Este ano, o obrigatório anúncio da minha ida para férias ano vem no início da crónica em vez de ficar no fim com aquelas letras pequenitas meio escondidas, como se fosse uma vergonha ir de férias.
Isto até dava um bom gancho para começo de uma conversa acerca do Governo e o meio demagógico, meio populista, meio salazarento comunicado em que o primeiro-ministro diz que este ano fica por São Bento a velar por nós. Daqui podia-se sugerir que talvez uma ida para um qualquer lugar onde lhe fosse permitido refletir um bocadinho sem a pressão do dia a dia pudesse benéfica para o País.
Podia ser que percebesse que o Governo está a gerar uma enorme falta de confiança nas instituições do Estado e que isso é o maior fator de degradação de uma democracia.
Perde-se essa confiança quando se permite que um deslumbrado ministro ponha em causa a carreira de milhares de estudantes através de um processo gerido de forma manifestamente incompetente e continue a liderar um Ministério da Educação; que ministros e ministras mostrem a cada dia que não têm qualquer vocação para o cargo. Degrada-se a democracia quando o primeiro-ministro estabelece um padrão ético que faz com que olhemos para os ministros e representantes do Estado como uns rapazes que podem olhar pela vidita como qualquer empresário de moral duvidosa.
Para piorar, vivemos uma situação em que a mesma grande maioria que acha o Governo mau também não quer eleições, um pântano de areias movediças: o marasmo que nem deixa tudo na mesma, afunda o bom que ainda há.
Tenho, porém, um tema melhor e bem mais importante. Um que tenho adiado não sei se por pudor, se por intuir que não serei capaz de exprimir o que me vai na alma. Vou arriscar e escrever sobre a VISÃO.
Primeiro, o assunto VISÃO é mesmo mais importante do que qualquer governo ou primeiro-ministro. Esta revista que o meu querido leitor folheia ou lê num aparelho qualquer é a liberdade e a democracia em forma de letras e imagens. É uma prova de que há pessoas que não se entregam à degradação de serem simples funcionários de um projeto económico ou político enganadoramente parecido com um órgão de comunicação social e querem ser jornalistas. Assim mesmo, jornalistas. Homens e mulheres que contam histórias em que a verdade é sagrada, que não trocam popularidade pelo rigor, que não vendem clicks mas notícias, que não nos indicam um caminho, mas mostram-nos as diferentes estradas. Sem esta gente que investiga, que escrutina, que critica, a tal de democracia e a tal de liberdade seriam só umas palavras vazias de sentido. A democracia sobrevive a um péssimo Governo, mas não sobrevive sem jornalistas como os da VISÃO.
Foi nestes tempos de aperto que mais reações tive aos meus textos na VISÃO, que mais senti que esta revista era respeitada e considerada
Os 12 jornalistas que fazem esta revista, sem um local onde possam estar juntos, sem salário durante muito tempo, são o sal da terra democrata. A prova cabal de que há quem resista, quem perceba a importância da sua missão e o papel que desempenha na comunidade.
Não terão sido muitas as vezes que tantos deveram tanto a tão poucos. Sim, esta prosa é sobretudo um enorme agradecimento a esta gente por lutar por nós e pelos valores de tantos.
Como dizia acima, tinha medo deste tema, fui deixando sempre para depois a minha declaração de amor a esta gente. É que é muito difícil descrever o arrepio de orgulho por poder escrever na excelente revista que estes 12 homens e mulheres e quem os ajuda produzem. E, sim, o pudor vinha de saber que não conseguiria dizer o que quer que fosse sem que a coisa não parecesse em boa parte uma carta de amor, e essas, já sabemos, podem parecer aquilo que o poeta dizia.
A coragem que arranjei não veio do nada. Um cronista não dá apenas a sua opinião, muito longe disso. Este, mais concretamente, tenta sobretudo ter uma conversa com quem o lê. Claro está, se não houver, por pequena que seja, uma aproximação entre os nossos pensamentos, mesmo que seja para discordarmos, a relação torna-se, digamos, complicada.
Bom, se começo a falar do que é a relação entre quem escreve e quem lê, a coisa não vai ter fim e ninguém quer saber disso.
Pronto, quem me deu a coragem para falar dos meus admiráveis camaradas (desculpem o esticanço) da VISÃO foram os leitores e os que contribuíram para que este projeto único se mantenha. Aqueles que a compram, os que deram um euro para que se consiga que este projeto se mantenha independente, os que falaram aos amigos sobre a necessidade de continuarem a ter este espaço de investigação, de notícias, de análise.
A razão é simples: foram eles que mostraram que os 12 jornalistas não estão sozinhos, que há muitos, muitos, que sabem o quão importante é manter e acarinhar este projeto.
A revista merece ter muitos mais leitores porque é mesmo muito boa, e lá se chegará porque, apesar do meu atual pessimismo, acredito que cada vez mais pessoas perceberão a importância de projetos destes. No entanto, o facto de ter crescido em leitores e em notoriedade é algo que faz com que o meu elogio aos meus 12 camaradas seja apenas mais um. E como um cronista tem um megafone que será mais ou menos audível quanto mais ou menos pessoas o lerem, tenho o conforto de pensar que também exprimo o que os leitores da VISÃO pensam – vá lá, desculpem o convencimento.
Foi nestes tempos de aperto que mais reações tive aos meus textos na VISÃO, que mais senti que esta revista era respeitada e considerada. Não foi por mim, e não é falsa modéstia, é porque a revista cresceu e isso só aconteceu porque é mesmo muito boa e porque as pessoas reconhecem o que os 12 indomáveis jornalistas fazem. Sim, a confiança, o apoio e o facto de a comunidade perceber o quão importante é manter o jornalismo livre e independente vivo foi das poucas coisas que fizeram a minha velinha do otimismo continuar acesa.
Sendo assim, vou de férias. Espero encontrá-los lá para o fim de agosto. Como se dizia há uns anos valentes: leia, assine e divulgue.