Mais de cinco centenas de convidados assistiram em silêncio à entrada da urna de Mário Soares nos Claustros do Mosteiro dos Jerónimos, onde decorreu a sessão solene evocativa de homenagem ao antigo Presidente da República.
Faltavam poucos minutos para as 13:00 quando o caixão carregado a ombro por seis militares entrou nos claustros. A urna, coberta com a bandeira nacional, foi colocada no “palco” instalado no centro dos claustros.
A cerimónia de homenagem ao antigo presidente da República, que morreu sábado aos 92 anos, começou com a audição das primeiras palavras que proferiu, enquanto primeiro-ministro, na cerimónia de assinatura do Tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia, a 12 de junho de 1985, há quase 32 anos, no claustro do Mosteiro dos Jerónimos.
“Nestes claustros velhos de quatro séculos juntam-se hoje o passado e o futuro de Portugal. Ao realizar aqui a cerimónia histórica da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal às Comunidades Europeias, quisemos sublinhar que a fidelidade às nossas raízes e tradições constitui condição essencial para a construção do futuro”, disse então Mário Soares.
Depois de se ouvir o hino nacional, João Soares, filho do antigo Presidente da República, fez a primeira intervenção da cerimónia.
Marcelo Rebelo de Sousa: Um homem que fez história merecia este inspirador lugar
O Presidente da República recordou Mário Soares como um “singular humanista e construtor de portugalidade” e considerou que, como “um homem que fez história”, merecia ser homenageado num lugar como o Mosteiro dos Jerónimos. “Inspirador lugar este em que nos encontramos, gentes de várias raízes e destinos, unidas pelo essencial: evocar e homenagear um homem que fez história, sabendo que a fazia, mesmo quando tantos de nós nos recusávamos a reconhecê-lo”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa.
O chefe de Estado, que falava no final de uma cerimónia evocativa de homenagem a Mário Soares, no Claustro do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, referiu que “aqui se fizeram mais de quinhentos anos de história” e que “cada pedra” fala das aventuras portuguesas, provações, sonhos e guerras.
“Mais do que os respeitosos Paços do poder, em Belém ou em São Bento, este lugar é aquele que Mário Soares merecia para o nosso inesquecível encontro”, considerou.
Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que “nestes Jerónimos se convocam a história que estudou, antes de a fazer, a cultura que criou com talento e com deleite, e o ecumenismo que foi o corolário inevitável da sua inteligência e da sua liberdade”, bem como “o humanismo e a portugalidade” de Mário Soares.
António Costa: “Foi o rosto e a voz da nossa liberdade”
O primeiro-ministro juntou-se hoje à sessão evocativa de homenagem a Mário Soares no Mosteiro dos Jerónimos, através de uma mensagem em vídeo, em que o recordou como “o rosto e a voz” da liberdade em Portugal.
“Mário Soares foi, em momentos decisivos, o rosto e a voz da nossa liberdade. Desse título, que era certamente aquele que mais lhe agradaria, raros homens se podem orgulhar”, afirmou António Costa, numa intervenção de cerca de dez minutos que gravou na Índia, onde se encontra em visita de Estado.
Dirigindo-se aos “familiares, amigos, admiradores e camaradas de Mário Soares”, e em especial aos seus filhos, “cara Isabel, caro João”, o primeiro-ministro e secretário-geral do PS começou o seu discurso declarando: “Entregamos hoje às gerações futuras a memória de um grande português de quem tivemos o privilégio e a honra de ser contemporâneos”.
“Mário Soares construiu a história e, por isso, a história guardará o seu nome, a sua obra, o seu exemplo. É um exemplo de combate constante por aquilo em que acreditava. É um exemplo de coragem de dizer o que pensava e de fazer o que devia, ainda que fosse o único a dize-lo e a faze-lo, mesmo que ficando por uns tempos, mas apenas por uns tempos, sozinho. É um exemplo de génio político, que alcançava o que parecia impossível de alcançar”, acrescentou.
Ferro Rodrigues: “militante número 1” da democracia portuguesa
O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, definiu hoje Mário Soares como “o militante número 1” da democracia portuguesa, um homem entre os “imprescindíveis”, que “pôs sempre Portugal em primeiro lugar”.
“Mais do que militante número 1 do PS, foi o militante número 1 da nossa democracia”, afirmou Ferro Rodrigues na sua intervenção na solenidade evocativa da memória de Mário Soares, inserida nas cerimónias fúnebres de Estado, que decorrem nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Ferro Rodrigues descreveu o antigo primeiro-ministro e Presidente da República, falecido no sábado, como alguém que “tinha a visão dos grandes estadistas e a intuição dos grandes políticos” e “pôs sempre Portugal em primeiro lugar”.
“Tinha uma sintonia impressionante com o povo português. Os portugueses conheciam-no e ele conhecia bem Portugal e os portugueses”, afirmou.
Citando o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht, o presidente do parlamento colocou Soares entre os imprescindíveis: “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, e há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”, citou.
“Mário Soares lutou até ao fim”, sublinhou Ferro Rodrigues.
Filhos evocam coragem e ânimo nos tempos difíceis evocados com emoção pelos filhos
A coragem de Mário Soares nos momentos difíceis da sua vida foi hoje recordada com emoção pelos filhos João e Isabel, no claustro dos Jerónimos, onde voltou a ecoar a voz do ex-Presidente da República 32 anos depois.
Nós tínhamos aprendido há muito, não se chorava à frente dos PIDES”, disse João Soares, que recordou o dia em que em 1968 ficou a saber, com a sua irmã, avô e mãe, que iam deportar o pai para São Tomé e Príncipe, um dos momentos mais difíceis que Mário Soares enfrentou “digno” e “corajoso como sempre”.
Na sua intervenção João Soares evocou o percurso político do pai, que “sofreu um número de prisões elevado” e foi forçado ao exílio em Paris, durante quatro anos, onde “fez uma vida simples”: “somos testemunhas disso”, afirmou.
Com a voz embargada, Isabel Soares, filha, lembrou os “tempos difíceis esses das prisões, da deportação para são Tomé e do exílio em Paris” mas, frisou, “nem durante esse tempo” se ouviu a Mário Soares um “queixume, uma palavra de desalento ou desânimo”