O rei vai nu! O rei vai nu! Gritou a criança enquanto o rei desfilava publicamente pelas ruas com seu novo “fato invisível”.
No famoso conto de Hans Christian Andersen, intitulado “A Roupa Nova do Rei”, um rei vaidoso compra um “fato invisível” que só seria visto por pessoas inteligentes. Por receio de parecerem ignorantes, todos fingem que estão a ver a roupa nova do rei. Até que uma criança aponta o dedo e menciona o que todos constatavam, mas que receavam afirmar: O rei ia nu!
Ora, atualmente, deparamo-nos com uma incapacidade coletiva de admitir o evidente, seja por medo, interesse ou conformismo. Resistência em reconhecer o “óbvio ululante”, expressão firmada pelo escritor brasileiro Nelson Rodrigues: aquilo que está diante de todos, mas que a maioria, propositadamente, finge não ver.
No conto do rei não é apenas o rei que está nu. Os ministros sabem. Os alfaiates sabem. A multidão sabe. A única pessoa que não participa da encenação é a criança. A coragem da criança não está em descobrir a verdade. A verdade é conhecida por todos. A coragem da criança consiste em recusá-la como mentira coletiva.
Costuma-se afirmar que o problema é o rei ir nu. Talvez esse não seja o grande problema. O dilema maior começa quando todos veem a nudez e decidem agir como se não a vissem. Porque, afinal, o maior perigo para muitas instituições não é o erro. É quem impede que ele continue invisível.
Numa instituição saudável, quem identifica um risco presta um serviço. Numa instituição defensiva, quem identifica um risco transforma-se numa ameaça. É uma inversão profundamente reveladora do que se passa na nossa sociedade.
Por que é que é mais confortável discutir o que foi dito pela criança do que a própria nudez do rei?
Por que é que denunciar um erro parece mais grave do que o próprio erro?
Por que é que quem chama a atenção para uma falha passa rapidamente a ser visto como a própria ameaça?
Enquanto uma situação permanece na zona cinzenta, pode ser relativizada, adiada ou simplesmente ignorada. Entretanto, no instante em que alguém peremptoriamente afirma que o rei vai nu, desaparece a ambiguidade. A partir desse momento restam apenas duas possibilidades: agir ou admitir que se escolheu não agir.
As instituições raramente têm dificuldade em reconhecer a verdade. A dificuldade começa quando reconhecê-la implica corrigir erros, rever práticas e assumir responsabilidades. Se se reconhece que um procedimento está errado, é preciso corrigi-lo. Se se admite que foram ultrapassados limites, é necessário apurar responsabilidades. Se se identificam falhas, impõe-se rever práticas.
Tudo isso implica trabalho, desgaste, conflitos internos. O verdadeiro desafio das instituições, tanto públicas como privadas, é admitir que algo funcionou mal e reconhecer que enfrentar os problemas custa menos do que continuar a ignorá-los.
É então que ocorre uma das mais perversas inversões institucionais. A atenção desloca-se do comportamento para a denúncia, do incumprimento para quem o revelou. A hierarquia da responsabilidade inverte-se: o incómodo deixa de ser causado pelo erro e passa a ser causado por quem recusou ignorá-lo.
Quando a criança aponta a nudez do rei, a reação da multidão não foi de gratidão. Foi defensiva. A criança não denunciou apenas a nudez do rei, ela colocou uma pergunta mais incómoda: como foi possível que todos vissem e ninguém tivesse dito nada?
Essa pergunta não expôs somente o erro, expôs também o silêncio que permitiu que ele persistisse. E é precisamente isso que a torna tão desconfortável.
Há instituições que receiam mais quem acende a luz do que aquilo que a luz revela. Não porque a luz esteja errada, mas porque, depois dela, já não é possível dizer que ninguém viu, que ninguém sabia ou que ninguém percebeu. Quando a criança diz que o rei vai nu, deixa de estar em causa apenas o rei. Passa a estar em causa o silêncio de todos.
É por isso que esta não é uma história sobre um rei. É uma história sobre todos nós. Repete-se, com diferentes protagonistas, nas escolas, nos hospitais, nos Tribunais, na Administração Pública, nas Universidades, nas empresas e em todas as organizações onde reconhecer um problema implica a responsabilidade de o enfrentar.
As instituições não são, muitas vezes, incapazes de ver o óbvio: são incapazes de suportar o dever de agir que o óbvio lhes impõe.
Recusar reconhecer a nudez do rei é negar o “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues. E negar corrigir o erro que o “óbvio ululante” implica poderá ter um preço alto, pois o escritor brasileiro igualmente alertou: “toda nudez será castigada”.
O rei vai nu! O rei vai nu!
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