Se teste houvesse à capacidade de perdoar da líder do PSD, o Teatro Municipal de Vila Real teria sido o palco para o realizar. E foi. No edifício inaugurado por Durão Barroso, Manuela Ferreira Leite juntou cerca de 500 militantes e simpatizantes, na noite de segunda-feira, 21. Na primeira fila da plateia, separada apenas um lugar de Pedro Passos Coelho, a líder esperou que desfilassem no palco os convidados da noite: Domingos Dias, presidente da comissão política distrital; Amândio de Azevedo, um histórico social-democrata do distrito; António Montalvão Machado, cabeça-de-lista pelo círculo eleitoral; e Nuno Morais Sarmento, ex-ministro de Durão Barroso.
Quando foi a sua vez de subir ao palco, Manuela agradeceu a Amândio de Azevedo e a um “militante mais jovem”: Nuno Morais Sarmento. Implacável, a líder, que cumprimentou Pedro Passos Coelho quando entrou na sala, ignorou-o no discurso e à saída, quando este a esperava no corredor. Afinal, Passos Coelho concorreu à liderança do PSD contra Manuela – e perdeu. Tentou integrar as listas de deputados por Vila Real – e foi excluído. Na noite de segunda-feira, afirmando ter vindo dar apoio à líder, marcou presença na campanha – e foi ignorado. A redenção tarda, no PSD.
Testes de rua
Mas nem a si própria Manuela Ferreira Leite perdoa. Apesar dos avisos das sondagens – que resvalam -, mantém incólume o plano de campanha. E não mudou uma vírgula ao seu estilo, quando sai do Audi de serviço e toma a sua dose de arruadas, apesar de este não ser o seu elemento.
Na segunda-feira, um grupo de “laranjinhas” acolhe-a, pontualíssima, no centro histórico de Bragança. Em cerca de 20 minutos, a líder percorre a zona, cumprindo um ritual para o qual lhe falta a chama de outros líderes. Os apertos de mão e os beijinhos sucedem-se mas são apressados, acompanhados por um circunstancial “Como está?” e findam ali – Manuela não está à vontade entre os populares.
Visivelmente mais cansada, de braço dado com os candidatos, a troca de cumprimentos morre na praia, apesar do prazer com que muitos cidadãos cortam o cordão de repórteres para procurar o contacto com a “senhora doutora”.
Em Chaves, onde o presidente da autarquia, João Batista, preparou uma recepção calorosa, apimentada pela presença do grupo de Danças e Cantares Tradicionais de Santo Estêvão, o ritual repete-se. Aqui, é mais ruidosa a recepção. O tambor, o reco-reco, as castanholas e o acordeão acompanham a comitiva, espalhando os acordes de O Bailinho da Madeira pela Rua Direita, espinha dorsal da cidade termal.
Mas Manuela não é peixe destes mares – apesar do bem-sucedido passeio pelo centro histórico de Guimarães, na terça-feira, 22, na companhia de Aguiar Branco, cabeça-de-lista pelo Porto – e não nada bem nas águas superficiais das arruadas: olha as pessoas nos olhos, cumprimenta-as, sorri e é simpática mas incapaz da afectuosidade que resgata votos.
Ferreira Leite escreveu o guião, é a protagonista (só esta semana começaram a chegar outros actores ao palco, como Paulo Rangel, Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes) e assina a realização do filme que espera venha a ser um sucesso, no dia de estreia eleitoral. Mas terá esta o glamour desejável para a vitória que a líder do PSD não se cansa de pedir?
Incidentes
O sururu provocado pela comitiva do PSD, na segunda-feira de manhã, em Bragança, impediu o trânsito de circular nas estreitas ruas do centro histórico da cidade. Mal as bandeiras se desfraldaram, uma mulher exaltada pela paragem do tráfego saiu do carro. “Deixem passar quem trabalha, carago”, gritou. Mas foi no final da arruada, quando a candidata do PSD tomava uma água no café Chave de Ouro, na Praça da Sé, que as coisas “aqueceram”. Um homem que empunhava uma bandeira do PSD deu um estalo a um condutor enfurecido, que, entretanto, havia saído da viatura. O agredido, que se identificou como Rui, aparentava cerca de 50 anos e tinha dificuldades de locomoção.
O caso não se ficou por aqui – o condutor agredido regressou ao volante do carro, várias vezes, procurando vingar-se da agressão e, na última vez, investe contra a comitiva, na altura em que a candidata do PSD regressava à viatura oficial. Jornalistas e membros do staff do PSD afastaram Manuela Ferreira Leite do trajecto do jipe e o incidente morreu ali.
O discurso
No início da campanha, Manuela andou errante. Opôs-se ao investimento no TGV, afirmou-se como um baluarte nacionalista contra os interesses espanhóis, evocou a asfixia democrática provocada pela governação socialista. Muitos temas, demasiados casos.
Nos últimos dias, contudo, a líder do PSD tem-se focado nos pontos que lhe são caros, tentando esquecer “a campanha de casos” que criticou mas ajudou a criar. Criação de emprego, apoio às pequenas e médias empresas (para as quais Marques Mendes pediu um ministério específico) e críticas à reforma socialista da segurança social regressaram em força ao discurso do PSD.
Em Vila Real, afirmou, preto no branco, que “o País está mais pobre” depois de quatro anos de José Sócrates. “Endividámo-nos o dobro; temos um desemprego como não existia há 30 anos; crescemos menos do que os nossos parceiros europeus”, lembrou. “É um caminho de tragédia, de suicídio, aquele por onde Sócrates está a levar o País.” E afirmou-se defensora da liberdade e da… solidariedade. “É a chave da nossa [do PSD] matriz ideológica”, disse.
O caso Fernando Lima, expoente máximo da chamada “asfixia democrática”, foi driblado, recusando Manuela que a sua campanha seja afectada. “Não me deixo condicionar por nada”, disse, no final de uma visita à fábrica de têxteis Sampedro, em Lordelo (Guimarães), onde ouviu os empresários queixarem-se de concorrência desleal de outros países e da aflitiva situação social no Vale do Ave.
Às duas centenas de apoiantes reunidos num hotel de Braga, Pedro Rodrigues, líder da JSD e candidato pelo distrito, lembrou, na terça-feira, que hoje cada português deve ao estrangeiro 16 500 euros, ao contrário dos 8 500 que tinham em dívida em 2005. Marques Mendes, que apareceu para dar apoio, numa “campanha difícil”, acusou o Governo de “cansar, falhar e desiludir”. Houve, afirmou, “pirotecnia política a mais e resultados a menos”. Manuela repetiu que o actual primeiro-ministro “é o rosto da crise”. Também a José Sócrates ela não perdoa.