Durante mais de 60 anos, os Concentus Musicus de Viena foram porto de abrigo do seu fundador, o maestro Nikolaus Harnoncourt, e lugar de partida para a sua permanente viagem musical, sempre marcada pela intensidade, pela interpretação autêntica e vibrante que impunha. A apresentação é da própria orquestra e, de algum modo, constitui o seu manifesto. A sua determinação. Com quase seis anos andados sobre a morte do regente, os Concentus Musicus de Viena mantêm a inquietação que sempre esteve na base das suas melhores interpretações.
Dois álbuns entretanto editados comprovam-no e culminam o trabalho desta meia década, os concertos ao vivo, as produções postas em cena e demonstram como a escolha de Stefan Gottfried, para diretor musical, foi mais um ato da genialidade do grande maestro. Assistente de Harnoncourt desde 2004, com ele os Concentus Musicus mantêm a exigência, a essência do processo criativo, a lealdade ao espírito de cada trabalho e a linguagem musical altamente distintiva que sempre os caracterizou. E mostram como uma grande orquestra, quando quer, é para sempre. E os Concentus Musicus querem. E muito.
Eis as provas: duas gravações dedicadas a Franz Schubert, o compositor que Harnoncourt sempre disse ter mais próximo do seu coração. No primeiro, com edição anterior à pandemia, a 7.ª Sinfonia, dita a “Incompleta”, é acompanhada por alguns dos seus mais carismáticos ‘lieder’, orquestrados por Johannes Brahms e Anton Webern; no segundo, recém-editado, a 5.ª Sinfonia do jovem Schubert, concluída em 1816, quando o compositor somava 19 anos, enquadra-se em Viena e na sua relação mais próxima com Joseph Haydn, através de uma das 12 “Sinfonias de Londres”, a n.º 99, em Mi bemol maior, obra da maturidade, escrita para a capital britânica, em 1793. As duas peças estão afastadas por 23 anos, que fazem diferença, embora o ‘fantasma’ de Mozart inevitavelmente as aproxime, assim como o domínio da forma e, em simultâneo, a inventividade melódica.
Gravado ao vivo no Musikverein, em Viena, em outubro do ano passado, o novo álbum deixa bem sublinhado, na interpretação, o espírito de Harnoncourt e o seu reconhecimento de que “a arte é sempre nova”, e em cada interpretação se revela.
No álbum anterior, o baixo-barítono Florian Boesch interpreta sete dos mais famosos ‘lieder’ de Schubert, abordados pela perspetiva romântica de Brahms, e pela contemporaneidade de Webern. Aqui estão canções vindas dos ciclos “A Bela Moleira”, “Viagem de Inverno” e “O Canto do Cisne”, na leitura de Webern, assim como “Du bist die Ruh”; e aqui estão também “Memnon”, “Geheimes” e “Gruppe aus dem Tartarus”, segundo Brahms.
Os ‘lieder’ abrem de facto caminho à 7.ª Sinfonia, agora ‘acabada’ com dois movimentos adicionais: um Scherzo esboçado por Schubert, que o compositor Nicola Samale desenvolveu em 2015, com o musicólogo Benjamin-Gunnar Cohrs, e o ‘entreato’ de “Rosamunde”, que abre caminho ao final, nada menos do que a abertura de “A Harpa Mágica”, inspirada no conto de Hofmann, para afirmar a diferença com a música incidental anterior, e não deixar dúvidas sobre as linhas genealógicas de Viena, no compositor.
Quer o acaso que os dois discos dos Concentus Musicus de Viena, em torno de Schubert, se cruzem agora com a edição de uma terceira e fulgurante gravação de 2011, da 5.ª Sinfonia de Beethoven, em concerto, com a Grande Partita de Mozart, dirigidas por Nikolaus Harnoncourt, com a Filarmonia de Zurique, ‘completando’ a genealogia do final do Classicismo e de afirmação do Romantismo, na capital austríaca.
A importância é tanto maior quanto revela também, de algum modo, uma preciosa ‘peça perdida’ na abordagem de Harnoncourt à 5.ª Sinfonia de Beethoven. Depois da primeira edição em disco, no âmbito da ‘ultrapremiadíssima’ integral das sinfonias do mestre de Bona, com a Orquestra de Câmara da Europa, em 1992, e da interpretação com os Concentus Musicus de Viena, gravada em 2015, surge agora este “Adeus, Zurique”, com geniais leituras de obras maiores de Mozart e Beethoven, em abordagens mais rápidas, mais ousadas e – indiscutivelmente, sobretudo no caso do compositor alemão – mais plenas de bravura.
Passado o concerto, o álbum culmina em dez preciosos minutos e 48 segundos de ensaios, com Harnoncourt a expor a sua visão de uma arte constantemente renovada em Beethoven, em torno da importância do andamento mais lento e do silêncio de que têm de partir os tímpanos (timbales), para que o final se revele em toda a força – como o bater do coração da orquestra, da obra, no seu ritmo, com a sua máxima energia, na sua essência. Brilhante. A prova de que um grande maestro não morre.