O POVO
Teresa Duvale, 71 anos, nem foi, como habitual, vender à feira de Santana, na Maia. Ela “tinha de o ver ao vivo”, não podia deixar escapar a oportunidade. E era vê-la, empoleirada no pequeno muro que circunda a escadaria da Câmara Municipal do Porto, a gritar por Marcelo. Pode beija-lo e abraça-lo. E, sobretudo, dizer-lhe que também torce pelo Sporting Clube de Braga.
Mas o que mais divertiu Teresa foi ver como Marcelo dribla a segurança e quebra o protocolo para ir ao encontro do povo. As gargalhadas soam alto, enquanto diz para a filha: “Ele é f….. Ele não faz nada do que lhe mandam.” E continuava a gargalhar.
E Marcelo lá obrigou o carro protocolar a circundar a praça frente ao edifício da Câmara para ir apanhá-lo do outro lado. Atravessou os apertos sem medo do contacto físico. “O Presidente dos afetos, assim é que é”, retribuía-lhe um dos contemplados com mais um cumprimento. “Boa sorte”, desejavam-lhe.

Rui Duarte Silva
O BAIRRO…
Não havia colchas de seda, mas roupa a secar nas varandas. E gente empoleirada nelas. Muita gente. Gente a acenar das janelas. Gente a gritar “Porto”. Gente a gritar “Marcelo”. Gente que o esperava – nem a propósito – no Largo dos Afetos. Gente que se preocupava: “Cuidado com as escadas, ele pode cair”, avisavam, tal a concentração de pessoas em redor do Presidente. Gente que se queixava: do desemprego, da parca reforma. Gente que “só queria tirar uma foto”. Gente que não conseguia chegar a ele: “Os seguranças são o pior, que por ele vinha direitinho ao povo”.
O bairro do Cerco, situado na parte oriental do Porto, em Campanhã, recebeu a primeira visita de um Presidente da República e gostou (o ultimo a fazê-lo foi Américo Tomás). “Só cá costumam vir em campanha”, dizem, para justificar o seu contentamento.
Hora e meia depois, quando Marcelo se despedia, todos continuavam contentes. “Dizem que este é um bairro mau, mas graças a Deus correu tudo bem”, comentavam entre si, orgulhosos, os moradores, muitos de etnia cigana.
Rui Duarte Silva
… E O HIP-HOP
Mas antes de abandonar o Cerco, Marcelo cantou e encantou. Ou não tivesse ele ido ali para conhecer um dos mais recentes projetos – Grupo OUPA, constituído por jovens residentes no bairro – realizado no âmbito do programa Camarário Cultura em Expansão.
Ainda a procissão ia no adro e já soavam os primeiros acordes do hip-hop. “É o Cerco / ao centro/ a marcar o movimento”, soletravam melodicamente. Uma boa forma de dar as boas vindas ao Presidente. Este ouviu três musicas no meio da assistência. “Eu sou diferente / tal e qual como tu / Também sou gente / Também sou do bairro”. Acompanha o ritmo com palmas. Mas não hesitou um segundo a subir ao palco quando foi convidado por um dos cantores. Bem a tempo de ainda acompanhar na ultima batida: “O Cerco sou eu / O Cerco somos nós / Somos todos junto”. Por esta altura, também Rui Moreira, Manuel Pizarro e até o Bispo do Porto, D. Francisco dos Santos, bamboleavam o corpo, acompanhando Marcelo e o Ricardinho, um dos speakers do OUPA.
Depois de um abraço caloroso a Marcelo, o grupo ofereceu-lhe o disco e agradeceu a disponibilidade para ouvir. “Sabíamos que as escolhas de Marcelo eram boas, mas desta não estávamos à espera”, disseram.
E Marcelo, sem sair do ritmo, improvisou e trauteou: “Ouvi e gostei /deste hip-hop / Aqui no bairro do Cerco / Eu não me perco / Aqui está Portugal.”
O Presidente cantou ainda com as crianças da creche da Obra Diocesana e Promoção social. O seu olhar ficou gaiato, como se tivesse regressado à infância.
O TINO
O Tino de Rans, de seu nome Vitorino, candidato à presidência, esperava Marcelo. “Ó homem, você por aqui? Você está em todo o lado!”, diz-lhe Marcelo. Tino já tinha explicado aos jornalistas aos que ia: “O povo precisa de mimo. É o maior património de Portugal e Marcelo percebeu isso. Por isso, o povo gosta dele.” E o Tino também. Foi oferecer-lhe dois pares de sapatos, feito pelo seu amigo Manuel, de Guimarães. O pagamento de uma promessa em tempo de campanha eleitoral, “para que ele não se esqueça de defender o que é português”.

Lucília Monteiro
O ENCONTRO
Antes disso, e logo a seguir ao almoço na Casa do Roseiral, Marcelo teve outro encontro caloroso. Quando percorria, a pé, a Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal, em direção á galeria municipal deparou com Germano Silva, jornalista, historiador do Porto e escritor. Bastou Rui Moreira apontar para Germano para que acontecesse o abraço.
“Este homem manda-me livros há 25 anos. Espero continuar a recebê-los”, diz Marcelo. Germano, atual colaborador da VISÃO, andava por ali a preparar um passeio guiado acerca das camélias, e foi surpreendido pelo inesperado. Era colaborador do Expresso, quando Marcelo era um dos diretores. Quando começou a escrever sobre a cidade, começou a enviar-lhe alguns. Foi o chamado encontro feliz.

LUCILIA MONTEIRO
O AUTARCA
Feliz estava também Rui Moreira. Não só o discurso protocolar do Presidente, na receção da manhã na Câmara Municipal lhe tinha sido agradável, como a visita ao Cerco, escolha da autarquia quando Marcelo manifestou vontade de visitar um bairro, correu lindamente. “Eles pensam que não é possível vir ao Cerco. Mas afinal é. É preciso conhecer o bairro e não vir cá apenas uma vez, mas sim muitas vezes”, disse, ao fazer à VISÃO o balanço de “um dia fantástico”.
Sempre vigilante, era manifesto o seu sinal de agrado ao ver Marcelo misturar-se com as gentes do Porto. Também ele recebeu elogios e mensagens de “coragem”. Não faltou até, frente aos paços do concelho, um “senhor presidente, nunca se esqueça do nosso aeroporto, continue a lutar”.
Agora, falta saber se esta alegria vai continuar e se Marcelo vai fazer o que lhe pediu: que “erga também a sua voz em defesa de um Portugal menos centralista.” Para já, Marcelo confessou que “o calor do povo do Porto excedeu todas as expectativas”. E sentiu que “há vontade de olhar para o futuro com esperança”, o que “é um começo de mudança”.
Isto não pareceu o encerramento de uma tomada de posse. Antes se assemelhou a uma presidência aberta.