“Alguém me veio contar o que havia sucedido: ‘O avião caiu à saída de Lisboa! Parece que morreram todos!’ Entrei em estado de choque.” Francisco Pinto Balsemão, ministro-adjunto do primeiro-ministro e nº 3 do VI Governo Constitucional, memoriza desta maneira a forma como soube da morte do primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, da sua companheira, Snu Abecassis, do ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, e do seu primo António Patrício Gouveia. Naquela noite lúgubre de 4 de dezembro de 1980, a quinta-feira que precedia o domingo de umas dramáticas eleições presidenciais, os portugueses souberam da notícia poucos minutos depois do fundador do Expresso – que em editorial publicado na primeira página do jornal titularia, ao lado da foto do amigo, com quem tinha fundado o PPD, com uma única palavra: “Porquê?”

Nessa noite, de ar lívido, profundamente comovido, o vice-primeiro-ministro, Diogo Freitas do Amaral, carregado de luto, cumpria a dolorosa obrigação de anunciar, na RTP, o desastre de Camarate. O próprio Presidente António Ramalho Eanes, recandidato a Belém, mas com uma longa história de conflitos institucionais e pessoais com o chefe do governo, se mostraria, também na RTP, profunda e genuinamente prostrado. O choque era geral e era nacional. A AD, que vencera as eleições intercalares de 1979 e confirmara a maioria absoluta nas legislativas desse ano, ocorridas em outubro, apoiava agora a candidatura do general Soares Carneiro, contra Eanes. Sabedor de sondagens internas que anunciavam uma derrota por poucos, Sá Carneiro resolvera fazer um último esforço de campanha, comparecendo num comício da candidatura, no Porto, para dramatizar e voltar a pedir aos portugueses que cumprissem o desígnio: “Um Governo, uma Maioria, um Presidente”. E já tinha confidenciado a Freitas (segundo um relato pouco conhecido, mas que aqui se recorda) que, caso o candidato apoiado pela AD não ganhasse as eleições, ele se demitiria de primeiro-ministro e abandonaria a política. Retrospetivamente, é difícil acreditar que, na hora da verdade, o fizesse, em definitivo: afinal, ele já tinha abandonado a liderança do partido, mais do que uma vez, para dramatizar, forçar e manobrar, voltando sempre mais forte. Nesse dia, perdendo o voo da TAP, apanhou, à última hora, uma boleia de Amaro da Costa, que viajaria no pequeno aparelho Cessna – o que reforça a tese de Ricardo Sá Fernandes de que a bomba (que terá existido mesmo) se destinaria ao ministro e não ao primeiro-ministro. O avião levantou umas centenas de metros e terá explodido, com os destroços e os restos dos corpos irreconhecíveis a espalharem-se pelo bairro periférico de Lisboa de Camarate. Foi, precisamente, há 45 anos.
