Durante nove dias de agosto, a geografia cultural do País sofre uma saudável avaria. O centro desloca-se para a raia, Lisboa fica subitamente na periferia e o cinema instala-se onde quase nunca lhe reservam lugar: castelos, praças, lagares, estações ferroviárias, aldeias e terrenos cortados por uma fronteira que, durante o Periferias, serve mais para unir cadeiras do que para separar países. De 7 a 15 de agosto, Marvão, Valencia de Alcántara, Salorino, Castelo de Vide, Beirã e Galegos transformam-se numa sala de cinema ibérica a céu aberto. Sem passadeira vermelha, sem “photocall” histérico. Aqui, os filmes chegam primeiro do que a espuma promocional. Chamar-lhe Periferias é, portanto, uma ironia geográfica. Durante nove dias, o centro do cinema está ali. Lisboa é que fica longe.
O paraíso arde no castelo
A abertura, no Castelo de Marvão, faz-se com 18 Buracos para o Paraíso, de João Nuno Pinto, um drama familiar e rural com Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço. Numa herdade alentejana atingida pela seca, pela especulação e por uma herança patriarcal que deixou mais fantasmas do que hectares produtivos, três mulheres enfrentam a possível venda da propriedade enquanto um incêndio fecha todas as saídas.
É um filme sobre o fim de um mundo e talvez também sobre um país que vende a paisagem ao metro quadrado, entrega o território ao turismo de luxo e depois se espanta quando deixa de reconhecer o horizonte. O paraíso do título tem 18 buracos, relva a mais e memória a menos. Como quase todos os paraísos imobiliários.
No dia seguinte, a antiga estação da Beirã recebe Un Poeta, do colombiano Simón Mesa Soto, distinguido com o Prémio do Júri da secção Un Certain Regard, em Cannes. O protagonista é um poeta falhado, uma espécie de cadáver literário ainda capaz de pedir outra rodada, que encontra numa adolescente de origem humilde o talento que a vida lhe recusou.
Pode ser redenção, exploração ou apenas vaidade com versos. Talvez seja tudo ao mesmo tempo, porque os artistas falhados também sabem transformar a generosidade numa forma disfarçada de narcisismo. A sessão termina com Os Sabugueiros, porque até o fracasso artístico merece dançar — e, no Alentejo, de preferência ao som de cumbia.
No domingo, A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira, leva-nos a um lar onde um ex-combatente da Guerra Colonial, interpretado por José Martins, convive com as memórias de Angola e com Hermínia, a cuidadora africana vivida por Mina Andala. O filme fala de culpa colonial, velhice, racismo, memória e solidão sem transformar o público numa turma de formação cívica nem reduzir as personagens a cartazes ideológicos com pernas.
À noite, Los Domingos, de Alauda Ruiz de Azúa, vencedor de cinco Prémios Goya, coloca uma família diante do impensável: uma jovem brilhante prefere Deus à universidade e admite entrar num convento. O filme pergunta até onde vai a liberdade quando a escolha do outro nos incomoda, nos assusta ou simplesmente não cabe no nosso pequeno catálogo de decisões aceitáveis.
Carmen Maura entre dois países
A sessão mais simbólica desta edição será a de Calle Málaga, da marroquina Maryam Touzani, em La Fontañera, junto à fronteira. O ecrã ficará montado em Portugal e as cadeiras, uns metros adiante, em Espanha. É difícil imaginar imagem mais perfeita para um festival que fez da raia não uma cicatriz, mas uma sala de cinema partilhada.
Carmen Maura interpreta María Ángeles, uma espanhola de 79 anos a viver em Tânger, ameaçada pela filha, que pretende vender a casa onde a mãe acumulou uma vida inteira. María Ángeles resiste, recupera objetos, memórias, desejo e um amor tardio. Não aceita ser despejada da casa, do corpo ou da própria existência.
A uma sociedade que declara as mulheres invisíveis depois de certa idade, Carmen Maura responde com humor, sensualidade, insolência e pele. Não pede autorização para envelhecer, muito menos para desejar. Aos 79 anos, continua a provar que o pudor cinematográfico costuma estar mais na cabeça dos espectadores do que no corpo das atrizes. O filme regressa depois a Salorino, porque certas revoluções íntimas merecem segunda sessão.
Em Castelo de Vide, Yellow Letters, de İlker Çatak, vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2026, acompanha um casal de artistas esmagado pela arbitrariedade do Estado. Perdem empregos, estatuto, segurança e espaço público por causa da dissidência política. A repressão não lhes bate apenas à porta: instala-se na sala, senta-se à mesa e começa a decidir quem pode falar.
É cinema sobre a Turquia, mas não convém à Europa rir-se com demasiada superioridade. Os autoritarismos modernos já não entram sempre de botas, farda e bigode. Às vezes chegam de fato, gravata, discurso higiénico, conta nas redes sociais e perfil verificado.
O programa inclui ainda My Way — A História de uma Canção, narrado por Jane Fonda, no Lagar Museu António Picado. O documentário segue a viagem de Comme d’habitude, de Claude François, até se transformar em My Way na voz de Frank Sinatra. Uma canção que todos conhecem, muitos assassinam no karaoke e alguns políticos parecem ter adotado como programa de governo.
A história mostra como uma melodia francesa sobre o fim de uma relação se tornou num hino internacional ao individualismo, à pose e à convicção masculina de que fazer tudo “à minha maneira” absolve qualquer desastre. Sinatra cantava-a. Outros transformaram-na em doutrina económica.
Almodóvar, o luto e a ficção
O encerramento pertence a Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar, em Salorino. Um cineasta em crise transforma a tragédia de uma colaboradora em matéria para um novo filme e cria uma realizadora que começa a refletir o seu próprio percurso. É Almodóvar no território que conhece melhor: mulheres, luto, criação, culpa, desejo e a suspeita incómoda de que a ficção pode salvar-nos enquanto rouba pedaços da vida dos outros.
O cinema surge como espelho, faca, confissão e terapia, com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón e Victoria Luengo. Almodóvar volta a filmar o ato de criar como uma forma elegante de vampirismo: o artista sofre, observa o sofrimento alheio, transforma-o em argumento e depois agradece no discurso de entrega do prémio.
O Periferias inclui também sessões de cinema ambiental, animação, música, projetos escolares e o IV Encontro da Rede de Festivais e Gestores Culturais do Tejo Internacional. A expressão “impacto social” aqui, porém, faz sentido, ao levar filmes a povoações sem salas de cinema, criar comunidade em torno de um ecrã, aproximar autores e espectadores e fazer da fronteira não uma linha que separa, mas um lugar onde as pessoas se sentam juntas como uma forma concreta de política cultural. Num país onde descentralizar a cultura ainda significa, demasiadas vezes, repetir no Porto o que já se fez em Lisboa, o Periferias desloca verdadeiramente o centro para a raia. E prova que o cinema não precisa de viver fechado num multiplex, entre pipocas industriais, refrigerantes gigantes e publicidade a automóveis que ninguém consegue pagar.
Por vezes basta uma parede branca, um céu de verão, duas aldeias, uma fronteira e um bom filme para o mundo ficar maior. No Periferias, a raia deixa de ser margem. É o resto do País que tem de se aproximar.