Mais de dois terços dos chineses (69%) consideram que a Inteligência Artificial traz mais benefícios do que riscos, enquanto nos EUA essa percentagem é de apenas 35 por cento. Segundo um estudo da Universidade de Melbourne citado pela Xinhua, a China é mesmo um dos países mais otimistas neste domínio, ao contrário do que acontece na Alemanha, em França, em Portugal ou na Suécia, onde a maioria vê nesta nova tecnologia mais riscos do que benefícios. Num país onde circulam veículos sem condutores, drones distribuem encomendas e robots servem às mesas ou atendem doentes nos hospitais, a IA passou a fazer parte da vida quotidiana de muita gente, explica a Xinhua acerca daquele otimismo. Além disso, nas últimas décadas “a sociedade chinesa acostumou-se a rápidas mudanças”. A agência disse também que vários tribunais do país tinham dado razão a trabalhadores que se queixaram de ser despedidos devido à nova tecnologia, mas não indicou mais pormenores sobre esses casos.
O jornal The New York Times já tinha assinalado este fenómeno: “IA em tudo e em toda a parte”, escreveu uma antiga correspondente do jornal em Pequim, em agosto, sobre o “entusiasmo” reinante na capital chinesa acerca da IA (em chinês, rengong zhineng). Num estudo recente da Universidade de Stanford, nos EUA, 84% dos chineses inquiridos disseram estar “entusiasmados” com a IA, enquanto apenas 38% dos norte-americanos manifestaram idêntico sentimento. Mais de 600 milhões de chineses usam hoje a IA, um aumento de 142% em relação há um ano, apurou o mesmo estudo. De um ponto de vista marxista, refere a analista Afra Wang, a IA é vista como “a mais alta forma de capacidade produtiva”, “um instrumento industrial aperfeiçoado” e “um caminho para a autossuficiência tecnológica”. Para os adeptos do chamado Partido Industrial, um grupo intelectual muito ativo nas redes sociais nas primeiras décadas deste século, a industrialização é mesmo “a beleza suprema”. “Construir coisas a partir do nada é uma forma de romantismo”, afirmou um autor dessa corrente, Fred Gao, citado na revista Wired por Afra Wang.
“As pessoas na China tendem a ser muito curiosas acerca de coisas novas. Estão interessadas nelas e desejosas de as experimentar”, afirma o professor Xue Lan, da Universidade Tsinghua, de Pequim. “As revoluções industriais anteriores ocorreram na Europa e nos EUA. Essas sociedades vivenciaram em primeira mão como a introdução de novas tecnologias podia afetar profundamente todos os aspetos da vida. Essa experiência continua a fazer parte da sua memória coletiva, e as adaptações por que passaram foram, muitas vezes, extremamente dolorosas. A China não teve a mesma experiência. Quando as tecnologias das revoluções industriais anteriores chegaram à China, já se encontravam bastante maduras.” Agora é a China que está na vanguarda: “Na Quarta Revolução Industrial, impulsionada pela IA – salienta Xue Lan – a China tem a responsabilidade de explorar o caminho a seguir, tal como outros fizeram durante as Revoluções Industriais anteriores.”
Durante a dinastia Qing, que reinou de 1644 até 1912, o governo imperial começou por se opor à construção do caminho de ferro por considerar que os comboios iriam contrariar a harmonia da paisagem. A construção da primeira linha férrea chinesa só seria autorizada em 1881. “Era uma monarquia feudal e atrasada que encarava o comboio como um monstro que iria dar azar à nação”, disse um professor da Universidade Jiaotong, um dos estabelecimentos de Ensino Superior tutelados na década de 1990 pelo então Ministério dos Caminhos de Ferro. Resultado: no final do século XIX, enquanto os EUA já tinham cerca de 300 mil quilómetros de vias-férreas (muitos dos quais construídos por imigrantes chineses), a rede ferroviária na China não chegava a mil quilómetros – muito menos do que o Japão, a Índia ou a Rússia. O próprio Transiberiano, com cerca de 9500 quilómetros de extensão, já estava quase concluído e em 1904 chegaria a Vladivostok, no Pacífico Norte. Desta vez, a China não quer ficar para trás.
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