No início da semana, à hora a que fechávamos esta edição da VISÃO, o Governo estava suspenso das explicações do ministro da Administração Interna, Luís Neves, sobre o caso que o envolve com um empreiteiro de Barcelos. No fim de semana, tinham começado a correr rumores de que o governante iria falar na segunda-feira, mas, ao longo do dia, não surgia a confirmação. Entretanto, Luís Montenegro, que anunciou prescindir das férias, este ano, estaria a fazer contactos para uma eventual substituição do ministro. Mas também se preparava, conforme apurou a VISÃO, para acumular, se necessário, durante a época dos incêndios, o cargo de ministro da Administração Interna, até que passe a crise e que, com calma, se arranje outra figura forte, para um ministério-chave mas que tem funcionado como um verdadeiro cemitério de ministros. Mas estes são os plano B e C: o plano A seria aguentar até ao limite dos limites o ministro Luís Neves e deixá-lo aplicar o seu plano delineado para a época dos fogos.
Ao mesmo tempo, no Largo do Rato, José Luís Carneiro era pressionado para assumir uma posição mais dura sobre o caso Luís Neves. Tendo dado primazia ao fogo de barragem sobre o ministro da Educação, depois do falhanço da digitalização dos exames nacionais, o líder do PS tinha poupado o MAI, deixando o palco da oposição ao Chega. No PS, comentava-se o contraste com o partido de André Ventura: “É curioso como Ventura faz declarações diárias contra o MAI e esquece completamente os milhares de alunos e de famílias que vivem com o caos nos exames e no acesso ao Ensino Superior”, diz à VISÃO uma fonte socialista. Ainda assim, no fim de semana, José Luís Carneiro engrossou a voz e exigiu explicações cabais a Luís Neves. Não é só Montenegro que está em suspenso: o PS também. E o caso explica-se politicamente: Luís Neves, nomeado por António Costa para diretor da PJ, e sobraçando a pasta da Administração Interna com uma narrativa sobre criminalidade, segurança e imigração idêntica à posição oficial do PS, foi sempre considerado um intocável. Um contrapeso, no Governo, à deriva de direita de Luís Montenegro. As próprias credenciais no combate ao terrorismo de grupos de extrema-direita tornou o ministro simpático para a esquerda, que o poupou flagrantemente, no último debate sobre o estado da Nação.