Nasceu em Budapeste, na Hungria, e vive no Canadá, onde se dedicou, durante décadas, à medicina familiar e aos cuidados paliativos, tendo acompanhado casos de toxicodependência e doença mental, na zona leste de Vancouver, até à reforma. Aos 79 anos, é mundialmente conhecido pelas suas ideias revolucionárias, por vezes polémicas, sobre saúde, doença e trauma, que ele próprio sofreu quando, em criança, foi separado da mãe e perdeu os avós maternos durante a deportação dos judeus húngaros. O documentário A Sabedoria do Trauma, no qual explica como a dor profunda pode ser uma porta para a cura, foi visto por mais de dez milhões de pessoas e exibido em escolas e prisões.
Autor, orador e convidado assíduo de podcasts, Gabor Maté tem uma legião de fãs nas redes sociais (mais de um milhão e meio de seguidores no Instagram) e o seu mais recente livro, O Mito do Normal (Lua de Papel, 640 págs., €22), escrito em parceria com um dos três filhos, Daniel Maté, é um best-seller mundial (em Portugal, a primeira edição esgotou). “A cultura tóxica em que vivemos desvaloriza o impacto do trauma e do stresse”, fez saber o autor, durante a conversa remota com a VISÃO. É preciso reformar o sistema, a partir de dentro.
Afirma que o modelo médico reduz eventos complexos à biologia sem ver o todo. Pode explicar?
A medicina evoluiu muito, nos tratamentos, na cirurgia, mas só tem um século. Encara a doença e a cura de forma limitada, excluindo evidências da sabedoria ancestral, como a unidade entre corpo e mente e os estudantes de Medicina não têm aulas sobre isso. Se eu disser que a artrite reumatoide ou a esclerose múltipla assentam no trauma e no stresse, a maioria dos reumatologistas e neurologistas não faz ideia do que estou a falar. Há quatro anos, um estudo feito em Harvard mostrou que mulheres com perturbação severa de stresse pós-traumático têm o dobro do risco de desenvolver cancro nos ovários, mas o oncologista médio também não sabe. Há uma lacuna ideológica entre o que mostra a Ciência e a prática clínica, e isso é trágico.
Mantém-se o que o neurocientista António Damásio revelou na obra O Erro de Descartes?
Sim. Ignora-se ainda o aparato emocional que nós, seres racionais, temos e que influencia o pensamento e o comportamento. Nos anos 1870, o neurologista francês Jean-Martin Charcot, um dos primeiros a descrever a esclerose múltipla, disse que a doença assentava na tristeza e no stresse. Hoje, um neurologista não faz perguntas sobre isso nem pensa se atuar a esse nível se traduz em melhorias, limita-se a prescrever fármacos. De resto, a maioria das inflamações trata-se com remédios à base de cortisol, uma hormona de stresse, sem que se questione o papel que tem nestas condições.
Porque afirma que a doença é uma resposta normal a circunstâncias anormais?
Em medicina, o termo “normal” é sinónimo de saudável ou natural. O problema é em pressupor que o mesmo sucede na sociedade, vermos aquilo a que estamos habituados como saudável e natural, não sendo o caso. Dou-lhe exemplos. No Canadá, a prevalência de artrite reumatoide nas mulheres indígenas é seis vezes superior à dos homens caucasianos. Antes da colonização, elas não sofriam da doença; passaram a tê-la em circunstâncias anormais: opressão racial, abuso sexual, crianças separadas da família e gozadas nas escolas residenciais e o trauma multigeracional. Nos Estados Unidos da América, ser uma mulher negra significa suportar episódios de racismo e, também, ser mais propensa a ter asma. O racismo pode ser normal na América, mas é saudável? A doença é um problema individual ou a representação de um contexto adverso? A anormalidade começa no sistema onde o indivíduo se insere.
Trabalhou com adições e admite que também passou por isso. A que se devem?
A adição é encontrar prazer ou alívio temporário em algo e sofrer as consequências, entrando, depois, em estado de carência. O que se ganha é danoso a longo prazo, mas não se consegue desistir, apesar disso. Note que não falei de drogas, pode ser qualquer tipo de comportamento. Eu era viciado em compras e trabalho, mas podia ser em sexo, pornografia, jogo, internet, telemóveis, comida… o problema principal é o sofrimento emocional, a adição é a tentativa de resolvê-lo, ou de fugir dele. A pergunta deve centrar-se na causa da dor, que advém do stresse, ou de algo que aconteceu na vida e nos privou da capacidade de lidar com ela. Nem todos os que sofreram traumas têm dependências, mas quem as tem viveu um trauma.
O “novo normal”, de que se falava na pandemia, representa a banalização da experiência de dor?
A pandemia não causou um mal preexistente, apenas trouxe à superfície a epidemia da solidão no mundo ocidental. Embora comum, não é saudável para a condição humana, antes uma doença social, física e mental.
Como superou o trauma dos seus ascendentes, vítimas do Holocausto, ou se pacificou com ele?
O trauma não é o que nos acontece mas o que se passa dentro de nós como resultado daquilo que nos acontece. Cada geração transmite-o à seguinte, não porque o queira, mas por ser incapaz de o evitar até curar a ferida. Quando eu tinha um ano de idade, durante a ocupação nazi na Hungria, a minha mãe entregou-me a um estranho e salvou-me a vida. A mensagem que recebi foi “não sou digno de ser desejado e amado” e passei parte da vida a tentar provar que merecia amor e era importante aos olhos dos outros, em vez de me conhecer. Isto acontece às crianças, sobretudo às mais sensíveis, pois ficam com a ideia de que têm alguma coisa de errado e começam a reger-se pelo amor condicional: têm de ser queridas, bondosas ou bem-sucedidas para que gostem delas. Senti esta mágoa profunda e transmiti-a, também, aos meus filhos.
A maioria dos políticos, e o sistema em geral, proclama uma visão falsa do mundo. Precisa de despertar para a realidade sem medo de discordar e ver as coisas de forma mais profunda
Como se evita que as feridas passem para a geração seguinte?
É preciso reconhecer e lidar com as próprias mágoas. Só o fiz depois dos 40 anos, quando já era um médico conhecido, entrei em depressão e a minha vida como marido e pai não estava a correr bem: tive de questionar-me e de sofrer para despertar. Recuperar daquilo que não gostamos em nós é um exercício contínuo. Para isso, procuro alimentar-me bem, nadar diariamente, dedicar algum tempo à contemplação, à leitura e ao descanso e garantir que os meus relacionamentos significativos estão a funcionar. Se trabalhar demais e ignorar estes aspetos, fico muito tenso e desenraizado. Além disso, há que ser capaz de perceber as necessidades dos filhos, ditadas pela evolução: os mamíferos precisam de ser acariciados e abraçados. Os humanos têm necessidade de ser vistos e compreendidos nas suas emoções, de ter tempo de qualidade. No livro O seu filho precisa de si [Ideias de Ler, 2021], chamei a atenção para isso. Os relacionamentos primários estão a ser substituídos pela influência dos pares, que são imaturos. É uma das toxicidades da nossa cultura.
Como responde aos que o criticam, alegando que vemos o trauma em cada esquina?
No ano passado, estive em Portugal com a minha mulher [a artista canadiana Rae Maté] e vimos o monumento de homenagem aos soldados mortos em combate na Guerra Colonial. Sucedeu em Espanha, na Hungria, na Rússia, nos Estados Unidos da América, no Canadá… Há uma grande negação da História e do impacto do trauma nas pessoas, do qual só agora se começa a falar. Portugal tem uma vantagem por preservar a coesão social e as ligações familiares, comparativamente a outros países, mas elas estão ameaçadas pelos efeitos do capitalismo global. Numa cultura tóxica, que tende a isolar as pessoas, não é de estranhar que as doenças mentais e autoimunes estejam a aumentar.
É possível reverter essas doenças?
Nos últimos cinco anos, foram publicados dois livros além do meu que o confirmam, até em casos terminais. Há uma história célebre, publicada no The New York Times, há uns anos, que teve lugar na ilha grega de Icária (“A ilha onde as pessoas se esquecem de morrer”) – e onde estive recentemente –, conhecida pela longevidade dos habitantes. Um veterano de guerra (Stamatis Moraitis) foi aos Estados Unidos da América tratar o braço mutilado em combate. Lá, casou-se com uma greco-americana e, aos 60 e tal anos, diagnosticaram-lhe um cancro agressivo no pulmão. Os médicos deram-lhe nove meses de vida. O casal regressou à ilha e o homem recebeu visitas de familiares e amigos, um dia saiu da cama e sentou-se na varanda e, aos poucos, começou a trabalhar na vinha e no olival. O cancro desapareceu e, vinte anos depois, voltou aos Estados Unidos da América para os médicos lhe explicarem o que tinha acontecido, só que eles já tinham morrido, enquanto ele viveu até aos 102 anos! Não foi um milagre: quando o sentido de comunidade toma o lugar do stresse, a fisiologia altera-se. Conheço casos parecidos, em que não havia remédios nem esperança na cura, mas sobreviveram porque, mostra a Ciência, a solução estava na ligação entre o corpo e a mente e nos relacionamentos sociais.
E se houver predisposição genética para a doença, física e mental?
Existem marcadores físicos para algumas doenças, mas na doença mental não se encontrou um gene que a cause. Além disso, as doenças genéticas são raras. Os genes determinam a vulnerabilidade para ter doenças, não as causam. A predisposição está nos fatores ambientais e nas experiências de vida.
Qual é a sua experiência relativamente ao uso dos psicadélicos no tratamento do trauma?
Os psicadélicos são usados, há muitos anos, em várias partes do mundo, embora falte evidência científica. Não são uma panaceia nem vão salvar o mundo mas, no contexto certo – e dependendo de quem acompanha o processo –, podem ser úteis nos casos em que a medicina ocidental não teve resultados palpáveis e, devo dizer, muitos dos fármacos prescritos em psiquiatria são potencialmente mais danosos. É estúpido, da parte dos governos, serem tão rigorosos e proibitivos. Devem existir mais estudos e uma mente aberta.
É verdade que diagnosticou o príncipe Harry com défice de atenção, em março, a partir da autobiografia dele (Na Sombra)?
Quem o afirmou não sabe do que fala. Escrevi um livro há 25 anos sobre o tema, quando me diagnosticaram a doença, e percebi que não era genética, embora dois dos meus filhos a tenham. O défice de atenção não é uma doença, é um mecanismo de defesa contra o stresse e resulta da influência do ambiente emocional e familiar na química cerebral. Mostrou-o, há onze anos, um artigo do The Journal of Pediatrics. Quando o príncipe Harry era pequeno chamavam-lhe estúpido, insolente, bronco. Ele não é um paciente meu nem lhe fiz um diagnóstico formal, apenas sugeri que as suas dificuldades de concentração eram uma resposta normal a circunstâncias muito anormais, na família: um casamento sem amor, casos do pai antes de Harry nascer e falta de vinculação física dos familiares, à exceção da mãe, que estava muitas vezes ausente.
Olhando para os conflitos que existem no mundo – do conflito de Israel à guerra na Ucrânia –, acredita numa sociedade melhor?
Não tenho uma fórmula para curar a sociedade e, se tivesse, quem iria ouvir-me? Vladimir Putin não me telefonou a pedir conselhos, Viktor Orbán e Joe Biden também não. A maioria dos políticos, e o sistema em geral, proclama uma visão falsa do mundo. Precisa de despertar para a realidade sem medo de discordar, e ver as coisas de forma mais profunda. Esse é o meu trabalho, despertar consciências.
