O mundo católico está em suspenso. Com a morte do Papa Francisco, depois de mais de doze anos de um pontificado transformador, regressa a velha questão: quem será o próximo Papa? Como sempre, especulações multiplicam-se — entre análises geopolíticas, correntes dentro da Igreja, e até… profecias. E é neste ponto que o nome de Nostradamus volta a circular, com um misto de curiosidade, mistério e fascínio.
De entre os seus muitos versos enigmáticos, um em particular chama a atenção de alguns intérpretes modernos: a referência a um sucessor de Roma com “pele escura”, com menos de 80 anos, chamado “Pedro”, que destruirá a “forma papal” tal como a conhecemos. A ideia em si é provocadora. Mas e se a profecia não for lida literalmente? E se “pele escura” não significar tom de pele, mas diferença? E se “Pedro” não for o nome, mas o símbolo do regresso ao essencial, a São Pedro, o primeiro Papa? E se “destruir” a forma papal for, afinal, uma renovação da função, uma evolução da figura do Papa como a conhecemos?
É nesta especulação que o nome de D. José Tolentino Mendonça começa a surgir com força, tanto em círculos religiosos como culturais. Feito cardeal por Francisco e nomeado para funções de alta responsabilidade no Vaticano, Tolentino é uma figura absolutamente singular: poeta, biblista, teólogo, diplomata, humanista. Tem 58 anos — o que o torna um dos cardeais mais jovens com real influência — e é português, da ilha da Madeira.
Há aqui uma convergência rara entre o simbólico e o factual. Um “Pedro” com menos de 80 anos? Tolentino não se chama Pedro, mas representa a espiritualidade original e despojada que a figura de Pedro simboliza. “Pele escura”? Talvez não literal, mas expressão de uma diferença: Tolentino não pertence à elite romana tradicional, não representa o centro, mas sim a periferia do pensamento, o Atlântico, o diálogo. E quanto a “destruir” a forma papal? Se há figura que poderia transformar a imagem do Papa imperial e hierárquico numa liderança mais aberta, fraterna e cultural, é ele.
O próprio aumento do número de países representados no Colégio Cardinalício — de 48 para 71 durante o pontificado de Francisco — reforça a ideia de uma Igreja cada vez mais global e menos eurocêntrica. Mas será esse processo irreversível? Ou, com a morte de Francisco, haverá um movimento de recuo, de regresso ao conservadorismo e ao poder central?
As casas de apostas continuam a apontar para nomes italianos como Pietro Parolin ou Matteo Zuppi. Outros referem o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, uma espécie de Francisco asiático. E há os que sonham com um Papa africano, como Peter Turkson. Mas a verdade é que, historicamente, os favoritos quase nunca são escolhidos. Foi assim com o próprio Francisco, que em 2013 não estava sequer entre os cinco mais falados. O conclave, como já vimos antes, é imprevisível. E o Espírito Santo, dizem os crentes, sopra onde quer.
Numa nota curiosa — ou simbólica — Tolentino Mendonça acaba de vencer o Prémio Eduardo Lourenço 2025, uma distinção atribuída a quem se destaca pela sua intervenção cultural no espaço ibérico. Num ano de transição papal, não deixa de ser significativo que seja justamente um cardeal português, com perfil humanista e ecuménico, a receber um prémio que homenageia a inteligência, a reflexão e o diálogo. O prémio surge quase como um sussurro paralelo ao que se discute em surdina nos corredores do Vaticano.
A tradição tem sido clara: os papas vêm sobretudo da Itália, com raras exceções — Polónia, Alemanha e recentemente Argentina. O peso histórico, cultural e político joga quase sempre contra figuras “fora do eixo”. Mas também é verdade que, nos momentos de viragem, a Igreja surpreende. E se há momento propício à surpresa, é este.
D. Tolentino Mendonça tem uma vantagem: não é divisivo. Não pertence a alas polarizadas. Fala ao mundo com linguagem de pontes, de poesia, de fé com sentido. Nunca impõe. Escuta. É essa uma das maiores marcas que Francisco quis deixar na Igreja: uma liderança feita de serviço, não de trono. Se o conclave quiser dar continuidade a essa herança, Tolentino é um nome possível. E desejável.
É claro que tudo isto pode não passar de projeção, esperança ou coincidência. Mas não deixa de ser significativo que, neste preciso momento histórico, um português esteja tão silenciosamente próximo da linha da frente. E que uma profecia obscura de Nostradamus, lida com olhos contemporâneos, possa encaixar mais num poeta da Madeira do que em qualquer outro nome com maior mediatismo.
A probabilidade estatística pode ser baixa. Mas a possibilidade simbólica e espiritual, essa, nunca esteve tão aberta.
No fim de contas, talvez o “Pedro” que vem aí não seja o destruidor da Igreja, mas aquele que lhe devolve o rosto humano. E se for português, tanto melhor.
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