Em 1678, os habitantes da cidade de High Wycombe, em Inglaterra, decidiram que a melhor forma de escrutinar os níveis de corrupção dos seus presidentes de câmara era… pesá-los. Ao verificar o peso do seu presidente da câmara todos os anos, os eleitores podiam confirmar se este estava a engordar graças aos impostos pagos por eles, que serviam para a sua comida e bebida.
Hoje, 342 anos mais tarde, a tradição mantém-se. No início de cada mandato, o presidente da câmara, equipado com um traje do século XVII, é pesado em público, com uma balança da época. O processo é repetido anualmente e, após ser pesado, um porta-voz anuncia o veredicto. Se o político tiver emagrecido, o público aplaude efusivamente. Caso contrário, é vaiado.

Apesar de atualmente esta tradição ser meramente simbólica – se o presidente da câmara engordar, os cidadãos não vão pensar que está a ganhar peso com os seus impostos -, pode haver algum sentido na sua lógica. Para o comprovar, Pavlo Blavatskyy, da Universidade de Montpellier, elaborou um estudo denominado “obesidade de políticos e corrupção nos países pós-soviéticos.” Segundo as descobertas de Blavatskyy, os países mais corruptos do pós-União Soviética tendem a ter os políticos mais pesados. “A massa corporal pode ser uma variável convenientes para medir a corrupção política”, afirma o autor.
A relação entre os quilos e a corrupção
Medir o nível de corrupção é uma tarefa difícil, porque se trata de uma ciência imperfeita. Devido à sua própria natureza, a corrupção está fora da vista – não é concebida para ser estudada e analisada, muito pelo contrário. Por outro lado, o peso é uma unidade de medida, o que facilita a tarefa de quem o pretende medir, mas apenas se tiver acesso a esta informação. Caso contrário, a tarefa complica-se.
Como não tinha acesso aos dados de saúde destes políticos, Blavatskyy teve de empregar meios menos convencionais para determinar o seu respetivo peso. Através de um sistema de aprendizagem de máquina (machine learning), examinou e estimou a massa corporal de 299 ministros dos 15 países pós-soviéticos em 2017, ordenando-os de acordo com a sua massa corporal média.
Posteriormente, o autor comparou o índice de massa corporal com cinco diferentes indicadores de corrupção, segundo as diretrizes de organizações como o Banco Mundial ou o Transparency International. “A média estimada de massa corporal dos ministros está altamente correlacionada com os cinco indicadores de corrupção. (…) A corrupção política é visível a partir de fotografias de políticos em altas funções”, diz Blavatskyy.

Os países pós-soviéticos com os menores níveis registados de corrupção são os três Estados Bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia – assim como a Geórgia. Como se pode verificar pela imagem, os ministros destes quatros países têm a menor massa corporal. Por sua vez, os países mais corruptos são o Turquemenistão, o Tajiquistão e o Uzbequistão – onde os políticos tendem a pesar mais.
Há outro traço comum entre estes países mais corruptos: são também os mais pobres, onde há mais pessoas a passar fome e, por consequência, com pesos inferiores à média. Assim, o facto de os seus políticos terem um maior peso é ainda mais contrastante com as suas respetivas realidades.
“Pode haver uma relação entre benefícios de saúde e a corrupção política – a última está correlacionada com altas taxas de obesidade entre políticos de topo (que é uma fração muito pequena da população), mas registam-se níveis de obesidade baixos na população em geral.” Por oposição, “os países com menores níveis de corrupção têm políticos mais magros, mas mais eleitores com excesso de peso”, conclui o autor.
Correlação não é causalidade
Ainda que estas sejam descobertas relevantes para o estudo das ciências sociais, há que ter em conta que, por um lado, este é um universo muito particular de países e que, por outro lado, políticos obesos não são necessariamente mais desonestos que os seus colegas mais magros. Apesar disso, a “psicologia do voto” é uma questão complexa: outros estudos também revelam que os eleitores tendem a votar mais em candidatos saudáveis, porque a perceção pública de um bom estado de saúde leva a maiores taxas de aprovação. Pela via das dúvidas, talvez seja sensato para os políticos do Bloco de Leste perderem uns quilos antes de se candidatarem a um cargo público.