Entrou pela primeira vez no Bundestag aos 30 anos, com o cabelo certinho, bem penteado para a direita. Conservador, no estilo e na forma de olhar para a política internacional, foi um dos arquitetos da construção do mundo novo, após a queda do muro de Berlim em 1989. Só saiu do Parlamento germânico quase 50 anos depois. Deixa um legado ao país, à Europa e ao mundo.
Foi o homem das pastas pesadas. Enquanto ministro do Interior, assumiu uma figura central na reunificação da Alemanha. Vítima de uma tentativa de assassinato nessa época, depois de ter sido baleado numa campanha nas primeiras eleições do país unido, escapou à morte, mas ficou paralisado da cintura para baixo – e confinado a uma cadeira de rodas desde então. Três anos depois esteve em Maastricht a negociar a formação da União Europeia, tendo sido um dos mais convictos europeístas desde então.
“Wolfgang Schäuble moldou o nosso país por mais de meio século: como membro do Parlamento, ministro e Presidente do Bundestag. Com a sua morte, a Alemanha perde um pensador perspicaz, um político apaixonado e um democrata controverso”, escreveu Olaf Scholz, Chanceler da Alemanha, nas suas redes sociais.

Nasceu em Freiburg, na Alemanha, bem perto da fronteira com França e Suíça. Estudou na sua cidade natal e, mais tarde, na universidade de Hamburgo, já mais perto de Berlim. Depois de uma licenciatura em Direito, decide aventurar-se na vida política (1969) como membro da juventude partidária da CDU – União Democrata-Cristã. Nunca mais dela saiu.
Foi eleito para o Parlamento germânico três anos depois e, em 1984, estreia-se como ministro dos Assuntos Especiais. No Bundestag foi ministro do Interior (1989 e 2005), ministro das Finanças (2009) e presidente do Parlamento (2017). Foi eleito líder da CDU em 1998, mas afastou-se um ano depois, após o escândalo de financiamento indevido do partido.
A austeridade alemã e as contas certas
Enquanto o sul da Europa vivia a crise da dívida soberana, Schäuble acabava de se tornar ministro das Finanças alemão, ao lado de Angela Merkel – chegou a ser descrito, na altura, como a segunda figura mais importante do país, só atrás da ex-chanceler. As imagens dos dois, juntos, afirmar-se-iam numa altura em que a Europa precisava de uma voz coesa e firme. Muitas vezes, essa foi a voz de Schäuble – que foi também uma voz marcada pela rigidez e, tantas vezes, pela inflexibilidade.

Nessa época, adotou uma postura rígida e intransponível com os países à beira do Mediterrâneo, onde se inclui Portugal. Chegou a rejeitar os apelos do Fundo Monetário Internacional (FMI), que pedia mais tempo para a Grécia atingir os objetivos no controlo do défice. A sua obsessão pelas contas certas levou-o a anunciar, em 2014, que a Alemanha não iria aos mercados no ano seguinte para emitir nova dívida, pela primeira vez desde 1969.
Numa entrevista ao Financial Times, em 2019, Schäuble admitia algum “arrependimento” na forma como geriu a crise. “Sinto-me triste, porque tive um papel em tudo isso. E penso como podíamos ter feito as coisas de forma diferente”. Nessa mesma entrevista, admitiu ainda que chegou a propor uma saída da Grécia da EU, em 2015, mas a ideia foi chumbada por Merkel – levando o antigo ministro a uma quase demissão nessa altura.
A sua relação com Merkel viveu muitos altos e baixos. Em 2011, após uma cimeira do G20, a então chanceler alemã falava aos jornalistas sobre a decisão de bloquear um novo empréstimo à Grécia, quando foi interrompido pelo seu ministro das Finanças. Schäuble disse a todos que tinha sido sua ideia negar o apoio. Merkel confirmou.

Numa entrevista à Reuters, nesse mesmo ano, Schäuble garantiu total “lealdade” a Merkel. “Mas isso não significa que vou estar quieto, que vou ser fácil. Eu tenho liberdade para fazer o que acho que está certo”, acrescentaria. O governante influenciou fortemente a resposta de Berlim à crise, a tal ponto, que muitos congéneres europeus chegaram a dizer que era o único capaz de pressionar Merkel na tomada de decisões.
Nessa época, a relação com Mario Draghi – presidente do Banco Central Europeu da altura – também não era a melhor. Draghi queria fazer tudo para salvar o euro (é desta altura a famosa frase proferida pelo italiano, de que faria ‘Whatever it takes’ para garantir a manutenção da moeda única). Schäuble também o queria, mas a sua definição de “tudo” era diferente da de Draghi.

O elogio ao “Ronaldo das Finanças”
Wolfgang Schäuble anunciou publicamente que era fã do trabalho realizado por Mário Centeno enquanto ministro das Finanças português. Numa reunião do EcoFin, em 2017, chegou a apelidar Centeno como o “Cristiano Ronaldo do EcoFin”. Mais tarde, o atual governador do Banco de Portugal, viria a assumir a pasta de presidente do Eurogrupo.
“Há 12 meses, era tudo tão diferente. Portugal estava à beira das sanções económicas da União Europeia e o sucesso do seu novo Governo de coligação de Esquerda estava longe de ser assegurado”, admitiu Schuble. TInha passado um ano desde que o antigo ministro de Merkel sugerira que o país pedisse um novo resgate, caso não conseguisse cumprir as regras europeias.
Schäuble era um estadista e um europeísta convicto. Um político que acreditava no serviço da ‘coisa pública’. A sua postura e intransigência fizeram com que fosse, muitas vezes, criticado por alguns dos seus pares, mas granjeou sempre o respeito daqueles que com ele privaram pela inteligência, sagacidade e tomada firme de opinião. E também pela capacidade de, de quando em vez, admitir os erros.