A investigação em oncologia — e, em particular, aquela que se foca na análise de amostras humanas, como tecidos tumorais ou outros tipos de amostras — depende de várias estruturas de apoio absolutamente essenciais para que possa avançar. Refiro-me a estruturas hospitalares, como a cirurgia, a imagiologia e a anatomia patológica, mas também aos biobancos. Mas afinal, o que são biobancos? Identificados como uma das “ideias de futuro” pela prestigiada revista Time há quase 20 anos, existem em ambientes académicos e hospitalares — de forma mais ou menos formal — há já muito tempo. Os biobancos são estruturas de apoio que visam facilitar a realização de projetos de investigação, permitindo o acesso a amostras biológicas e à respetiva informação clínica associada. Como me refiro, neste contexto, à investigação em oncobiologia, falo concretamente de biobancos que recolhem, processam e disponibilizam amostras humanas, embora existam também biobancos dedicados ao armazenamento de amostras de outras fontes, como animais (incluindo insetos) ou plantas (incluindo sementes). Pensemos numa ideia científica e clinicamente relevante: procurar um biomarcador de resposta terapêutica em amostras de sangue de doentes com cancro da mama. Em que consiste esse projeto e de que forma pode o biobanco contribuir? Ao organizar a recolha de amostras de sangue antes, durante e após o tratamento, e ao processar essas amostras separando soro, plasma e componentes celulares (como células imunes ou circulantes), o biobanco assegura uma uniformização que facilita a análise laboratorial posterior.
Ao organizar a recolha de amostras de sangue antes, durante e após o tratamento, e ao processar essas amostras separando soro, plasma e componentes celulares (como células imunes ou circulantes), o biobanco assegura uma uniformização que facilita a análise laboratorial posterior
No laboratório, será então possível investigar a presença e a relevância do tal biomarcador — por exemplo, uma hormona ou outro fator quantificável no sangue — e perceber o seu eventual papel na melhor ou pior resposta das pacientes à terapêutica. Além disso, o biobanco permite o acesso a um número elevado de amostras, algo essencial para que as conclusões obtidas tenham validade estatística e significado clínico. Um aspeto fundamental da atividade dos biobancos é, para além da recolha e processamento de amostras biológicas como sangue ou tecido tumoral, o acesso e a recolha de informação clínica detalhada dos dadores de forma anonimizada. Este processo envolve a aprovação por uma comissão de ética, a obtenção de consentimento informado por parte dos pacientes e a recolha de dados pessoais e clínicos. A informação é então codificada, com acesso restrito à chave de identificação, garantindo assim a proteção dos dados. Esta informação pode ser usada em estudos integrativos sobre desfechos clínicos, risco genético ou caracterização de variantes genéticas que reflitam a diversidade populacional e a resposta a fármacos, entre muitos outros exemplos possíveis. Todo o processo está sujeito a autorizações e auditorias técnicas, de forma a assegurar que os direitos dos dadores estão protegidos. Afinal, o objetivo é facilitar a investigação científica sem comprometer os direitos e a privacidade dos cidadãos que generosamente contribuem com as suas amostras.
No caso concreto do biobanco de que faço parte enquanto membro da equipa, houve recentemente uma mudança importante que importa comunicar aos dadores. O GIMM (Gulbenkian Institute for Molecular Medicine) nasceu da fusão de dois institutos de investigação de referência: o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). Como parte desta fusão, o Biobanco-iMM — um dos mais antigos do País, com 11 anos de atividade — passou a designar-se Biobanco-GIMM. Esta mudança de nome e imagem não altera, contudo, a nossa missão. A atividade e o empenho do Biobanco mantêm-se, e o GIMM assume o compromisso de lhes dar continuidade, garantindo que os direitos dos dadores sobre os dados e amostras biológicas continuam salvaguardados. O trabalho “nos bastidores” de estruturas como os biobancos é fundamental para assegurar boas práticas na investigação científica, especialmente na área da oncologia. É através deste tipo de suporte que se criam as condições para descobertas inovadoras e clinicamente relevantes, capazes de melhorar a resposta clínica e, consequentemente, a qualidade de vida dos doentes.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.