Façamos o seguinte exercício de imaginação: o que aconteceria se, num tempo distópico qualquer, a liberdade para fazer comédia fosse restringida? Se as pessoas não pudessem rir-se publicamente, sendo o riso um reflexo, uma contração muscular impossível de controlar? Os resistentes, um grupo de argumentistas e atores, criam um movimento para continuarem a fazer comédia e as pessoas poderem rir sem restrições.
Ao serem apanhados, num interrogatório policial, estes criativos são confrontados com os sketches de comédia que têm andado a escrever, a gravar e a projetar às escondidas num teatro, um armazém que funciona como sede das operações, dando a possibilidade às pessoas de assistirem a uma espécie de espetáculo.
Cada um dos oito episódios de Ruído passa por momentos distintos, alternados entre si, mas que juntos fazem sentido – seja numa entrevista sobre kombucha, em dilemas sobre usar colete e corsários, no modus operandi de um caricaturista, num jogo de snooker ou numa ida a um restaurante sem reserva.

Abra-se um parêntesis para explicar ainda que, neste programa de humor, os espectadores que assistem ao espetáculo não são figurantes, foram convidados a ir ver os sketches e reagiram de forma genuína, permitindo à equipa perceber quais tinham mais impacto. No entanto, há uma “censura sonora” às gargalhadas, o ruído do título, que não fazia sentido num cenário de proibição.
Funciona no TikTok
Ruído representa o que Bruno Nogueira, 43 anos, gostaria de ver em comédia enquanto espectador, guiado por uma frase que costuma ouvir do pai, “as pessoas cansam-se de estar bem”.
Depois de dois programas de humor exibidos na SIC (Princípio, Meio e Fim, em 2021, e Tabu, em 2022), neste seu regresso à RTP, onde apresentou êxitos que se mantêm atuais, como Os Contemporâneos (2008) e Último a Sair (2011), Bruno Nogueira rodeou-se de uma trupe de atores com quem já tem trabalhado – Albano Jerónimo, Gabriela Barros, Gonçalo Waddington, Miguel Guilherme, Rita Cabaço e Romeu Costa –, mais um trio de argumentistas e dois realizadores.
A ideia para Ruído começou a fermentar há cerca de um ano e o processo de escrita foi bastante longo, durando oito meses. Bruno Nogueira volta a trabalhar com Frederico Pombares, sobretudo por discordarem entre si de várias ideias, e convidou Luís Araújo, ator e guionista, “por pensar e por ter um universo e uma cultura de comédia” parecidos com o seu, e Carlos Coutinho Vilhena, 31 anos, de uma geração mais recente de comediantes com quem se identifica na forma de encarar o humor. Além disso, brinca Luís Araújo, “sabe o que funciona no TikTok”. Diz Bruno Nogueira: “O Carlos não tem pressa de apresentar material e espera por um período de maturação para a ideia estar no ponto. Gosta de experimentar coisas novas, mesmo correndo o risco daquilo não dar em nada consensual. A consensualidade é aborrecida, obriga a fazer cedências que podem comprometer a criatividade.”
“O Bruno é bom a gerir egos”, completa Carlos Coutinho Vilhena. “Somos todos argumentistas que não fazem birra, conseguimos estar oito ou nove horas juntos a escrever, sem desgaste, com bom ambiente.”
Todos concordam que o maior luxo deste novo programa foi ter tido tempo para “escrever com calma, estar seis ou sete horas para escrever um sketch”. “Não se fica na primeira ideia que aparece, o que se reflete no resultado final. Ter tempo em comédia está em desuso, mas é valiosíssimo”, acrescenta o autor.
Há impossíveis
O facto de a ação passar-se num tempo distópico, e poder remeter para o futuro, não invalida que por haver censura e clandestinidade sejamos de imediato levados para o passado. No entanto, Bruno Nogueira não teve a intenção de alertar “cuidado que isto pode acontecer”. “São leituras que estão presentes quando se está a trabalhar a ideia, mas não era de todo o objetivo principal. Não acho que seja uma coisa tão impossível de acontecer. Sendo o riso tão difícil de controlar – não é possível, acontece-nos além da nossa vontade –, o que me interessava era um exercício de contenção. E não tanto passar uma mensagem política ou social”, afirma.
E continua: “Não conheço nenhum comediante, nos tempos que correm, que tenha sido calado ou abafado. Acho que se pode dizer tudo e depois o público decide se gosta. Não há essa vontade de acenar uma bandeira da liberdade, há uma vontade, sim, de celebrar uma liberdade criativa de poder fazer coisas diferentes.”
Na série Sara (2018), que passou na RTP2, o humorista também abordava a possibilidade de uma impossibilidade: “Uma atriz que não conseguia chorar e era o que fazia melhor.”
Com estreia marcada para a próxima quarta, 7, “às 22 e 30, num horário para adultos, com bolinha vermelha”, avisa José Fragoso, diretor de programas da RTP1, o resultado final de Ruído é a unificação do trabalho de dois realizadores feita por Andre Szankowski, diretor de fotografia. Enquanto Ricardo Freitas tem uma linguagem mais televisiva e “uma agilidade muito importante para a comédia”, daí assinar os sketches, Tiago Guedes contrasta com uma linguagem mais cinematográfica, ideal para a representação teatral.
A atriz Rita Cabaço faz ainda uma ressalva: “Enquanto nos sketches as personagens terminam, acho que pode ser entusiasmante para o espectador poder ter vontade de conhecer o grupo de resistentes.”
Ruído > RTP1 e RTP Play > Estreia 7 mai, qua 22h30 > 8 episódios, um novo à quarta