Comecemos logo por desfazer a fotografia escolar: Fernão de Magalhães não deu a volta ao mundo, não completou a viagem de circum-navegação. Organizou a viagem, comandou a expedição, atravessou o estreito que recebeu o seu nome, abriu caminho ao Pacífico e morreu antes do fim, em Mactan, nas Filipinas, metido numa guerra local onde talvez se tenha convencido de que a História era a sua criada de quarto. A circum-navegação seria completada por Juan Sebastián Elcano. Mas a lenda, como sabemos, trabalha melhor do que muitos departamentos de comunicação: arredonda, lustra, tira sangue das mãos e põe uma estátua no lugar do cadáver. É precisamente esse bronze patriótico que Lav Diaz vem agora riscar com Magalhães (Magellan), uma coprodução internacional com assinatura portuguesa da Rosa Filmes, de Joaquim Sapinho, e com Gael García Bernal no papel do navegador português. Gael García Bernal, mexicano, estrela global, rosto de muitas revoluções íntimas do cinema latino-americano, agora enfiado na pele, na barba e na culpa de Fernão de Magalhães e a esforçar-se por falar português, esse idioma que, quando passa por bocas estrangeiras, ganha sempre qualquer coisa entre o fado, o GPS avariado e a missa em latim.
Lav Diaz contra o mito da glória
Quem conhece Lav Diaz sabe que não veio aqui fazer uma matiné histórica com caravelas ao pôr do sol e música de trailer para vender a grandeza dos Descobrimentos. O cineasta filipino, mestre radical do chamado slow cinema, já nos habituou a filmes que parecem medir o tempo não em minutos, mas em feridas: From What Is Before (2014), The Woman Who Left (2015) — que lhe deu o Leão de Ouro em Veneza — A Lullaby to the Sorrowful Mystery(2016), ou Season of the Devil (2018). São filmes longos, densos, por vezes difíceis, quase sempre assombrados pela violência política, pelo colonialismo, pela pobreza, pela memória e por aquele velho vício humano de transformar sofrimento em destino nacional.
Em Magalhães, Diaz pega no navegador português e vira-o do avesso. Em vez do pioneiro visionário, temos um homem tomado pela obsessão. Em vez da epopeia limpa, temos uma viagem suja, exausta, febril, atravessada por fome, motins, fé, cálculo, poder e violência. Em vez da “descoberta”, essa palavra maravilhosa que ainda hoje serve para fingir que os outros só começaram a existir quando nós lá chegámos, temos o choque brutal entre mundos, com os povos malaios e filipinos a deixarem de ser figurantes exóticos da aventura europeia para entrarem finalmente no centro moral do filme.
Gael García Bernal interpreta Magalhães como alguém que já percebeu demasiado tarde que o mapa não é o território e que Deus, quando é usado como carta de navegação, costuma levar a nau para o lado errado. O seu português pode não vir de Trás-os-Montes, mas há no esforço físico da língua qualquer coisa que serve a personagem: um homem sempre deslocado, português ao serviço de Espanha, europeu perdido no Oriente, crente a confundir fé com posse.
Uma epopeia sem altar
O mais interessante em Magalhães é que Lav Diaz não precisa de se colocar contra o colonialismo. Faz pior: deixa-o respirar. Mostra-o como rotina, missão, febre administrativa, desejo de baptizar o mundo antes de o compreender. E, nesse gesto, desmonta a grande aldrabice sentimental dos impérios: a ideia de que a violência se torna mais nobre quando vem acompanhada de mapas, cruzes, nomes bonitos e a palavra de Deus.
A participação portuguesa dá ao filme uma ironia especial. Afinal, estamos aqui a ajudar a produzir uma obra que olha para uma das nossas figuras históricas com menos incenso e mais autópsia. O cinema, quando presta, não serve para polir monumentos, serve para lhes levantar a base e ver quantos ossos ficaram por baixo. Andam por lá alguns atores portugueses mas passam despercebidos na multidão: Beatriz Barbosa, a mulher do navegador português é interpretada por Ângela Azevedo, Tomás Alves, que assume o papel do amigo íntimo e companheiro de armas Francisco Serrão, Rafael Morais, Valdemar Santos, Ivo Arroja, entre outros que ao que consta ficaram de fora de uma primeira montagem de 9 horas, agora com cerca de 2h43 de duração.
Magalhães não é um filme para quem procura uma aula ilustrada nem uma aventura marítima com vento na cara e orgulho nacional no bolso. É uma viagem sombria, contemplativa, por vezes árida, sobre um homem que quis chegar mais longe do que todos e acabou por tropeçar naquilo que levava dentro: ambição, fé, vaidade, medo e a perigosa certeza de que o mundo estava à espera de ser conquistado.
Lav Diaz não mata o mito de Magalhães. Faz algo mais cruel: deixa-o vivo tempo suficiente para percebermos que talvez nunca tenha sido um verdadeiro herói. Talvez tenha sido apenas um homem extraordinário e terrível, como tantos homens extraordinários e terríveis que a História primeiro canoniza, depois simplifica e, por fim, vende em bilhete de museu.