JL: O filme cruza documentário com ficção. O que disse às pessoas que filmou?
João Trabulo: Desde o início que procurei ter algum tempo para trabalhar com pessoas que estivessem disponíveis. Fiz alguns contactos com grupos que estavam a fazer peças de teatro e outras actividades com presos. Depois, fui filmando, e ao longo de três anos recolhi cerca de 70 horas. O lado pessoal foi muito importante: o motivo pelo qual estavam presos, as expectativas que tinham quando saíssem da prisão. Tive sorte porque as personagens principais do meu filme acabaram por sair entretanto.
Até que ponto é que há uma encenação. Onde começa a ficção e acaba o documentário?
A primeira vez que apontei a câmara ao Ernesto foi naquela altura em que aparece filme. Filmei-o durante meia-hora, e ele faz aquilo com muito à vontade e presença. Houve uma grande disponibilidade da parte deles para participar. À medida que isto ia acontecendo, criavam situações. Quando eu regressava a Lisboa, tentava dar um tratamento mais cinematográfico e aí sim há uma série de dispositivos. Expliquei-lhes como deveriam falar, a questão do tempo, mas sem nunca lhes dar um texto. Também lhes mostrei muitos filmes, como No Quarto da Vanda, do Pedro Costa. E tive muita sorte…
E muita paciência…
Sim, filmar na prisão não é nada fácil, estamos muito limitados em termos de espaço. Em média filmava duas horas na parte da manhã e outras duas à tarde. Mas quando entrava na cela, punha a câmara a funcionar, e acontecia o que acontecesse. Aquelas grandes tiradas são excertos, que eu resolvi não cortar, de uma conversa de uma hora. A escolha é que foi dolorosa, porque imensas coisas fantásticas tiveram que ficar de lado, para evitar redundâncias. Importou-me transmitir aquela humanidade. Houve muita generosidade da parte deles. Tive a inteligência de saber escolher o que deveria ficar no filme.
Há uma aproximação ao Pedro Costa?
Comecei no cinema com o Pedro. O filme sobre o Rui Chafes foi produzido pela Contracosta, onde ele estava a trabalhar. É um cineasta fantástico que, com escassez de meios, tenta mostrar a realidade mais obscura. Aí há uma proximidade, noutros aspectos diferimos muito.
Também se aproximam na forma como usam não-actores e fazem esse compromisso entre o documentário e a ficção.
O dispositivo é semelhante. Acredito muito nos acasos. Comecei o filme com outras personagens que depois não quiseram continuar.
O filme é feito apenas de planos fixos, também a câmara está presa. Porquê?
Em primeiro lugar, por uma limitação técnica. Os espaços são exíguos, havia à volta dos settings muitos guardas. Não dá para estar com grandes movimentos de câmara. Mas acho que funciona muito bem, porque dá para acompanhar melhor toda aquela densidade.
Quinta, 29, às 22 no Grande Auditório da Culturgest
Sábado, 1, às 15, no Pequeno Auditório da Culturgest