É uma biografia “rara” a do Manuel António Pina escrita pelo Álvaro Magalhães (AM). E a entrevista que com ele, AM, publicamos nestas páginas, dá muito bem a a qualidade da obra e do autor, bem assim os aspetos, as perspetivas e características dominantes do livro. Tal “raridade” resulta fundamentalmente da enorme proximidade e amizade, do convívio permanente, até coautoria de textos, de biografado e biógrafo. Assim, Para quê tudo isto? é também (ou sobretudo?) um extenso magnifico ensaio literário sobre a obra do escritor e um expressivo e sentido testemunho pessoal sobre a figura do homem e amigo muito admirado.
Não recordo nenhuma outra biografia, pelo menos em língua portuguesa, que neste aspeto se lhe compare. Pelo conhecimento, diria quase por dentro, do escritor e do que escreveu por parte de quem sobre ele escreve, numa espécie de total “identificação”, até na conceção da literatura e da poesia. Estamos perante uma biografia essencialmente “literária” de quem, desde muito novo, teve na literatura e nos livros constante companhia e conforto, principal alimento e motivo de interesse, às vezes quase se diria base para a compreensão do mundo e razão de ser. “Literatura que faço, me fazes”, escreveu entre muito mais o poeta que fez de palavras e das palavras a sua vida – sem nunca esquecer as pessoas e o mundo em que vivemos.
Sendo um homem de uma grande cultura, e não só literária, Pina não era porém o intelectual transpirando sapiência, pedante, afetado, convencido, chato. Exatamente ao contrário: era divertido, sem sombra de vaidade ou pretensão, com grande sentido de humor, excelente e constante contador de boas histórias, sempre inventivo, envolvente, surpreendente. No dia-a-dia como nos poemas, nas crónicas, nos textos e nas peças (também) para a infância. E AM ‘conta’ e sublinha tudo isto muito bem.
No livro também não se esquecem, nem deixam na sombra, várias fases da vida do biografado. Na narrativa saborosa de AM, com algumas semelhanças com a de Pina, temos as fases de jogador de póquer, praticante de artes marciais (viet-vo-dao, imagine-se!), publicitário, guionista (exatamente com o seu agora biógrafo), militante político de esquerda, e por aí fora. Além, claro, da sua atividade no teatro, não só autor mas, por exemplo, fundador da companhia Pé de Vento; de apaixonado pelo cinema, capaz de ver num dia dez vezes a mesma fita, com o seu velho amigo, realizador, João Botelho. E etc, etc – incluindo o diário frequentador de cafés e bilharista, com um grupo que se intitularia Associação dos Amigos à Espera do Pina, de que o próprio Álvaro Magalhães era o “presidente”.
O autor realça e faz ressaltar ainda, com inteira justeza, a cordialidade, a bondade, a humanidade do Pina. Às vezes com assomos de mau génio: “Um santo furiosos” lhe chama, num dos 51 capítulos do livro. E ao mesmo tempo, além do mais, com a mania das doenças (com o seu proverbial humor dizia: “Eu tenho todas as doenças, só não sou hipocondríaco”…) e o “grande prazer da balda”.
O que creio bastante omisso ou desvalorizado na obra é o Pina cronista e jornalista. Lembro e saliento que ele foi, em meu juízo, o melhor ou mais completo cronista português. Na crónica mais, digamos, literária – como Rubem Braga no Brasil – e mesmo na crónica de costumes ou até, nos últimos tempos, política, na sua coluna no Jornal de Notícias (JN). Aliás, umas das capas que o JL lhe dedicou foi aquando da edição do 2º volume com crónicas suas, coligidas por Sousa Dias (JL 1035, de 2/6/2010). E quando o Clube de Jornalistas, sendo eu seu presidente, criou o prémio de crónica, por nos parecer injusto não haver um galardão para distinguir esse género jornalístico/literário, o Pina foi o galardoado, por unanimidade, logo na sua 1ª edição.
Mas além de ao cronista (e já para já não falar do colaborador de revistas e jornais , aqui no JL desde o nº 2), julgo que a biografia devia ter dado mais atenção ao jornalista de banca, como repórter, redator e a certa altura até chefe de redação do JN. Esse não é um aspeto assim tão menor da sua vida. Ora, para lá das referências mais ou menos noticiosas ou circunstanciais, nem um capítulo merece. Mesmo “histórias” interessantes não faltavam, que o diga o Germano Silva (e o AM seguramente bem sabe); como não costumam faltar na que o (Fernando) Assis (Pacheco), chamou a “profissão dominante” – para citar outro nosso comum amigo e camarada, que o Pina muito admirava também como poeta.
Aliás lembro-me do Pina me contar, por exemplo, uma história politicamente significativa: um governante de topo, por si bastante criticado nas crónicas do JN, tentou aliciá-lo ou “comprá-lo”, convidando-o para administrador de um importante equipamento cultural público. Olha o Pina “administrador”!. E imagine-se como lhe respondeu…
Em conclusão: uma muito boa biografia literária, seguramente a mais completa obra sobre o Pina poeta e criador, um muito bom retrato do seu percurso de vida e da singular figura de homem e cidadão – que, até por isso, exigia uma maior presença do cronista ímpar que foi e do jornalista também (re)conhecido e com largos anos de atividade profissional.