Ficou conhecido por ter sido o primeiro a descobrir que o tecido adiposo produzia hormonas, nomeadamente a adiponectina, que regula a sensibilidade à insulina, o sistema imunitário, a atividade anti-inflamatória e a energia gasta e armazenada pelo corpo. No futuro, poderemos manipular esta hormona para promover a perda de peso?
Seguramente poderia funcionar e algumas pessoas já estão a estudar formas de conseguir aumentar a sua produção no nosso corpo, mas, ao mesmo tempo, surgiram fármacos para a perda de peso, de tal forma eficazes que são capazes de resolver a maior parte do problema.
Como é que estes medicamentos funcionam?
O que acontece é que os medicamentos cuja substância ativa é o semaglutido atuam como agonistas dos recetores de GLP-1, uma hormona fisiológica que regula o apetite e a glicose. Além de reduzirem a quantidade de comida que uma pessoa consegue ingerir, fazem-no de uma forma muito saudável, abrandando os movimentos gástricos, fazendo com que a comida permaneça mais tempo dentro do corpo e nos sintamos satisfeitos por mais tempo. E também aumentam um pouco a velocidade do metabolismo.
A partir do momento em que estes medicamentos apareceram, tudo o resto é passado?
Diria que tudo o resto não se compara, nem de longe, com a eficácia e o perfil de segurança destes medicamentos. Isto vai desenvolver-se muito depressa, a partir de agora. Todas as grandes empresas farmacêuticas já têm os seus programas e começam a surgir moléculas semelhantes às que já existem.
Que benefícios para as pessoas com obesidade decorrem da perda de peso provocada pela toma de semaglutido?
Se a pessoa era diabética, a diabetes melhora consideravelmente e, em alguns casos, desaparece mesmo, tal como o fígado gordo. E há ainda uma diminuição do risco de doenças cardiovasculares.
Se o doente parar de tomar o medicamento, o peso volta imediatamente. Muito poucas pessoas têm disciplina para mudar o estilo de vida
O risco de vir a desenvolver um cancro também se reduz?
Para termos a certeza disso teremos de esperar dez a 15 anos. Por exemplo, no caso da cirurgia bariátrica, foi o que aconteceu: o número de ocorrências de cancro a dez anos diminuiu nas pessoas que se submeteram ao procedimento. Estou convencido de que a perda de peso está relacionada com a redução do número de cancros, sobretudo colorretal, pancreático e do endométrio.
Prevê-se que surja uma nova geração deste tipo de fármacos a curto prazo?
Descobriu-se que se, em vez de se estimular apenas o recetor do GLP-1, estimularmos também o recetor do GLP, o medicamento torna-se ainda mais eficaz e as pessoas perdem, em média, 20% a 25% do peso. Pode não parecer muito à primeira vista, mas, numa pessoa com 100 quilos, perder 25 é significativo.
Os doentes terão de tomar estes fármacos durante toda a vida? E podem “habituar-se” a eles?
Nada indica que o corpo crie resistência ao medicamento, precisando de doses superiores. Porém, se o doente parar de tomar o medicamento, o peso volta imediatamente. Muito poucas pessoas têm disciplina para mudar o estilo de vida a ponto de compensar a falta do medicamento e manter o peso baixo. Quando olhamos para os ensaios clínicos que analisaram as pessoas que deixaram de tomar semaglutido, é muito uniforme: o peso volta. E com ele problemas como a diabetes e o risco cardiovascular. Um hipertenso tem de tomar medicação para o resto da vida. No que respeita a estes medicamentos, pelo menos por agora, pensamos que os doentes terão de os tomar também para o resto da vida.
Quais as consequências dessa toma “para a vida”?
Teremos de as avaliar daqui a dez anos, porque os fármacos são ainda muito recentes. Não sabemos quais os efeitos secundários de tomar o medicamento durante 20 ou mais anos, mas, de acordo com o que sabemos agora, a curto prazo parecem ser bastante reduzidos e os benefícios inacreditáveis.
LEIA TAMBÉM:
A nova droga que está a revolucionar as dietas
