É o deputado que exibiu a bandeira nazi no Parlamento madeirense, o homem que se sentou com um relógio de cozinha no hemiciclo regional e foi o ardina do mais destemido (mas também parcial) órgão de combate ao jardinismo o jornal Garajau, criado em 2004. José Manuel Coelho, 58 anos, pintor da construção civil, pai de duas filhas, “comunista de consciência” e assíduo frequentador da Festa do Avante!, tem, por trás de si, o Partido Nova Democracia, e é o mais recente candidato oficial às eleições presidenciais de 23 de janeiro. O seu nome aparecerá em quinto lugar, nos boletins de voto, entalado entre Francisco Lopes, do partido em que militou vários anos, e Josué Rodrigues Pedro, um dos três candidatos-fantasma, cujo nome foi sorteado para aparecer nos boletins de voto.
Apesar de assumir que a sua candidatura se move contra o “discurso fatalista, de inércia e derrota” dos seus adversários, o madeirense de Santa Cruz, que chegou a ir à União Soviética, em 1991, e foi membro da Igreja Adventista do 7.º Dia, tem um objetivo regional: alertar todos os portugueses para a “situação antidemocrática” na ilha, segundo o próprio. “Eu quero trazer à ribalta nacional uma situação que se vive há anos na Madeira e que se prende com a falta de democracia existente na região. Existe um enclave fascista e reacionário num país democrático como é Portugal, dominado há 30 anos por um tiranete que é o dr. Alberto João Jardim”, assume o candidato-surpresa.
Mas não é só a pensar na Madeira que José Manuel Coelho concorre a Belém.
“Os que não querem mais suportar este país corrupto, que querem um país decente, onde os seus impostos sejam respeitados e não sejam roubados pelos políticos corruptos, têm de lutar na minha candidatura”, afirmou em conferência de imprensa, depois de saber que o seu processo tinha sido validado pelo Tribunal Constitucional. “Combate à corrupção, denúncia dos salários milionários dos políticos e reforma da Justiça corrupta criada pela ditadura salazarista” são as prioridades expressas no manifesto do candidato, que recolheu 7 800 assinaturas “na via pública e no pequeno comércio madeirense”.
Nos próximos dias, José Manuel Coelho conta levar a sua campanha, cujo slogan é “Coelho ao Poleiro”, para fora da ilha [Açores e Continente], e a viatura que abrirá a caravana está escolhida um carro funerário.
REJEITADOS DE NOVO
Três outros pré-candidatos não tiveram a mesma sorte que o madeirense. Ainda chegaram a depositar os seus processos no TC, mas isso não evitou que fossem proibidos de concorrer a Belém Diamantino Maurício da Silva, Luís Botelho Ribeiro e Josué Gonçalves Pedro entregaram documentos com irregularidades e ficaram de fora da corrida.
Não foi por falta de experiência que estes candidatos foram rejeitados. Na verdade, para eles, não se trata de uma estreia. Diamantino Maurício da Silva, de 52 anos, é casado e vive em Gafalhão, na zona de Castro Daire. O seu primeiro processo, de 2005, também não foi validado por falta de documentação variada: comprovativo da nacionalidade portuguesa originária, certidão de nascimento, certidão de inscrição no recenseamento eleitoral e designação do mandatário nacional. Por nunca ter passado da fase de intenção, nada se sabe sobre as razões que levaram Diamantino da Silva a tentar candidatar-se pela segunda vez.
No caso do também repetente Josué Rodrigues Pedro, 76 anos, mercador, natural do concelho de Torres Novas que, em 2005, já tinha ficado de fora da corrida por não ter entregue certidão de nascimento, não ter designado mandatário, nem sequer ter sido proposto por nenhum cidadão eleitor, além de ele próprio o desconhecimento é menor.
Josué esteve ligado ao Partido de Solidariedade Nacional e, nas legislativas de 2002, encabeçou uma lista do PSN, em Vila Real, com um propósito único: defender o vinho do Porto. Facto curioso é que a sua lista só obteve sete votos, tantos quantos os candidatos que a integravam.
Mas todos eles eram nulos, uma vez que a sigla do partido aparecia nos boletins, apesar de o PSN ter desistido de ir a votos (tal como vai acontecer com o nome de candidato, no dia 23). “Foi pena. O vinho do Porto está em perigo”, disse, então, Jusué, que vivia na Bélgica há mais de 25 anos.
GREVE DE FOME
Finalmente, Luís Botelho Ribeiro, 43 anos, foi sorteado para ficar em penúltimo lugar, nos boletins, mas, tal como em 2006, não vai a votos. Na altura, o líder do Partido Pró-Vida (PPV), ex-militante do PSD, professor universitário na Universidade do Minho e empresário na área das novas tecnologias, fez uma greve de fome de três dias, na Arcada, em Braga, em protesto contra o facto de a sua candidatura presidencial não ter direito a cobertura televisiva.
Em 2006, acabou por ser proposto por 2 365 cidadãos eleitores (número insuficiente).
Este ano, conseguiu chegar às 8 mil assinaturas, mas faltaram as certidões de recenseamento, comprovativas de que aqueles eleitores existem. Entretanto, o candidato frustrado apareceu à porta do Tribunal Constitucional vestido com um gabão de Aveiro e com uma guitarra portuguesa.
Botelho Ribeiro queria mudar a residência oficial do PR para o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, e inscrever a cruz das caravelas na bandeira nacional. No geral, a sua candidatura pretendia “representar o pensamento e propostas políticas da Doutrina Social da Igreja, no debate dos caminhos de futuro para Portugal”. Nesse sentido, as suas ideias centram-se na defesa da vida, contra a eutanásia e o casamento de homossexuais. Os temas de costumes são, aliás, um ponto em que o líder do PPV costuma ser polémico: em 2009, publicou um texto no Jornal da Madeira, relacionando a homossexualidade com a pedofilia e advogando que quem propõe e defende a adoção por casais do mesmo sexo é “um coro de pedófilos bem colocados “.
MORRER NA PRAIA
Nestas presidenciais, há ainda três putativos concorrentes cujos nomes não aparecem nos boletins de voto, por terem desistido antes de chegarem à validação pelo tribunal. Um deles, Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, é um veterano, nestas andanças. O eterno pré-candidato ainda chegou a recolher 7 700 assinaturas, mas admitiu à Lusa “não ter possibilidade de as reconhecer a todas”. Ainda assim, mantém ativo o site www.vieira2011.com com o seu discurso.
A surpresa dos desistentes foi José Pinto Coelho, que também já tinha uma página na internet dedicada à sua candidatura: www.josepintocoelho.com.
O líder do PNR acabou por emitir um comunicado dando conta de que o seu sonho de concorrer a Belém e de dar aos portugueses uma verdadeira alternativa “morreu na praia”, por não ter conseguido “reunir as 7 500 proposituras necessárias “. Amândio Madaleno, do Partido Trabalhista Português, tencionava, igualmente, entregar as 7 500 assinaturas no TC, mas não chegou a formalizar o processo, defendendo que “não vale a pena”, porque à margem dos debates, ficaria a “falar sozinho”.