A sociedade mudou muito nos últimos anos. Na área profissional ninguém pode pensar hoje que basta fazer uma licenciatura e depois entrar no mercado de trabalho, sem voltar a estudar. As coisas evoluíram tanto que nenhum profissional se pode dar ao luxo de já não se atualizar de modo permanente. Por exemplo, se for médico tem que ir a congressos e ler literatura científica da especialidade, caso contrário torna-se obsoleto enquanto profissional.
No caso particular dos professores, as coisas são ainda mais complicadas devido à especificidade da função. Um docente não se limita a entregar aos seus alunos conteúdos a serem memorizados, assimilados e integrados – um verdadeiro professor deve centrar-se sobretudo na tarefa de ensinar os alunos a aprender, estimulando-lhes o gosto por adquirir sempre novos conhecimentos e competências. Por outro lado, a profissão docente tem óbvias implicações em matéria de formação humana desde os alunos de mais tenra idade.
Em excelente e oportuno artigo aqui publicado, o professor António Teodoro diz: “Aristóteles distinguia entre diferentes formas de saber. A episteme referia-se ao conhecimento científico. A techne ao saber-fazer técnico. Mas havia ainda uma terceira forma de racionalidade prática: a phronesis, ou prudência, isto é, a capacidade de deliberar bem em situações concretas, onde nenhuma regra geral é suficiente.” (VISÃO, 16/7/26)
O autor refletia assim sobre a formação de professores na era da IA, quando a escassez de conhecimento foi substituída pelo seu excesso. De resto os excessos na vida são sempre questionáveis e por vezes prejudicam mais do que facilitam, pelo que o domínio dos conteúdos disciplinares deixou de ser uma questão central no processo de aprendizagem.
Tornou-se insuficiente tal como o mero domínio de técnicas de ensino. É preciso mais. É que, se os alunos precisam de aprender a aprender, os professores precisam de aprender a ensinar em contextos e situações concretas, e isso passa por esquecer as respostas feitas, o automatismo, o simplismo e a improvisação.
No fundo, é o fator humano que determina a profissão docente no século XXI, face à evolução da sociedade e em especial à IA generativa e a overdose de informação. É uma questão ética e relacional, por isso o autor defende que a formação de professores tende a deixar de ser apenas epistemológica e tecnológica para passar a ser essencialmente antropológica.
As igrejas ou comunidades de fé funcionais, afinal, estão na vanguarda da educação e formação humana segundo este novo paradigma, em particular as do campo protestante, visto centrarem o seu culto na leitura e explanação das Escrituras, tendo em vista a aplicação prática de valores e princípios de vida pessoal e interpessoal.
Estas comunidades apostam mais na formação ética e espiritual da pessoa do que na transmissão de conteúdos bíblicos, teológicos, culturais ou políticos. Pode parecer surpreendente mas os vícios, as insuficiências e as aberrações que se veem por aí nalgumas comunidades de fé não apagam nem podem apagar o extraordinário trabalho que tantas outras desenvolvem com seriedade, tendo em vista promoção da pessoa humana, a harmonia social e o desenvolvimento.
Ao contrário do que muitos pensam, o meio cristão não se resume às notícias e opiniões que surgem na comunicação social, e que se centram quase sempre no escândalo, na aberração e no ridículo. Só quem não conhece o meio pode pensar que tais tristes e indignas exceções representam a realidade. E já há por aí demasiada gente que fala desde o topo da sua ignorância.
Aquilo que as escolas estão a fazer para se adaptarem ao novo paradigma antropológico na sua prática pedagógica, as boas comunidades de fé já fazem há muito.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.