O cenário mimoso da produção de morangos da Verde Água agrada ao olhar, mas as preocupações estéticas ocupam uma percentagem insignificante nesta equação. Nesta propriedade de dez hectares (metade é de área agrícola), com certificação biológica, em Cinfães, na encosta do rio Douro, tudo foi pensado segundo os princípios da sustentabilidade ambiental. As cerejeiras e os girassóis ao redor alternam entre si o interesse dos pássaros, o alho-francês plantado junto aos camalhões ajuda a prevenir as doenças fúngicas, o cebolinho repele os bichos, as colmeias próximas contribuem para a polinização, as ervas aromáticas atraem auxiliares como as joaninhas (que eliminam o pulgão), o cavalo Zico ajuda a cortar as ervas, as pilhas de compostagem junto ao rebanho de ovelhas e de cabras são utilizadas como adubo natural e até os cães que por ali circulam livremente afastam os javalis escondidos no bosque.
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A estrela da quinta é o Mara des Bois, híbrido francês que conjuga o aroma, o sabor e a polpa dos morangos silvestres com outra variedade que lhes dá calibre. “São remontantes, estão em floração contínua entre abril e outubro e adaptam-se bem ao nosso clima, solo e condições”, explica Joana Gouveia, a proprietária, de 41 anos. O tamanho é mais pequeno do que os morangos comerciais, mas a doçura é incomparável. Mesmo sendo mais caros – nas vendas diretas, cobram €8 por kg –, a aceitação dos consumidores é enorme. “O recorde de vendas foi de 140 kg numa manhã”, conta. Como eliminaram os canais de distribuição, colhem os frutos apenas no ponto de maturação e, no dia seguinte, já estão a entregar aos clientes ou às lojas bio e Celeiro que fornecem no Grande Porto.
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Antes de ficar com a quinta, na posse da família desde 1901, a engenheira ambiental precisou de ganhar mundo. Acumulou experiências profissionais em Cabo Verde, de seguida, no Brasil, e foi lá que conheceu o marido argentino, Aníbal San Miguel, 46 anos, formado em administração de empresas. Com a morte do avô de Joana, o abandono da propriedade foi progressivo. Mas nascia a vontade do casal em assentar raízes. Em 2014, mudaram de vida e avançaram com o projeto de agricultura biológica. “Aqui sinto-me muito mais produtivo, chego ao final do dia e vejo os resultados do meu trabalho”, confessa Aníbal, convertido em absoluto à vida de agricultor.
Começaram por uma horta e a vender as verduras no Mercado Biológico do Parque da Cidade do Porto. “Um dia, levámos morangos e desapareceram logo… decidimos, então, aumentar a produção [atualmente, têm 15 mil plantas que dão cerca de cinco toneladas por ano].” Com este fruto, alcançaram o reconhecimento. Hoje, têm clientes fiéis que, se não vão ao mercado, ao sábado de manhã, passam pelas lojas em busca dos morangos Verde Água. “Temos uma relação de proximidade e de confiança, muitos deles já visitaram a quinta… qualquer coisa que levemos, compram”, assegura Joana.
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A vontade de diversificar fê-los avançar com um agroturismo. Recuperaram as casas de granito da quinta e criaram cinco suítes, além de uma yurt. A ideia é envolver os hóspedes nas atividades agrícolas, “eles adoram, descomprimem completamente”, diz Joana. Ideias não faltam. Já estão a organizar encontros ao pôr do sol no laranjal, às sextas, com vinho, música ao vivo e petiscos; uma vez por mês têm um típico churrasco da Patagónia, o asado al gancho (com as carnes penduradas sobre as brasas, cozinhadas lentamente) e convidam ainda chefes de cozinha para trabalharem com o fogo e os produtos da quinta. “São propostas fora da caixa, pretextos para as pessoas cá voltarem”, sublinha. E levarem um cabaz completo.
PROXIMIDADE COM O PRODUTOR
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Mais a norte, em Amarante, nas freguesias de Salvador do Monte e da Lomba, está sediada a Naturpassion, uma empresa dedicada à produção de pequenos frutos: framboesas, amoras e mirtilos. Licenciada em Agronomia, Rute Cardoso, 46 anos, começou por trabalhar na área dos vinhos e, durante muitos anos, os terrenos da família paterna ali herdados (cinco hectares) ficaram esquecidos. Em 2008, decidiu arrancar com o projeto agrícola e mudar-se com a família para Amarante. “Tinha muitos anos de experiência em vinhos e, apesar das diferenças de produção, sentia-me à vontade para avançar por conta própria”, conta.
Encontramo-la na apanha das framboesas, muito cuidadosa, para manter o fruto imaculado. “A primeira colheita, mais intensa, começou a meio de maio e vai até finais de junho, a segunda decorre entre meados de agosto e outubro… a fisiologia da planta permite estes dois crescimentos”, explica Rute. Nas estufas crescem duas variedades: a Lupita, espanhola, planta geneticamente concebida, com melhorias em termos de sabor, quantidade de produção, calibre e resistência a doenças; e a Amira, italiana, mais exigente e sensível, mas com sabor distintivo. “Esta é mais para um mercado de proximidade, não se aguenta muito tempo nas cuvetes”, diz.
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Cerca de 80% da produção da Naturpassion – 20 toneladas por hectare de framboesas – vai para grandes distribuidores internacionais, a restante é vendida no mercado municipal de Amarante (€7 por kg), às quartas e aos sábados de manhã, ou entregue porta a porta no Grande Porto (se as quantidades o justificarem). “Tem sido muito giro e recompensador contactar diretamente com os consumidores, há um reconhecimento e uma proximidade que são importantes na agricultura”, sublinha.
Todos os fins de semana abrem a quinta e promovem experiências. “As pessoas colhem a fruta que entendem, pesam e levam-na a preços mais competitivos”, aponta. Este ano, terminaram a reconversão da antiga casa agrícola e abriram um agroturismo, a Quinta do Santinho, onde os hóspedes também são convidados a participar nas atividades agrícolas e a conhecer aquilo que é uma produção integrada – com uma gestão sustentada da água e do controlo de pragas. “A fruta é sazonal, este é um complemento da nossa oferta e, de certa forma, fechamos o círculo”, conclui Rute, em jeito de convite.
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