Ainda criança, viu homens negros acorrentados como escravos serem levados à força para as roças do Norte de Angola. A opressão colonial na província do Bié, no planalto central, despertou-lhe cedo a consciência política, mas a experiência nos terrenos movediços da ideologia, ganhou-a nos bancos da Universidade de Luanda, quando a independência da antiga colónia portuguesa o desviou do curso de Engenharia de Minas para a militância estudantil nos Comités Amílcar Cabral (CAC), uma corrente do MPLA. O ativismo acabou da pior maneira. Foi detido, sem acusação nem julgamento, e torturado durante três anos na temível Prisão de São Paulo, em Luanda. Uma noite, foi arrancado à cela e encostado a uma parede, para ser fuzilado. Escutou o som do gatilho, mas a arma não disparou.
Defensor da independência de Angola, António Costa Silva, o gestor que aceitou o convite do Governo para desenhar o programa de recuperação económica pós-pandemia, decidiu ficar em Luanda em 1975, quando muitos amigos partiam com a família para a antiga metrópole. “Nasci em Angola, sempre me considerei luso-angolano”, afirmou à VISÃO, ao aceitar participar neste perfil. Nos anos 70, quando mergulhou nos movimentos estudantis pró-independência, ainda “estava na idade em que queria mudar o mundo”. Até que a prisão e a tortura interromperam o sonho.
A 22 de dezembro de 1977, três dias antes do Natal, “Xibias” − alcunha pela qual era conhecido este “estrangeiro”, “filho de portugueses” – foi detido em Luanda e tornou-se mais uma vítima da purga levada a cabo pelo antigo Presidente Agostinho Neto, como resposta à tentativa de golpe de Estado de Nito Alves, em maio desse ano. O ajuste de contas dos dirigentes do MPLA levou à detenção de milhares de pessoas, sem culpa formada, e ao assassínio de muitas delas durante os cruéis interrogatórios e fuzilamentos sumários.
Nos corredores da Prisão de São Paulo, o estudante finalista haveria de sobreviver a três longos anos de isolamento, tortura, espancamentos, chicotadas com cavalo-marinho e fios elétricos, golpes de moca e queimaduras de cigarro. O relato das atrocidades é, em parte, descrito por Américo Cardoso Botelho, que durante os cinco anos em que, ele próprio, esteve preso em São Paulo, foi tomando notas nas pratas dos maços de cigarros – e que mais tarde deram origem ao livro Holocausto em Angola: memórias entre o cárcere e o cemitério (Edições Vega, 2007).
Algemado e vendado, escutou o som dos gatilhos, mas as armas não dispararam. Ainda hoje recorda a calma com que enfrentou o medo
O terrorismo psicológico conheceu novos limites na primeira semana de abril de 1978. O chefe dos torcionários, José Vale, antigo colega na Universidade de Luanda, convidou um grupo de detidos a fazerem o testamento. Numa madrugada, Costa Silva foi algemado, vendado e enfiado dentro de uma viatura que o conduziria à morte. Adivinhou a encenação do fuzilamento, escutou o som dos gatilhos, mas as armas não dispararam. Ainda hoje recorda a calma com que enfrentou o medo. Regressado à cela, continuaria detido por mais dois anos e meio, em condições desumanas.
Resistir e pensar
Ao se dar conta da polémica político-partidária após a divulgação do convite para desenhar o plano de recuperação, António Costa Silva recorda à VISÃO as atrocidades sofridas nesse tempo para responder aos que o acusam de falta de experiência política. “Aprendi muito. Isto estrutura-nos e prepara-nos para resistir a tudo”, garante. E também a usar a cabeça, o pensamento, para suportar a dor e a humilhação. “Numa situação-limite, quando estamos só connosco próprios, aprendemos a conhecer o pior e o melhor da natureza humana. A solidariedade entre os detidos é enorme. Aprende-se a rejeitar a violência, a respeitar a natureza humana e a amar a liberdade. Alguns não resistiram, mas eu aguentei a fazer poesia. Na cabeça, porque não havia papel.”
A paixão pela poesia acompanha-o até hoje. Tem quatro livros publicados em coautoria com o amigo Nicolau Santos, jornalista e presidente da Lusa. Um quinto livro está já em preparação. O jornalista, também natural de Angola, conta que durante três décadas as marcas da detenção e da tortura, apesar de serem conhecidas do núcleo de amigos, nunca foram assunto de conversa. Só quando começou a publicar poesia, e depois de ter contado a sua experiência de vida à revista Exame – na edição de agosto de 2008, a revista fez capa com a “força de viver” de gestores que passaram por experiências-limite − é que António Costa Silva falou abertamente sobre o passado. À Exame, contou os pormenores: “Na tortura do sono tinham um método em que começavam por amarrar os braços atrás das costas e pontapear. A seguir, penduravam a pessoa no teto, a três metros de altura, e deixavam cair o corpo.” E “tinham um sistema de tortura com torniquete que apertava a cabeça, fazendo pressão sobre a caixa craniana”. Às vezes, ficava inconsciente.
De Catabola para Lisboa
António Costa Silva nasceu em 1952, em Nova Sintra, uma pequena povoação onde o pai tinha uma fazenda de sisal, na província do Bié. A terra, entretanto rebatizada Catabola, foi berço de outros dois “ilustres”: António Monteiro, embaixador reformado e presidente da Fundação Millennium BCP, e Fernando Almeida, presidente do Instituto Ricardo Jorge. Para António Monteiro, que devido à diferença de idades só mais tarde conheceu Costa Silva, o novo nome da terra tornou-se premonitório: “É de Catabola e é o novo dono da bola”, diz a brincar, numa referência ao convite do primeiro-ministro. Ao conterrâneo, elogia-lhe a mente aberta e a inteligência. “Vale a pena ouvi-lo”, afirma.
António saiu cedo de Nova Sintra para estudar no Colégio dos Maristas, no Cuíto, e depois na Universidade de Luanda. Aí, participou no círculo universitário de cinema, fez parte da associação de estudantes e desenvolveu dotes de oratória em assembleias com milhares de pessoas. Até que a prisão o travou.
Na capital do antigo império, os amigos retornados não o esqueceram e fizeram campanha pelos presos políticos em Angola. Em 1980, foi libertado pelo novo governo de José Eduardo dos Santos, que sucedera a Agostinho Neto na presidência de Angola. Ficou a trabalhar na Sonangol, mas os problemas na vista, agravados pela tortura na prisão, obrigaram-no a procurar cuidados médicos em Barcelona. No regresso, passou por Lisboa e não resistiu ao apelo dos pais e dos amigos para ficar. Terminou a licenciatura no Instituto Superior Técnico – onde ainda dá aulas −, ganhou uma bolsa da Gulbenkian para fazer o mestrado em Engenharia de Petróleos, no Imperial College da Universidade de Londres, e mais tarde completou o doutoramento nas duas faculdades. Iniciou uma carreira internacional e partiu para França, para dirigir uma equipa de 250 pessoas na multinacional CGG. Em 2001, ingressou no Instituto Francês do Petróleo. Dois anos depois, quando aceitou um convite para almoçar no Hotel Ritz com Rui Vilar e Marçal Grilo, respetivamente presidente e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), já tinha alcançado prestígio internacional com uma arbitragem, no Tribunal Internacional de Estocolmo, entre os gigantes BP e Exxon, envolvendo uma disputa pelas reservas de petróleo no Mar do Sul da China. A sua decisão, não sendo propriamente “salomónica”, terá sido “suficientemente justa” para não vir a ser contestada, nem pelo vencedor nem pelo vencido, segundo garante o gestor.

Os livros e a paixão pelo Benfica
O “sentido de justiça”, a “calma”, a “inteligência extraordinária” e a “capacidade de raciocínio” são qualidades que amigos e conhecidos lhe elogiam. Assim como a “simplicidade”, a “generosidade” e a “sabedoria na procura de consensos”. As suas idas frequentes a Angola, para dar aulas e cursos de formação a jovens quadros, serão um reflexo desse “sentido de missão”, que também o terá levado a aceitar o convite do primeiro-ministro.
António Costa Silva é ainda definido como alguém que “lê muito, pensa muito, escreve muito”. Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e coordenador científico do programa Gulbenkian Ambiente entre 2007 e 2011, viajou diversas vezes com o gestor. “Trazia sempre mais livros do que eu, ou do que qualquer outro membro do grupo”, graceja.
Os amigos já se habituaram às “queixas” frequentes da mulher, Luísa, sempre que se vê impedida de dar jantares em casa porque “a mesa da sala está ocupada com os livros do António”. É assim na casa de Lisboa e na casa dos arredores de Óbidos, onde o casal tem uma segunda residência. Casado há vários anos com esta antiga diretora-geral do Ministério da Educação, e funcionária do Banco de Portugal, António Costa Silva tem uma filha, dois enteados e vários netos.
Com fama de nunca perder a calma – nem durante a simulação do seu fuzilamento –, há quem suspeite dessa aparente serenidade, como se fosse construída em cima de um vulcão prestes a explodir. Costa Silva é também um homem impulsivo, que encontra o seu escape quando o Benfica joga. Em Mascate, capital de Omã, durante a transmissão televisiva de uma jornada europeia entre o Benfica e o Manchester, um atónito Marçal Grilo, na altura administrador da FCG com o pelouro do petróleo, apanhou um enorme susto quando o golo da equipa dos encarnados fez Costa Silva dar um salto “extraordinário” da cadeira, digno de um Cristiano Ronaldo. “Fiquei impressionadíssimo”, diz o ex-ministro à VISÃO.
“É um livre-pensador, totalmente independente”, continua Marçal Grilo. Por isso, o coautor do convite que em 2003 trouxe o gestor para a direção da Partex, a empresa de petróleos de que a Gulbenkian foi acionista até há cerca de um ano, não o imagina sentado numa cadeira de ministro. “Ele não obedece aos cânones partidários”, explica.
Mesmo quando discorre sobre um tema como as energias fósseis, Costa Silva não resiste a dar uma lição sobre geopolítica e geoestratégia mundial. Agostinho Pereira de Miranda, advogado especializado na área do petróleo, conheceu-o nos anos 70, quando o jurista dava aulas na universidade que António frequentava. Admira-lhe a coragem nos tempos conturbados de Luanda, de que o gestor agora vai precisar para “expor o seu plano”. “Ele consegue ver o mundo da energia numa perspetiva mais complexa, para além do petróleo e do gás”, garante o advogado, para quem Costa Silva “é alguém que sabe que a indústria do petróleo atingiu o ocaso”.
Soromenho-Marques recorda ainda que, já depois da passagem pela FCG, esteve num campo oposto ao do CEO da Partex. O catedrático era uma das principais vozes do movimento Futuro Limpo contra a exploração de petróleo e gás na costa portuguesa. A Partex integrava o consórcio da Repsol que, em 2002, ganhou uma licença para a pesquisa de gás offshore no Algarve, um projeto que viria a ser abandonado. “Não tem o perfil do tipo que cava buracos à procura de petróleo. É muito mais do que isso”, garante o ambientalista.
Com a economia portuguesa em situação difícil, será este conselheiro do primeiro-ministro quem ajudará a desenhar a estratégia económica de médio e longo prazo para o País. As críticas e os elogios sucedem-se, algo para o qual a quase mítica calma de Costa Silva será certamente necessária.
O plano da retoma
O plano de recuperação económica que António Costa Silva está a traçar, pro bono, contém a sua visão para a dupla dimensão, continental e marítima, da economia do País. Inclui uma aposta nos transportes ferroviários e na ligação à bitola europeia, no aumento da capacidade e da ligação dos portos, na gestão das redes de energia e dos recursos da água, no reconhecimento e no aproveitamento de matérias-primas como o lítio e o cobalto, mas também nas competências digitais das pequenas e médias empresas e no reforço e na qualificação do Serviço Nacional de Saúde. Costa Silva é alguém que acredita na reindustrialização do País, defendendo que o Estado deve ter maior presença na Economia, com poderes para salvar as empresas competitivas e proteger o emprego.
O Programa de Recuperação que deverá ser apresentado em meados de junho, quando o orçamento suplementar for aprovado, será financiado pelo novo instrumento europeu de financiamento. Ao abrigo desse mecanismo, está prevista a atribuição a Portugal de 10,8 mil milhões de euros através de empréstimos mutualizados, e de mais 15,5 mil milhões de euros em subsídios a fundo perdido.