A comunicação turística vive um momento decisivo. A forma como os viajantes descobrem destinos mudou radicalmente, e a competição pela sua atenção tornou-se global, intensa e instantânea. Hoje, comunicar turismo é navegar num ambiente onde o volume de conteúdos cresce mais depressa do que a capacidade das pessoas de os absorverem. A isto somam-se desafios que não só conjunturais, mas estruturais: transformação digital, exigência de sustentabilidade, fragmentação das audiências e um mercado saturado de estímulos visuais. É neste contexto que o audiovisual se tornou, não apenas uma tendência, mas o eixo central da comunicação turística contemporânea.
Os números confirmam o que o setor já percebeu na prática: o vídeo representa hoje mais de 80% do tráfego global na internet e é o formato que mais influencia a decisão de viagem, segundo estudos recentes do Google. Mais do que informar, o vídeo permite criar ligação emocional, transmitir identidade e captar, em segundos, aquilo que não cabe em textos longos nem em campanhas tradicionais. A capacidade de um destino se distinguir depende, cada vez mais, da forma como consegue contar uma história que seja relevante, autêntica e memorável.
Portugal tem sabido acompanhar, e em alguns casos liderar, esta transformação. A evolução da qualidade dos vídeos promocionais nacionais na última década não foi acidental; foi o resultado de um ecossistema que amadureceu. Produtoras, agências criativas, entidades regionais e instituições nacionais começaram a trabalhar com maior profissionalismo, visão e exigência. O Circuito CIFFT e o festival ART&TUR contribuíram de forma decisiva para este percurso, funcionando como laboratório, estímulo e montra internacional. A presença consistente de produções portuguesas em competições internacionais criou um ciclo virtuoso: mais participação gera mais qualidade, mais qualidade gera mais reconhecimento e esse reconhecimento reforça o investimento, não o contrário.
É por isso natural que os World Tourism Film Awards cheguem agora a Portugal, com Guimarães como cidade anfitriã. Não se trata apenas de uma escolha feliz; é um sinal de maturidade do setor e de que o país passou de espectador a protagonista no panorama internacional da comunicação turística. Guimarães tem uma identidade forte, coerente e reconhecida, mas sobretudo tem visão estratégica: valoriza o seu património, investe na cultura e prepara-se para ser Capital Verde Europeia em 2026. É um destino que compreende que a comunicação do futuro não se faz apenas de imagens bonitas, mas de valores sólidos e práticas concretas.
O audiovisual acompanha esta mudança de paradigma. Já não é suficiente mostrar paisagens; é essencial mostrar propósito. Num momento em que 71% dos viajantes preferem destinos sustentáveis, mas quase metade desconfia de mensagens vagas ou pouco transparentes, comunicar responsabilidade tornou-se tão importante quanto comunicar beleza. É por isso que iniciativas como os GreenWorking Awards, desenvolvidas em parceria com a Normmal e com o contributo da OMT, são tão relevantes. Elas respondem a uma exigência real do mercado: a necessidade de narrativas honestas, responsáveis e alinhadas com o impacto que o turismo pretende ter.
Mas há ainda espaço para evoluir. O setor português, e não só, continua a enfrentar fragilidades que não podem ser ignoradas. A produção audiovisual depende, muitas vezes, de ciclos políticos e não de estratégias sustentadas. Persistem abordagens isoladas, sem planos de continuidade, sem integração com dados ou métricas, e sem uma narrativa territorial coerente. Fala-se muito de storytelling, mas nem sempre se investe no trabalho profundo que o storytelling exige. E, num mercado globalizado, a concorrência não espera por ninguém.
O evento que Guimarães acolhe nos dias 4 e 5 de dezembro é, por isso, mais do que uma cerimónia de prémios. É um espaço de reflexão sobre o presente e sobre o futuro da comunicação turística. Um encontro entre líderes, criativos, académicos e profissionais que moldam uma indústria que vale milhares de milhões e que tem impacto direto na perceção que o mundo constrói sobre cada destino. É um momento para debater tendências, aprender com os melhores e assumir a responsabilidade que hoje recai sobre quem comunica turismo.
A comunicação turística encontra-se num ponto de equilíbrio delicado entre criatividade e responsabilidade, entre emoção e rigor, entre tecnologia e humanidade. O audiovisual é o centro dessa equação. Cabe-nos garantir que o utilizamos não apenas para promover destinos, mas para acrescentar valor às comunidades, reforçar identidades e construir narrativas que resistam ao tempo.
Guimarães, pela sua história e pela sua visão de futuro, é o palco certo para esta conversa. E Portugal, pelo caminho que tem feito, tem hoje legitimidade para estar no centro deste debate internacional.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.