No início do filme, é a voz de Lucia Sanchez, autora e realizadora de Mafalda, Reviens!, no título francês original, que se ouve dizer: “Todos os dias, quando olho para o jornal, perco o ânimo. O mundo está a ir depressa demais. É injusto, violento e complicado. Lembro-me sempre da menina que dizia: ‘Temos de mudar o mundo, senão é o mundo que nos muda’.”
Exibido no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, em França, em janeiro deste ano, o documentário mistura imagens de arquivo, animação e live action, e apresenta cenas rodadas num apartamento dos anos 1960, em que vários altifalantes, à volta do sofá, evocam Mafalda, ligando o passado ao presente.
É preciso andar para trás para olhar a atualidade com mais informação. Há seis décadas, pelo traço do cartoonista argentino Quino (1932-2020), “nascia” num bairro operário de Buenos Aires, na Argentina, uma criança insubordinada e cheia de dúvidas, com o dom da palavra, num discurso cáustico, dizendo em voz alta o que tantos outros pensavam.

Filha de um funcionário dos seguros e de uma dona de casa, Mafalda, além de odiar sopa, tinha um espírito rebelde, era interessada pelo mundo e queria perceber o porquê da guerra, da fome, das desigualdades sociais e de género, do racismo, da corrupção, passando a ser também ativista e feminista.
A personagem de 10 anos, tornada heroína, tinha sido desenhada primeiramente para uma campanha publicitária, em 1962, que não chegou a acontecer, mas depois ganhou vida em tiras publicadas no suplemento humorístico da revista Leoplán, seguindo-se as páginas do jornal argentino Primera Plana, em 1964, até terminar em 1973.
Neste documentário, o que Lucia Sanchez faz é posicionar Mafalda no presente, para compreender o que aconteceu desde que Quino parou de a desenhar. Que perguntas faria hoje Mafalda?
Volta, Mafalda! > Estreia 10 set, dom 23h20 > 52 min