Lars Von Trier é um realizador extremo e como tal os seus filmes provocam reações extremadas. Amam-se ou odeiam-se. Ninfomaníaca, que tem tido uma publicidade excessiva, do género antes de o ser já o era, é, na verdade, um filme extremamente assim-assim. E, antes de passar a explicar o adjetivo, importa desfazer algumas ideias falsas, que criaram fama sem haver proveito. Não se trata seguramente de um filme pornográfico, apesar de incluir cenas eventualmente chocantes, sequências avulsas com órgãos sexuais masculinos eretos e close-ups de sexo oral. Nada disto aparece descentrado do foco, do contexto do filme, surge apenas porque o realizador não esconde, e acompanha naturalmente o rosto da personagem em todas as situações. Essa rudeza, sem camuflagens, é efetivamente uma das virtudes do filme e do cinema do dinamarquês. Ao contrário do que acontece, por irreverência, em Os idiotas (1998), aqui as cenas alegadamente ‘pornográficas’ não são gratuitas. Cuidado com a publicidade enganosa que o realizador soube usar como isco, tal como a sua personagem, pois tão pouco se trata de um filme erótico. O erotismo está para Ninfomaníaca como um jantar à luz das velas está para uma ida ao ginecologista. Não sobra qualquer desejo sexual depois de ver o filme, pelo contrário, há uma sensação nauseante – não é definitivamente o filme certo para levar a namorada (ou namorado). Apesar disto, não se trata tão pouco do mais chocante dos filmes de Lars Von Trier, não levanta grandes questões éticas, nem há uma manipulação maléfica do espectador. Ao lado de Anticristo (2009), Os Idiotas ou mesmo Ondas de Paixão (1996), Ninfomaníaca parece um filme da Walt Disney. Em Ninfomaníaca há até uma certa sobriedade de registo e de narrativa, a personagem vive com as suas ações, com a sua patologia ou vício, e, até determinado ponto, as sequelas são autoinfligidas, consequências diretas dos seus atos. O ‘arrastar’ do espectador para a pele da personagem é mais difícil, a carga empática diminui e os momentos de agressão são esparsos (aumentam de intensidade na II parte). Há obviamente uma sensação de desconforto, mas nada que se compare ao provocado por Saló, de Pasolini, ou Transe, de Teresa Villaverde. Não é uma obra-prima, nem o melhor filme de Lars Von Trier. Está muito distante de obras enormes e marcantes como Europa (1991), Dogville (2003) ou mesmo o anterior Melancolia (2011). É um filme imperfeito com uma estrutura pesada que se perde no seu próprio círculo, ou no rigor com que se quer desenhar. Também não é o seu pior filme, é preferível a Anticristo (2009) ou Ondas de Paixão. É fascinante a vários níveis, incluindo o radicalismo com que aborda um tema difícil, que, até determinado ponto, funciona como um ensaio sobre o sexo ou sobre a ninfomania. Ao contrário de outros, é inesperadamente antimachista, no sentido em que, sobretudo na primeira parte, expõe ao ridículo a ingenuidade e tolice masculina – estamos perante o homem objeto. E, ao contrário de Shame (2011), obra-prima de Steve McQueen, é um filme sem-vergonha (tal como a sua personagem). O filme tem uma estrutura relativamente convencional, divide-se por episódios. Parte de um ‘bom samaritano’ que acolhe uma mulher espancada e abandonada na rua. E esta, como num jogo, a partir de alegações ‘intelectuais’, que podem ser uma peça de Bach ou um ícone ortodoxo, vai desvendando a história da sua vida ou o que a levou àquela situação extrema. A primeira parte do filme, apesar de tudo, é mais solar e serve de isco para a segunda, onde a violência é mais explícita, alimentando uma ideia básica do vício enquanto caminho para a overdose. Isto com alguns pormenores curiosos, como o design gráfico sobre a tela. Não é um filme desprovido de humor. Diga-se que Lars Von Trier pode ter o sentido de humor mais bizarro do universo, mas não deixa de ter um. Aqui visível, por exemplo, na cena dos dois negros no quarto da pensão. Mais claro do que isso é que o realizador dinamarquês goza com toda a gente, sobretudo com os críticos que se esforçam por tirar ilações ideológicas ou éticas dos seus filmes. Ri-se às gargalhadas. Entre o génio e o louco está o provocador. Mas depois de afirmar que simpatizava com Hitler no Festival de Cannes, qualquer outra provocação é relativa. Ninfomaníaca col. 1 e 2, com Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Uma Thurman, Christian Slater, Willem Dafoe, 240 min (divididos em duas sessões)
Ninfomaníaca, O filme sem vergonha
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Lars Von Trier é um realizador extremo e como tal os seus filmes provocam reações extremadas. Amam-se ou odeiam-se. Ninfomaníaca, que tem tido uma publicidade excessiva, do género antes de o ser já o era, é, na verdade, um filme extremamente assim-assim.