O país venera o mito, engole o jogo e sacrifica o talento para alimentar a última epopeia de um deus cansado.
A Seleção das Quinas continua refém do último imperador de um império que já não existe e, enquanto isso, trava o futuro nos postes e nos campos de futebol. Há uma coisa que os portugueses fazem extraordinariamente bem: prolongar o que já devia ter acabado. O Império, a dívida pública, as telenovelas e, claro, Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional. Portugal é um país que tem uma relação difícil com o “fim”. Prefere o “logo se vê”, o “mais um jogo”, o “ele ainda marca”. E enquanto esse “ele” continuar a chamar-se Cristiano Ronaldo, ninguém tem coragem de desligar a máquina.
O miúdo da Madeira que cresceu no Sporting, se fez homem em Manchester, demi-deus em Madrid, estrela global em Turim e celebridade de luxo em Riade transformou-se, com mérito, num dos maiores símbolos do País no estrangeiro. Durante anos, a pergunta “Where you from?” recebia respostas automáticas: primeiro era Figo, depois Cristiano Ronaldo. Num planeta onde poucas pessoas conheciam Portugal, muitos conhecem Cristiano e isso é, de facto, soft power puro e um orgulho nacional.
Mas uma coisa é Portugal no mundo. Outra é Portugal num campo de futebol. E aí chegou-se àquele momento embaraçoso em que o convidado ilustre já bebeu três garrafas, ocupa o sofá todo, fala alto e — pior ainda — estraga a festa. Cristiano Ronaldo já faz mais mal do que bem à Seleção Nacional. E toda a gente sabe. Mas ninguém diz. Nem o selecionador. Nem a Federação. Nem os comentadores que tremem ao pronunciar o óbvio. Nem as instâncias internacionais que o adoram ver em campo porque isso vende direitos televisivos até no Sri Lanka. Falta coragem. Sobra veneração.
O problema tem 40 anos e uma braçadeira de capitão. Portugal vive talvez a melhor geração de talentos do futebol da sua história recente: João Neves, Vitinha, Rafael Leão, Nuno Mendes, Bernardo Silva, Palhinha, António Silva, Gonçalo Inácio, Gonçalo Ramos, entre outros. Jogadores que brilham nas melhores ligas do mundo. Mas quando vestem a camisola das quinas, o País inteiro parece reduzir-se a uma equipa de voluntários encarregada de empurrar um altar ambulante chamado CR7. E isso mina tudo.
É duro afirmar? É. Mas mais duro é ver Ronaldo arrastar-se 90 minutos, marcar um golo que qualquer avançado moderno — como Gonçalo Ramos ou o saudoso Diogo Jota — também marcaria, não defender, não pressionar, não correr, já não fintar, falhar penáltis decisivos, reclamar de tudo o que mexe e — como se viu em Dublin — acabar expulso por agressão a um adversário. A primeira expulsão ao fim de 226 jogos. Um capitão não pode cair assim, muito menos o CR7. Uma carreira inteira sem vermelhos pela Seleção…até ao dia em que corpo e nervos deixaram de acompanhar o mito.
Portugal perdeu 2-0 com a Irlanda. Não foi acidente: foi consequência. Cristiano Ronaldo não é o único culpado, mas é o símbolo de uma equipa que joga a passo porque mantém um rei que já não reina, mas insiste em sentar-se no trono. E Roberto Martínez, como antes Fernando Santos, continua a atuar como pajem.
É quase trágico perceber que a frente de ataque de Portugal se transformou, nos últimos tempos, numa réplica da frente de ataque do Al-Nassr, mesmo que João Félix fique no banco. Nunca na história uma seleção europeia estruturou a sua tática em função de uma equipa da Arábia Saudita. E, mesmo assim, o País finge surpresa quando isso não resulta. Tudo tem de passar por Ronaldo. Todas as bolas têm de ir para Ronaldo. Todas as decisões são condicionadas para servir Ronaldo. E os restantes? Os jovens que esperem.
A verdade é simples: Portugal joga para Ronaldo. E nenhuma seleção que joga para um jogador de 40 anos pode jogar bem. A Irlanda sabia disso. Defendeu com 11, correu quando tinha de correr, aproveitou os erros e marcou dois golos simples como água. Os portugueses correram mais para compensar a estátua viva lá na frente do que para construir jogo. E quando Ronaldo foi expulso… os outros respiraram melhor. Com ele fora, no domingo, o apuramento provavelmente chegará. Coincidência? Pois.
Outro traço muito português: a obsessão dos mil golos. A nação inteira parece investida na missão de ver Cristiano Ronaldo atingir a marca mítica, como se fosse obra do Estado Novo ou um desígnio nacional inscrito na Constituição. O objetivo deixou de ser ganhar jogos; passou a ser alimentar uma narrativa épica que interessa apenas ao protagonista e à sua máquina de comunicação. Faltam 47 golos. Aos 40 anos. Se for preciso sacrificar duas gerações para que ele chegue ao número redondo, sacrifica-se. Se for preciso perder jogos, perde-se. Se for preciso atrasar o futuro, atrasa-se.
O país futebolístico tornou-se uma extensão da mentoria motivacional de Cristiano Ronaldo e isso tem custos. Não é ingratidão. É lucidez. Ninguém apaga o que Cristiano Ronaldo fez. Ninguém questiona os títulos. Ninguém nega a grandeza. Mas a grandeza também é saber sair. E Ronaldo não sabe, e ninguém tem coragem de o ajudar a saber. É por isso que Portugal continua preso entre o passado glorioso e um presente sofrido.
Amo futebol? Não vem ao caso. O que importa é que o futebol português está, neste momento, amarrado a uma subserviência que o impede de crescer. O talento está lá. O futuro está à porta. Mas a Seleção continua condicionada porque o capitão não pode “ficar mal”. O futebol português merece um novo ciclo. Não sem Ronaldo — isso seria absurdo —, mas para lá de Ronaldo: no banco, na bancada, a apoiar os mais novos, sei lá, menos em campo e não a bloquear-lhes o caminho.
É tempo de agradecer-lhe e seguir em frente. Com elegância. Com respeito. E, sobretudo, com coragem. A coragem que falta a quem manda. E, já agora, a coragem que falta ao próprio CR7 para dizer: “basta, é hora de dar lugar aos mais novos.”
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.