Na semana passada falámos sobre o seguro multirriscos habitação e sobre uma ideia que vale a pena repetir: não basta saber que temos um seguro. É preciso saber o que estamos realmente a contratar.
No seguro de vida associado ao crédito à habitação, esta questão ganha uma importância especial. Muitas pessoas sabem que têm seguro porque o banco o exigiu quando contrataram o crédito. Sabem quanto pagam todos os meses, mas nem sempre conhecem as coberturas, o capital seguro ou o que aconteceria à dívida se um dos titulares morresse ou ficasse numa situação de invalidez abrangida pela apólice.
E, no entanto, estamos a falar de um seguro que pode ser determinante para a estabilidade financeira de uma família.
Contratar no banco ou fora: o que compensa realmente?
Quando contratamos um crédito à habitação, é habitual o banco apresentar-nos uma solução que inclui o seguro de vida. A contratação através da própria instituição pode permitir beneficiar de melhores condições de financiamento, nomeadamente de uma redução do spread ou de outras bonificações previstas na proposta.
À primeira vista, parece uma escolha simples: um spread mais baixo significa uma taxa de juro inferior e, consequentemente, uma prestação potencialmente mais reduzida. Mas será que essa poupança compensa o preço do seguro?
Imagine um casal que consegue poupar 35 euros por mês na prestação do crédito por contratar o seguro no banco, mas que paga mais 50 euros mensais pelo seguro do que pagaria por uma solução equivalente no mercado. No final do mês, a opção aparentemente mais vantajosa representa, afinal, um encargo adicional de 15 euros.
Ao longo de um ano, são 180 euros. E, num crédito que pode durar décadas, as diferenças acumuladas podem ser significativas.
O spread mais baixo não significa necessariamente o crédito mais barato, tal como o seguro mais barato não significa necessariamente a melhor proteção.
É fundamental comparar o custo global das soluções, considerando a prestação, os seguros e os restantes produtos associados. E fazer essa comparação com coberturas equivalentes, porque não faz sentido comparar um seguro que cobre morte e invalidez com outro que oferece uma proteção mais limitada.
Também não devemos partir do princípio de que contratar fora do banco é sempre mais vantajoso. A redução do spread pode compensar o custo adicional do seguro bancário. Noutros casos, a poupança obtida com uma solução externa pode ser superior ao benefício na taxa de juro.
A decisão deve resultar das contas e das condições concretas de cada proposta.
Ter seguro de vida não significa estar totalmente protegido
Outra questão essencial é perceber o que estamos efetivamente a segurar.
O seguro de vida associado ao crédito à habitação destina-se, em determinadas circunstâncias previstas na apólice, a permitir a liquidação total ou parcial da dívida. Mas as coberturas podem variar significativamente entre contratos.
A cobertura de morte é relativamente fácil de compreender: se ocorrer o falecimento do segurado durante a vigência do contrato e nas condições previstas, o capital seguro poderá ser utilizado para amortizar o crédito.
Já quando falamos de invalidez, a situação exige maior atenção. Existem diferentes coberturas e definições contratuais, com requisitos específicos quanto ao grau de incapacidade e às condições em que a proteção pode ser acionada.
Por isso, não basta perguntar se o seguro cobre invalidez. É necessário perceber que tipo de invalidez está coberto, qual o grau exigido e em que circunstâncias a seguradora assume o pagamento.
Esta diferença pode ser decisiva para uma família que, além de enfrentar uma situação de saúde particularmente difícil, continua a ter de pagar a prestação da casa.
Um seguro com um prémio inferior pode parecer atraente, mas, se as condições de cobertura forem mais restritivas, poderá não oferecer a proteção que imaginávamos ter contratado.
100% ou 50%? O que significa ter 200% de cobertura?
A questão torna-se ainda mais interessante quando o crédito é contratado por duas pessoas.
Imagine um casal com um crédito à habitação de 200.000 euros. Uma das possibilidades é contratar um seguro em que cada titular fica coberto por 50% do capital em dívida. Neste caso, se ocorrer o falecimento de um dos segurados e a cobertura for acionada, poderá ser liquidada a parte correspondente à sua percentagem, permanecendo o restante crédito a cargo do sobrevivente.
Outra possibilidade é contratar uma cobertura de 100% para cada titular.
É daqui que surge a expressão “200% de cobertura”: cada pessoa está individualmente segura por 100% do capital em dívida. Não significa que a seguradora vá pagar duas vezes o crédito, mas que cada segurado tem uma cobertura correspondente à totalidade do capital seguro.
A diferença entre estas duas soluções pode ter um impacto significativo no prémio. Mas também pode fazer uma enorme diferença na proteção financeira de quem fica.
Num casal em que ambos contribuem para o rendimento familiar, a perda de um dos rendimentos pode tornar muito difícil continuar a suportar a prestação. Uma cobertura de 50% pode reduzir a dívida, mas deixar uma parte importante do encargo por pagar. Uma cobertura de 100% para cada titular pode, nas condições previstas na apólice, permitir liquidar a totalidade do capital em dívida quando ocorre um sinistro coberto.
A escolha da percentagem de cobertura não deve ser feita apenas em função do preço. Deve considerar os rendimentos de cada titular, os encargos familiares e a capacidade de quem fica para continuar a pagar o crédito.
É igualmente importante perceber como evolui o capital seguro ao longo do empréstimo, se acompanha o capital em dívida e de que forma o prémio poderá mudar com o passar dos anos. A idade dos segurados, as coberturas e as condições da apólice influenciam o custo, pelo que comparar apenas o valor do primeiro ano pode dar uma imagem incompleta da despesa futura.
Quando foi a última vez que reviu o seu seguro?
Muitas famílias contratam o seguro no momento da compra da casa e mantêm-no durante anos sem voltar a analisar as condições. Entretanto, o capital em dívida diminui, os rendimentos mudam, a família cresce e as necessidades de proteção podem ser diferentes.
O facto de o seguro estar associado ao banco não significa que não possa ser revisto. É possível avaliar outras soluções, incluindo a contratação fora da instituição de crédito, desde que sejam respeitados os requisitos aplicáveis e as condições do financiamento. Mas qualquer mudança deve considerar o eventual impacto nas bonificações do spread e, naturalmente, nas coberturas.
Rever não significa necessariamente mudar. Significa confirmar que continuamos a ter a proteção adequada e que não estamos a pagar mais do que aquilo que faz sentido.
Antes de renovar ou alterar o seguro, vale a pena perceber quanto está seguro para cada titular, quais as coberturas efetivas e quanto custa a solução no conjunto com o crédito à habitação.
Afinal, não estamos apenas a escolher um produto financeiro. Estamos a decidir o que poderá acontecer à dívida e à estabilidade da nossa família se a vida não correr como esperamos.
Ter finanças com cabeça não significa escolher sempre a solução mais barata. Significa perceber o que estamos a pagar, o que recebemos em troca e qual o risco que continuamos a assumir.
E quando as prestações já pesam demasiado no orçamento?
Existe, porém, outra realidade que merece atenção. Muitas famílias, ao longo dos anos, acumulam crédito à habitação, crédito automóvel, créditos pessoais e cartões de crédito. Cada financiamento tem a sua prestação, o seu prazo e os seus encargos, tornando cada vez mais difícil gerir o orçamento mensal.
Será possível reorganizar estas responsabilidades, reduzir o peso das prestações e, em determinadas situações, recorrer ao crédito à habitação ou a um imóvel como garantia para obter financiamento?
Na próxima semana vamos abordar a consolidação de créditos: em que consiste, quando pode fazer sentido e quais os cuidados a ter antes de transformar várias dívidas numa única prestação.
Porque, muitas vezes, o problema não está apenas em quanto devemos. Está também na forma como essa dívida está organizada.
Ter finanças com cabeça é saber quando está na altura de rever as decisões que tomámos e preparar melhores condições para o futuro.
Fale connosco
Dúvidas, comentários ou sugestões de temas para a rubrica Finanças com cabeça podem ser enviados para nuno.godinho@rede.doutorfinancas.pt