Nas últimas três décadas, Marlene Vieira, 45 anos, é a primeira mulher a ganhar uma Estrela Michelin no seu restaurante Marlene, aberto em 2022, no Terminal de Cruzeiros de Lisboa. Na Gala Michelin Portugal 2025, realizada nesta terça, 25, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, só outra mulher se destacou: a jovem Rita Magro, 28 anos (em 2024 tinha sido eleita Jovem Chefe do Ano) que trabalha em equipa com Vítor Matos no Blind, restaurante do Torel Palace Porto, também vencedor de uma Estrela Michelin.
Mas a noite foi de Marlene Vieira, a chefe de cozinha natural da Maia, “portista desde a barriga da mãe” e que, aos 12 anos, já acompanhava o pai nas entregas de carne a vários restaurantes. Foi um deles, aliás, que conquistou Marlene para este mundo: o La Costa Brava, restaurante de cozinha francesa (ainda existente na Maia), no qual trabalhou durante umas férias de verão. Desde então, nunca mais saiu de uma cozinha.
Falámos com Marlene Vieira, pouco depois da cerimónia.
Há 30 anos que não existia uma mulher chefe de cozinha com Estrela Michelin. Como se sente?
É um marco. Sinto que, garantidamente, vai marcar a minha carreira e a de Portugal porque é um país de mulheres cozinheiras. É importante elas usarem um bocadinho da minha energia para seguirem o seu caminho.
O facto de não ter recebido a Estrela Michelin no ano passado, motivou-a ainda mais?
Não sei se motivou… Não quis abdicar de coisas que tinha, como a questão de continuar a trabalhar oito horas… [tal como a equipa]. É um trabalho muito forte internamente e se já existia, este ano saiu fortalecido e uniu-nos mais.

Como é ser mulher no mundo da alta cozinha?
As mulheres que trabalham como chefes de cozinha são donas dos seus projetos. Ninguém investiu nelas. Elas mesmo investiram em si. Não há investimento dentro das organizações para as mulheres, isso não existe. Porque a sociedade quer ver homens a comandar – eu não. Eu alimento-me de talento, gosto de trabalhar com pessoas com talento, é a minha forma de estar na vida. É uma força que ganhei e vem da minha herança familiar. A minha avó [era galega], a minha mãe, toda a vida me ensinaram que ‘se tu não fizeres por ti, ninguém o vai fazer’. Quando a minha mãe me mandou para a escola primária, a primeira coisa que me disse foi: ‘Vais para a primária, vão-te chamar nomes e tu vais ter que te saber defender. Vais ter de lutar.’ E foi isso que fiz, levei aquilo à letra para a vida toda. Portanto, ensinem as vossas filhas e filhos a defenderem-se e a não abdicarem dos seus sonhos por nada, nem pelo marido ou namorado… Só se for por uma causa muito nobre, mas adiam um bocadinho e voltam outra vez.
Não há investimento dentro das organizações para as mulheres. Porque a sociedade quer ver homens a comandar – eu não
É isso que ensina à sua filha de nove anos?
Sim, é isso que lhe ensino. O restaurante Marlene, era para abrir em 2020 [ano da pandemia] e abriu dois anos depois. O pai [João Sá, também chefe de cozinha com uma Estrela Michelin no Sála] ficou com ela em casa e eu fui trabalhar. A minha filha perguntava-lhe porque é que a mãe ia trabalhar. O pai respondia-lhe: ‘Porque a tua mãe só fica saudável se estiver a trabalhar e a fazer comida. Se ela ficar em casa, vai ficar doente’. Eu tenho muita sorte, soube escolher o meu parceiro [risos]. Nós, homens e mulheres, temos que nos proteger no sentido de manter o nosso percurso.
Foi especial receber este prémio no Porto, uma vez que é natural da Maia?
Ui, foi [suspiro]! Parecia que estava escrito. A força que eu tenho vem muito de trás. O mundo sabe que as pessoas do Porto são muito lixadas, até agressivas às vezes na forma de ser e de estar. Se calhar porque tiveram muitas lutas ao longo do seu percurso, sentiram-se inferiores… Também fui educada a sentir-me, de certa forma, inferiorizada e que teria de lutar por um lugar se quisesse destacar-me em alguma coisa. É isso que está na educação das pessoas do Norte, que nos torna resilientes e com muita vontade de vencer. Não tem a ver com competir, tem a ver com vencer. Cresci numa terra batida, tinha muito pouco ou nada, mas do pouco ou nada era preciso fazer muito e construir alguma coisa. Nunca parar. Isso vem da educação. A parte mais difícil da vida é educar um filho. É mais difícil do que criar menus, do que estar numa equipa ou sobreviver a uma pandemia.
O facto de se ser mulher torna muito mais difícil a carreira de uma chefe de cozinha?
Não pensei nisso durante muitos anos. Comecei a pensar nisso mais recentemente, quando me perguntavam. Muitas vezes esqueço-me disso, não penso se sou mulher ou se sou homem. Penso nos meus objetivos, no que quero fazer, nos meus sonhos. É óbvio que quando me perguntam sobre isso hoje, olho para trás e percebo que tive algumas coisas menos boas por ser mulher. Aquela coisa que a minha mãe me dizia: ‘Filha, é uma pedra, vais ter que saltar a pedra.’ Era só um obstáculo para mim, sabia que ia ter que o contornar. Felizmente não pensava nisso, porque depois há a síndrome da vitimização que não nos deixa avançar. Todos nós temos dificuldades, os homens têm muitas dificuldades na cozinha. Hoje menos, mas já houve tempos em que os homens não podiam chorar, mostrar fraqueza. Vocês imaginam o que é isto? Não poder mostrar a vulnerabilidade de chorar numa cozinha. A maior parte das mulheres simplesmente saía, abandonava e ia à sua vidinha. E os homens tinham de aguentar porque a sociedade e os pais os obrigavam a aguentar. Os homens têm uma concorrência enorme, mas dificuldades diferentes.
Não penso se sou mulher ou se sou homem. Penso nos meus objetivos, no que quero fazer, nos meus sonhos. É óbvio que quando me perguntam sobre isso hoje, olho para trás e percebi que tive algumas coisas menos boas por ser mulher
Esta Estrela Michelin vai mudar alguma coisa no restaurante Marlene,?
Em termos de conceito, não vai mudar nada. É um restaurante em que a pessoa se senta, desfruta e vai descobrindo os pratos um a um. A nossa ideia é ir fazendo menus diferentes a cada três meses. Isso não vai mudar, está no nosso ADN. Mas obriga-nos a sair da nossa zona de conforto constantemente. Se isso nos vai levar mais longe? Acredito que sim, porque quando saímos da zona de conforto, há um risco de consistência que tem de ser calculado, mas também há o risco de colher mais frutos.
Na cerimónia, agradeceu a uma cozinheira da sua equipa, Marcela Fernandes [subchefe no Marlene,], que foi mãe há 11 meses. Ser cozinheira e mãe ainda é um empecilho nesta carreira?
Sim, é. Porque as mães têm esta dificuldade de deixar os seus bebés, sobretudo nestes restaurantes gastronómicos que estão abertos essencialmente ao jantar. É uma coisa que acredito que pode vir a mudar no futuro, desde fechar ao sábado e ao domingo a manterem-se abertos à hora de almoço, e se calhar dois ou três dias ao jantar. É uma meta que queremos atingir para que outras mães não tenham de sair muito cedo do lado dos seus filhos, nem os pais. Tenho um subchefe [Mário Cruz] que foi pai há três anos e presenciei a dor que ele sentia por não estar ao lado da filha pequena. É um trabalho que fazemos dentro da nossa equipa, o Marlene nunca vai ser um empecilho a outras crianças nascerem. O meu agradecimento foi mais virado para a Marcela porque sei a luta interior que tive quando estava em casa com a minha filha: sentia uma dor por não estar com a minha equipa, e quando estava com a minha equipa, doía-me não estar com ela.
As mães têm esta dificuldade de deixar os seus bebés, sobretudo nestes restaurantes gastronómicos que estão abertos essencialmente ao jantar. É uma coisa que acredito que pode vir a mudar no futuro
A vírgula no final do nome do seu restaurante (Marlene,) vai manter-se?
A vírgula tem a ver com a história da Marlene Vieira. Aquele restaurante conta a história da minha vida. É o meu percurso, os menus são elaborados com a minha identidade, com aquilo que trago na minha carreira. A vírgula tem que ver com a mudança para o dia de hoje. Vamos trabalhar sempre contemporaneidade no Marlene,. Queremos trabalhar a tradição, os sabores portugueses e a história das pessoas que estão ali na equipa. A vírgula é isso: começa na Marlene e depois há toda uma história que vai estar sempre a ser contada de maneiras diferentes por muitos anos. É isso que queremos.
Como resumiria o que é essencial para uma chefe de cozinha chegar a este patamar?
Excelência e talento, obviamente. Trabalhar e sair da sua zona de conforto, olhar para as coisas com olhar crítico. Eu faço isso muito bem, sou muito autocrítica. E saber ultrapassar todos os obstáculos. Sempre fui muito otimista no meu caminho e não sei ver as coisas de outra forma, apesar de haver momentos de desespero, como aconteceu na pandemia em que achei que iria perder tudo. Mas no dia seguinte, já tinha uma solução. Qualquer um de nós vai encontrar uma solução dentro de si.

Bilhete de Identidade
Aos 16 anos, Marlene Vieira entrou na Escola de Hotelaria de Santa Maria da Feira, começou a trabalhar num hotel de charme em Vila do Conde e, um ano depois, foi para Nova Iorque para o restaurante português Alfama. Dois anos depois regressa a Portugal, passa pela cozinha de hotéis cinco estrelas e, em 2012, abre o Avenue, em Lisboa, e um balcão no Mercado Time Out, também na capital. Mas não ficou por aqui. Em 2020 inaugura o Zunzum Gastrobar e, em 2022, o Marlene, o seu restaurante de alta-cozinha, onde trabalham quatro cozinheiros e cinco pessoas na sala, e no qual revisita as suas memórias. Acaba de ganhar a primeira Estrela Michelin.