. Espero que possamos corresponder às expectativas dos utilizadores. Mas Portugal é um mercado muito promocional, com preços muito agressivos. Temos de alinhar com esses preços, porque a marca ainda não é tão reconhecida como gostaríamos. Mesmo com um bom produto, sem preço competitivo, é difícil. Mas acredito que podemos fazer um bom trabalho aqui.
Que tendências tens observado nos hábitos de consumo tecnológico em Portugal e Espanha?
Em Espanha, os tamanhos XL — 55” e 65” — estão a crescer mais do que em Portugal. Ao mesmo tempo, os preços médios estão a cair nessas gamas. Em geral, os consumidores querem ecrãs maiores, mas mais baratos. Não procuram 8K ou algo super premium. Procuram algo “bom o suficiente” para desfrutar. E aí temos uma grande oportunidade — temos bons produtos, a bom preço. Não temos TVs topo de gama de 5.000 euros, porque isso não faz sentido. Não é o que as pessoas procuram.
O que podemos esperar da Thomson no mercado ibérico nos próximos 12 meses? Qual é o grande objetivo para o próximo ano?
Temos de estar nas lojas. Já provámos noutros países que, com as mesmas ferramentas dos concorrentes, temos bom desempenho. Em França, somos o número 3 nas vendas online. Mas para isso, precisamos de espaço nas lojas — e isso não é fácil, porque implica tirar alguém de lá. As lojas não estão a crescer. Se no final do ano tivermos televisores da Thomson ao lado das Samsung, isso significa que tivemos sucesso.
E para Portugal, o objetivo principal é fechar com a Worten este ano?
Sim. E não acho que vá ser difícil. Começámos as conversas no início do ano, estávamos prestes a fechar contrato, mas a Worten mudou toda a equipa comercial. Agora temos de recomeçar o processo. Mas o feedback sobre os nossos produtos foi muito positivo. E temos uma vantagem: não vendemos apenas televisores — também vendemos projetores e dispositivos de streaming. Há menos concorrência nesses produtos. E isso ajuda-nos a abrir portas, mesmo em retalhistas que não estejam tão interessados nos televisores.