Até às autárquicas de 2017, era um académico com palco televisivo, que comentava tudo – do futebol à política, passando pela segurança e pela criminalidade. A partir daí, com afirmações polémicas em catadupa e espaço semanal na CMTV, André Ventura tornou-se um caso nacional. Acusou a comunidade cigana de ser subsidiodependente, defendeu a castração química de pedófilos e confessou que a prisão perpétua não o chocava. Assunção Cristas retirou-lhe o apoio na corrida à Câmara Municipal de Loures, Pedro Passos Coelho manteve-o, mas nem isso fez com que o ex-vereador continuasse no PSD.
Ventura tornou-se uma espécie de porta-voz da direita insatisfeita com a oferta partidária de que dispunha, radicalizou o discurso e procurou afirmar-se como o homem “antissistema”, que diz as verdades inconvenientes. Intolerante, fascista, racista, xenófobo e machista foram apenas alguns dos rótulos que, em dois anos, se lhe agarraram, mas a verdade é que um partido catalogado como sendo de extrema-direita passou a ter assento no hemiciclo. O Chega entrou no Parlamento.
Jurista de formação – é doutorado em Direito Público pela University College Cork, na Irlanda –, nunca concluiu, no entanto, o estágio de advocacia, e optou pela via do ensino (é professor universitário há oito anos). Curioso é o facto de o 12º ano de escolaridade ter sido cumprido no Seminário de Penafirme, em Torres Vedras. “Isso deu-me muita espiritualidade, mas depois apaixonei-me e saí”, conta Ventura à VISÃO.
Inspetor da Autoridade Tributária desde 2011 – tirou licença sem vencimento quando se tornou regular no comentário televisivo –, é autor de dois romances (Montenegro e A Última Madrugada do Islão). Aos 36 anos, casado, Ventura lamenta que o futebol seja um hobby apenas para ver e analisar. “Cheguei a jogar no Sintrense, mas nunca tive grande sucesso, nunca fui grande jogador”, reconhece. Adora jazz e música espanhola, aprecia um bom whisky e tem como grandes referências intelectuais o filósofo alemão Immanuel Kant e o antigo primeiro-ministro britânico Winston Churchill.
A favor da Europa
Alicerçado por um programa polémico, em que, entre outras medidas, fazia a apologia da “presidencialização do regime”, isto é, da “acumulação, na figura do Presidente da República, das competências hoje atribuídas ao primeiro-ministro”, da “redução drástica” de ministérios, da diminuição, para 100, do número de deputados, de um referendo à Constituição, do recuo do Estado na Saúde na Educação, nos transportes e vias de comunicação, ou ainda de que o aborto e as cirurgias de mudança de sexo sejam “retirados do conceito de saúde pública”, Ventura admite estar à espera de ser recebido com “hostilidade” em São Bento. E até exemplifica com a presença no Prós e Contras de segunda-feira, 7, na RTP, em que, queixa-se, terá sido ignorado por uma adversária. “À saída do debate, a Joacine Katar Moreira não me cumprimentou. Estendi-lhe a mão e ela deixou-me pendurado. Eu estava à conversa com o Paulo Mota Pinto, ele assistiu”, conta o presidente do Chega, acrescentando que “é evidente” que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, não gosta dele, mas, pelo menos, o cumprimentou.
Com 66 442 votos de todo o País no bolso, Ventura recusa os rótulos mas admite que a fórmula do sucesso residiu nas “mensagens claras, sem complexidades”. “Dizemos as coisas que têm de ser ditas e, por muito que custe a muita gente, vamos manter esta dinâmica”, adianta. Por outro lado, não esconde que o resultado do Chega pode ter contribuído para penalizar o PSD e o CDS, este “praticamente morto” considera. Ainda assim, lava as mãos de responsabilidades pela “desagregação da direita” e deixa uma interrogação sobre o espaço habitualmente preenchido pelos centristas: “Quem é que o vai ocupar?” Seja como for, Ventura distancia-se do euroceticismo do PNR e de várias forças de esquerda. “Não somos contra as regras europeias e a estabilidade orçamental prevista nos tratados. Aliás, sair da Europa ou do euro seria um suicídio”, aponta. Porém, assinala que pretende uma União Europeia em que haja “tratamento igual para os Estados-membros” e um controlo apertado das fronteiras externas do espaço comunitário.
Estas ideias parecem, contudo, chocar com outras defendidas anteriormente. Na semana passada, uma investigação do Diário de Notícias revelou que o líder do Chega criticava, na sua tese de doutoramento, de 2013, a discriminação das minorias e que se preocupava com a expansão do poder das polícias. O trabalho académico centrava-se nas políticas antiterrorismo que se seguiram ao ataque de 11 de setembro nos EUA “e o modo como transformaram os sistemas judiciais e policiais” do Ocidente, criando uma “lei criminal do inimigo” que, escreveu Ventura, “pôe em risco os fundamentos constitucionais das democracias”.
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