San Sebastián depois de muita tensão nos filmes, já precisava de uma pausa de cinco minutos. Bastaram os primeiros para perceber que 5 Minutos Más, de Javier Ruiz Caldera, não vinha à Seleção Oficial cumprir quota espanhola ou servir de intervalo digestivo entre dramas de prestígio com gente a olhar pela janela durante três horas. Vinha fazer cinema e, coisa cada vez menos frequente, cinema escrito. Muito bem escrito. Antonio (Berto Romero) e Bárbara (Belén Cuesta), casal na casa dos 40 e num daqueles estados conjugais em que até respirar no tom errado pode ser considerado provocação, alugam uma casa rural em Girona para tentarem salvar o casamento. Recebe-os Carlos (Javier Cámara), suficientemente estranho para parecer culpado de alguma coisa antes de sabermos de quê. E então o tempo recua cinco minutos. Depois outra vez. E outra. O mundo entrou num loop. O casamento também já lá estava.
O argumento como arma branca
É aqui que o ator Berto Romero, que assina o seu primeiro argumento para cinema e vem de El Otro Lado, revela que sabe exatamente o que está a fazer. A repetição não é um truque, é dramaturgia. Cada regresso aos mesmos cinco minutos acrescenta informação, altera relações de força e transforma aquilo que acabámos de ver. A mesma frase ganha veneno. Uma porta deixa de ser uma porta e passa a ameaça, saída, armadilha ou anedota. É o prazer do cinema de mecanismo — pense-se em Corre, Lola, Corre ou, por caminhos diferentes, em O Feitiço do Tempo — sem a preguiça de copiar a fórmula. Aqui há uma regra cruel: o relógio volta atrás, os corpos não. Os danos ficam. Portanto, morrer pode não ser definitivo, mas aleijar-se continua a ser uma péssima ideia. E depois é também uma bela metáfora para um casamento. Ruiz Caldera (de Superlópez, Um Homem de Açãoe, mais recentemente, Wolfgang) percebeu que a única maneira de respeitar este argumento era fazer do tempo matéria física. Nada de montagem salvadora. Os blocos são construídos em planos-sequência de cinco minutos, cronometrados até ao osso, para que o espectador carregue o mesmo relógio às costas das personagens. Como explicou hoje na conferência de imprensa, o problema não era filmar em plano-sequência; era fazer cada plano durar “cinco minutos, zero segundos”. Não é preciosismo técnico: é realização a pensar. Tudo está coreografado e nada parece marcado.
Três atores fechados numa panela de pressão
Berto Romero, Belén Cuesta (A Trincheira Infinita) e Javier Cámara (Fala com Ela, Truman) fazem aquilo que um grande elenco deve fazer: não representam géneros, representam pessoas. Romero dá a Antonio aquela mistura muito masculina de boa intenção, auto-comiseração e método terapêutico aplicado como se fosse um manual de eletrodoméstico. Cuesta é extraordinária a desmontar o verniz conjugal sem transformar Bárbara numa caricatura histérica. E Cámara, que tem o dom raro de parecer simultaneamente acolhedor e suspeito, introduz uma terceira frequência: não sabemos se Carlos é um pobre homem apanhado no apocalipse, um mentiroso, um idiota perigoso ou alguém que sabe muito mais do que diz.
Na conferência de imprensa, Berto resumiu a lógica do filme melhor do que qualquer nota de imprensa: “A vida não tem géneros.” Uma tragédia pode ter uma gargalhada obscena no pior momento; uma discussão conjugal pode ser ridícula até alguém pegar numa arma; uma sala pode rir porque está genuinamente divertida ou porque precisa de libertar tensão. Foi exatamente o que aconteceu hoje na K1. Houve quem saísse inquieto e quem tivesse passado largos minutos a rir, mas talvez tenham visto o mesmo filme. A graça de 5 Minutos Más está aí: não nos diz quando devemos rir, ter medo ou desconfiar. Berto confessou que o argumento lhe saiu mais negro do que esperava e que o escreveu quase compulsivamente durante três meses, depois de reduzir uma ideia antiga ao mínimo de personagens.
O cinema espanhol está, de facto, em grande
Há ainda outra coisa importante: a demonstração de que o cinema espanhol circula hoje entre géneros com uma liberdade que durante demasiado tempo pareceu reservada aos coreanos. O próprio Berto contou que Parasitas lhes servia de referência não pela história, mas pela desfaçatez tonal: rir, inquietar, violentar, emocionar, voltar a rir. Em Espanha, realizadores como Rodrigo Sorogoyen ou Alberto Rodríguez já mostraram que o género não é um bairro periférico do “cinema sério”; é uma ferramenta. Ruiz Caldera leva essa ideia para a comédia fantástica e faz dela um laboratório conjugal em pleno fim do mundo. O Festival confirma-o ao colocar 5 Minutos Más na competição pela Concha de Ouro: 92 minutos, três protagonistas e um argumento de Berto Romero tratados como cinema de primeira divisão, não como excentricidade lateral.
E há a imagem perfeita: antes de tudo começar, no carro, toca In Dreams, de Roy Orbison, a canção que David Lynch tornou inseparável de Veludo Azul. Não é uma piscadela de cinéfilo. É um aviso. Estamos a entrar num sonho, só que daqueles em que acordamos e percebemos que continuamos a sonhar. Ruiz Caldera escolheu-a pela qualidade hipnótica e inquietante, porque queria deixar claro que isto nunca seria apenas uma comédia. O campo é lindíssimo, a casa é magnífica, a piscina parece saída de um anúncio e tudo aquilo cheira a morte. A beleza, como sempre, é a melhor cúmplice do pesadelo.
“5 Minutos Más”: O tempo para o fim do mundo e para salvar um casamento | San Sebastián 2026 — Dia 2
5 Minutos Más, de Javier Ruiz Caldera, é a primeira grande faísca espanhola desta edição: uma comédia que entra pela porta do divórcio, tropeça na ficção científica, cai no terror e sai do outro lado com o Kursaal a rir de nervos. Berto Romero escreve como quem põe uma bomba-relógio em cima da mesa; Belén Cuesta e Javier Cámara ajudam a fazê-la explodir