O livro corporaliza-se agora nesta co-produção luso-brasileiro-húngara. O agora realizador gaba a coragem e a generosidade do produtor Leonel Vieira, que se envolveu neste projeto “não por motivos económicos mas por razões artísticas – o que é uma coisa rara”, e descobriu com dois atores portugueses “fantásticos”: Ivo Canelas e Nicolau Breyner, embora em papéis menores. Para Walter Carvalho a passagem da direção de fotografia para realização deu-se de forma natural. Ele começou na realização, mas foi sempre sendo solicitado para fazer a direção artística de colegas e amigos, e os projetos próprios iam-se adiando, “e o tempo foi passando”. “De qualquer maneira a minha preparação foi acontecendo com a experiência”. Para ele, um filme é um concerto, o roteiro a partitura, o coro são os figurantes, o elenco as cordas , o diretor de fotografia o primeiro violino, (o braço direito do realizador), o maestro é o realizador “que põe toda esta gente e sinfonia funcionando”.. Agora segura ele a batuta.
Budapeste é um romance com vários jogos de espelhos e ambivalências, as pesonagens movem-se em vários patamares, no campo do onirismo… Como filmou o invisível?
O grande desafio foi manter a altíssima qualidade literária de Chico. Ele congrega num só romance a dramaturgia e a linguagem. É complexo e acessível ao mesmo tempo. Eu tinha de fazer um filme sem danificar a palavra.
São incompatíveis palavra e imagem?
As duas podem-se somar, quando se descobre a palavra da imagem e a imagem da palavra. Sobretudo era importante não cair nos clichés ao contar a história de um cara anónimo, ghost writer, com duas mulheres, duas cidades, duas línguas…A palavra de ordem foi sempre esgarçar o cliché, dilacerar o cliché. Senão cair-se-ia facilmente no novelesco…
Há várias leituras deste romance: uma homenagem às línguas e à palavra, uma história de amor e das voltas do destino, a oclusão do artista por detrás da obra…Preteriu alguma em função de outra?
O filme trabalha a dualidade, a questão do outro, e do espelho. Utiliza-se o espelho para refletir uma personagem que se revela no outro que não é ele, sendo ele próprio. Esse cara, ele vive entre dois países e duas línguas, ambas as mulheres têm um filho, e ele em si é outra pessoa e todas as contradições se revelam ao ponto de ele ter de revelar que foi ele que escreveu aquelas obras. Este gohst writer acaba por não conseguir conviver com anonimato. Há sempre um paralelismo em espelho em todo o filme. Nas próprias mulheres, uma é loura, outra morena. Ele apaixona-se pela húngara através da palavra e não se identifica com a mulher brasileira…
Filmar numa língua impossível “que até o Diabo respeita” foi obstáculo?
Foi muito complexo, uma torre de Babel. Na rodagem falava-se português, inglês, espanhol, francês e húngaro, mas ao fim da primeira semana o meu assistente começou a imitar frases húngaras – o Húngaro não se aprende, só se decora – e isso gerou um ambiente muito salutar e gerou muitas afinidades.. Passámos a dar os bons dias em húnharo e eles respondiam-nos em português e até fizemos o habitual dicionário de palavrões húngaros e brasileiros (risos)…
No filme, há duas estátuas que não estão no livro: uma escultura de homenagem ao escritor anónimo e um enorme Lenine, numa balsa a descer o Danúbio…
O próprio Chico, quando escreveu o livro, não tinha conhecimento dessa escultura. Só depois de lançado o livro lhe disseram que na Hungria havia uma estátua de homenagem ao escritor anónimo, tal como noutros países existe uma homenagem ao soldado desconhecido. Penso que Chico gostou que eu tivesse colocado essa estátua no filme . O Lenine foi uma estratégia de mostrar a cidade sem o cliché do cartão postal. Apesar de tanto o Rio como Budapeste serem consideradas das mais bonitas cidades do mundo, eu recusei-me a fazer isso. Por isso inventei que a personagem, poderia contemplar a estátua desmantelada de Lenine, que passva numa balsa frente ao parlamento, como se ele tivesse viajando de outro filme e passasse enfim por estas pontes do Danúbio em Budapeste, muitos anos depois. Por outro lado, é uma homenagem ao cinema europeu de Angelopoulus (uma citação cinematográfica óbvia) e Kusturika. A imagem invertida também simboliza a derrocada do comunismo.
Feijoada Completa é cantada ora em português, ora em húngaro e Chico pede autógrafo no seu livro…
Não é à toa, nem só para fazer gracinha. No fundo é outro jogo do efeito espelho. A personagem nunca está bem no sítio onde está- ele encontra-se sempre do outro lado do espelho. Então ele escuta essa música no rio mas na cabeça dele já a vai escutando em Húngaro. Chico no filme é personagem, só que o outro é ele mesmo. O filme acaba com a câmara indo em direção ao espelho. É a assinatura gohst writer de quem dirigiu o filme.
Ana Margarida de Carvalho