No artigo que escrevi para a VISÃO há um ano, no início do mandato de Donald Trump, disse que ele não devia ser subestimado, que há método na sua loucura e que ele encarna a voz mais poderosa de uma revolução populista que quer governar o mundo. Chamei a atenção para o think tank de extrema-direita em que ele se apoia – The Heritage Foundation – e o seu Projeto 2025, que visa a destruição da democracia americana, a reformulação do governo e o desmantelamento do “Estado profundo”, substituindo toda a elite da Administração Pública por leais do movimento MAGA, através de nomeações políticas. Na cena internacional, chamei a atenção para o facto de o mundo estar a viver um dos momentos mais perigosos, depois do fim da II Guerra Mundial, e alertava: “Trump vai transformar a geopolítica num negócio em que ganha quem paga melhor e isso vai favorecer as autocracias e debilitar o campo democrático.” E acrescentava: “A mentalidade transacional do Presidente americano e a sua atração pelos autocratas podem contribuir para uma maior erosão da ordem internacional e para o regresso da lei do mais forte, transformando a comunidade internacional numa selva em que todos vão estar em guerra com todos.” O artigo terminava desta forma: “O mundo entra numa nova era repleta de incertezas e desafios e, sendo verdade que o pior nem sempre acontece, todos os sintomas são a favor do caos e da instabilidade. Por isso o papel da Europa pode ser importante se não quiser ser apenas um museu, mas um participante ativo na solução dos problemas do nosso tempo.”

O comportamento e as ações da Administração Trump ao longo do ano passado mostraram, infelizmente, que estas previsões se transformaram em realidade. De facto, em 2025 vimos o pior acontecer, dia após dia, perante a passividade das democracias mundiais e em particular da União Europeia (UE), que tem receio de agir e de defender os seus interesses, não quer incomodar o jacaré americano e faz-lhe festinhas à espera de que venham dias melhores. Como mostram a História e a vida, a estratégia da nostalgia só pode levar a Europa a ser devorada pelo jacaré. Esperemos que isso não aconteça. Os líderes europeus devem inspirar-se no exemplo do primeiro-ministro do Canadá, que fez um discurso notável em Davos, chamou os bois pelos nomes e disse que é preciso aceitar a realidade e deixar de fingir. No início deste ano, a Europa começou a reagir timidamente, em particular face à ameaça que pende sobre a Gronelândia, mas é preciso fazer mais e de forma mais corajosa. São a democracia, a liberdade, a defesa do primado da lei e das regras e o futuro que estão em jogo. Como escreveu William Shakespeare, na sua peça O Rei Lear: “Um homem corajoso só morre uma vez na vida. Um homem cobarde morre todos os dias.”
