O tom é dado logo no hall de entrada da Galleria Borghese, coberto de frescos, lindíssimo. Ao primeiro olhar, sobressaindo entre dezenas de bustos de César, aquele pé gigante podia ser o pedaço de uma antiga estátua de pedra. A hipótese só se desvanece quando se dá pelo rato com uma orelha a crescer-lhe nas costas que Damien Hirst empoleirou na típica sandália romana.

Mais à frente, há um mergulhador sem cabeça, esculpido em bronze e coberto de coral, e cinco personagens da Disney que também parecem ter sido resgatadas das profundezas do mar.
Na sala seguinte, o famoso Apollo de Bernini, eternamente a cravar os dedos na carne da jovem Daphne, está rodeado pelas esculturas de duas mulheres e um homem acorrentados e em aparente estado de decomposição.

Damien Hirst, Female Archer [Arciera], 2013. Bronzo / Bronze. Collezione privata / Private collection. Ph. by A. Novelli © Galleria Borghese – Ministero della Cultura © Damien Hirst and Science Ltd. All rights reserved DACS 2021/SIAE 2021
Por esta altura, o visitante acredita que vai reconhecer facilmente todas as obras do provocador artista britânico, de 56 anos, que espantou o mundo da arte ao expor um tubarão em formal (A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo, 1991) ou um molde de platina de um crânio humano do século XVIII, incrustado com diamantes (For the Love of God, 2007). Será verdade no caso das mais modernas, mas dará ele pelos seus conjuntos de nus gregos, em bronze e mármore cor-de-rosa, num claro brincar aos clássicos, que flanqueam a Vénus Victrix de Canova?
Ao longo das várias salas dos dois andares do conhecido museu, em Roma, aposta-se que a surpresa vai ser constante para quem visitar a exposição Arqueologia Agora, inaugurada esta semana com o apoio da Prada.

A exposição permanente da Galleria Borghese vive da coleção iniciada pelo cardeal Scipione Borghese (sobrinho do Papa Paulo V), entre 1576 e 1633. Grande colecionador da obra de Caravaggio, Borghese foi também o primeiro mecenas de Bernini, por isso o museu tem muitas obras destes dois artistas, além de esculturas e pinturas de Leonardo da Vinci, Raffaello, Rubens, Ticiano e Canova.
A exposição de Damien Hirst traz “obras completamente desestabilizadoras”, disse a curadora Anna Coliva à AFP. “Mas mesmo na coleção [permanente] há obras de beleza forte, terrível e aterrorizante – como é a verdadeira beleza. Portanto, este é o lugar onde esta poesia [de Hirst] pode ser exaltada.”
A maioria das obras o artista inglês que Coliva e Mario Codognato escolheram para semear pela Galleria já tinham sido expostas anteriormente. Fizeram parte da exposição Tesouros do Naufrágio do Inacreditável, que esteve em Veneza, no Palazzo Grassi e no Punta della Dogana (antiga alfândega), durante a Bienal de 2017.

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Damien Hirst, Hydra and Kali [Idra e Kālī], 2015. Bronzo / Bronze. Collezione privata / Private collection. Ph. by A. Novelli © Galleria Borghese – Ministero della Cultura © Damien Hirst and Science Ltd. All rights reserved DACS 2021/SIAE 2021
Na altura, os críticos dividiram-se. Enquanto o do Daily Telegraph considerou a exposição “uma loucura espetacular”, no The Art Newspaper escreveu-se: “É assim que a arte se parece quando a ambição desenfreada encontra recursos financeiros aparentemente ilimitados.”
Agora, em entrevista ao La Repubblica, Damien Hirst confessou-se “maravilhado” com Bernini, mas avisou não lhe interessarem as comparações. “O mundo em que vivemos é muito diferente daquele em que viveram os grandes mestres que estão na Galleria Borghese”, justificou. “Hoje, ser artista é diferente.”
E, quando o jornalista lhe contou que as suas medusas (em ouro, prata, malaquite e bronze) estão expostas mesmo ao lado de uma pintura de Caravaggio, comentou: “Se tivesse de escolher entre Ticiano e Caravaggio, escolheria Ticiano. A luz de Caravaggio é incrível, mas eu adoro coisas que estão a cair aos bocados, danificadas.”

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Damien Hirst, Fern Court [Verde sottobosco], 2016. Vernice lucida su tela / Household gloss on canvas. Collezione privata / Private collection e/and The Skull Beneath the Skin [Il teschio sotto la pelle], 2014. Marmo rosso e agata bianca / Red marble and white agate. Collezione privata / Private collection. Ph. by A. Novelli © Galleria Borghese – Ministero della Cultura © Damien Hirst and Science Ltd. All rights reserved DACS 2021/SIAE 2021
Além de dezenas de esculturas, o conhecido artista inglês expõe pela primeira vez em Itália a sua série de pinturas Color Space.
“A bela exposição de Damien Hirst é um sinal de recomeço”, disse o ministro da Cultura, Dario Franceschini, na cerimónia de inauguração. “Esta exposição é uma prova daquilo que vai acontecer nos próximos meses. Será um novo renascimento para a Itália.”