Há um silêncio intranquilo que só existe nos corredores de uma escola em tempo de exames. É um silêncio onde cabem noites mal dormidas, revisões de última hora e uma ansiedade que parece contagiosa. É o silêncio de quem acredita que, num par de horas, tem de provar o que vale. Nos últimos dias, este silêncio foi interrompido pelo ruído. O ruído das falhas, das polémicas, das dúvidas sobre a organização do modelo de exames nacionais, dos atrasos, dos erros, das críticas ao modelo de avaliação. Mais uma vez, o debate instalou-se. Discutem-se calendários, classificações, plataformas, critérios e responsabilidades. No intervalo do debate fica a dúvida: e os alunos? Queremos formar cidadãos criativos, resilientes e capazes de pensar criticamente. Contudo, continuamos a medir o sucesso através de um ritual anual que privilegia a memória, a resistência ao stress e a capacidade de responder corretamente durante um tempo limitado de minutos e que pode decidir o futuro de um jovem adolescente.
Naturalmente, os exames têm a sua função. Garantem critérios nacionais e tentam assegurar equidade, comparando desempenhos num sistema educativo vasto e desigual. Não se defende que se eliminem sem alternativa credível, porém, quando deixam de ser um instrumento de avaliação para passarem a ser o centro de todo o processo educativo estamos perante uma enorme contradição. Os alunos deixaram de estudar para aprender e estudam para se preparar para os exames. Mas não são os únicos a fazer este caminho. Na sala de aula, durante anos letivos inteiros, os professores presenciam o crescimento dos seus alunos. Conhecem as suas dificuldades, os seus talentos, as inseguranças que venceram e o esforço invisível que nunca aparece numa pauta. Sabem quem evoluiu, quem precisou de mais tempo, quem encontrou finalmente confiança para aprender. Depois chega o exame e uma parte significativa desse percurso parece resumir-se ao desempenho de umas horas. E surge uma frustração difícil de explicar. Os professores são chamados a desenvolver pensamento crítico, criatividade, autonomia, trabalho colaborativo e capacidade de resolver problemas. Contudo, à medida que a data dos exames se aproxima, o foco inevitavelmente muda. As aulas passam a girar em torno da preparação para as provas, das tipologias de perguntas, dos critérios de correção e da gestão do tempo. Não porque seja essa a escola em que acreditam, mas porque é essa a escola que lhe é exigida.
Também os pais fazem este caminho, vivendo cada prova como se fosse sua. Contam décimas, fazem simulações de médias, reorganizam férias, escondem a sua própria ansiedade numa tentativa vã de não contagiar os filhos. Uma ansiedade silenciosa que não aparece nas estatísticas e que também merece ser reconhecida.
Neste processo todos perdemos. As escolas que se organizam em função dos exames. Os alunos que perdem a curiosidade, substituída pelo receio de errar. Os pais que perdem a tranquilidade, convencidos de que o futuro dos filhos cabe numa média calculada à décima. E os professores que perdem parte da liberdade de ensinar aquilo que sabem ser verdadeiramente importante porque a urgência da preparação para o exame acaba por se impor ao tempo da aprendizagem. Toda uma comunidade perde. E este é talvez o maior paradoxo. Pedimos aos alunos para gerir a ansiedade. Pedimos aos pais que confiem no sistema. Pedimos aos professores que inovem, motivem e desenvolvam competências para o século XXI, mas continuamos a entregar um modelo que concentra uma parte significativa de um futuro num exame.
A discussão sobre os exames ultrapassa, em larga medida, a vertente pedagógica, sendo transversal a todos os contextos. É uma discussão sobre jovens que, demasiadas vezes, confundem uma nota com o seu valor. É sobre pais que vivem semanas suspensas entre expectativas e receios. É sobre professores que conhecem o potencial dos seus alunos muito para além de uma classificação. É, sobretudo, sobre um País que continua a perguntar “Que nota tiveste?” antes de perguntar “O que aprendeste?” ou, simplesmente, “Como te sentes?”.
Um sistema educativo revela aquilo que uma sociedade valoriza. Olhando para a forma como transformámos o conhecimento numa corrida contrarrelógio e a adolescência numa sucessão de provas decisivas, talvez este sistema educativo não tenha passado no exame.
A escola existe para abrir portas, não para ensinar adolescentes a viver com medo de as fechar.