Aproveitar medicamentos já testados e aprovados para tratar outras doenças é uma forma de reduzir tempo e dinheiro. Variáveis determinantes em qualquer contexto, especialmente nas doenças parasitárias que afetam sobretudo os países mais pobres.
Baseados neste princípio, uma equipa de investigadores do Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa, vai começar a testar o efeito da metformina, um dos medicamentos mais usados para o controlo da diabetes, no combate à malária.
A ideia começou a tomar forma quando a equipa de Maria Mota, diretora executiva do IMM e investigadora na área da malária, descobriu que existia uma relação entre o estado nutricional do paciente e a taxa de multiplicação do parasita causador da malária, o Plasmodium. Um corpo mais fraco, menos bem nutrido, também não é uma boa casa para o parasita, que sobrevive montado nos glóbulos vermelhos. Ora, o que aquele antidiabético faz é precisamente baixar os níveis de açúcar no sangue. “O parasita ‘pensa’ que o organismo não tem glicose e multiplica-se menos”, explica a cientista.
Para começar a testar a hipótese, a equipa recebeu um importante financiamento do Conselho Europeu de Investigação (ERC, na sigla em inglês), no valor de 150 mil euros. Este sistema de financiamento em particular tem a designação de Proof of Concept e está disponível para investigadores que já receberam bolsas ERC. Destina-se a ajudar os cientistas a explorar o potencial de inovação das suas pesquisas ou apoiar a comercialização dos resultados da sua investigação. Neste caso, a bolsa será usada para testar a molécula em células humanas e em animais, nos chamados ensaios pré-clínicos, que antecedem a fase de testes em pessoas. “Iremos testar este medicamento na prevenção e no tratamento da malária”, avança Maria Mota à VISÃO. Sem vacina disponível, a malária mata 500 mil pessoas por ano, sobretudo crianças com menos de cinco anos