TOP 10 NACIONAL
Vaiapraia
Alegria Terminal

Transbordante é a palavra: de vitalidade, de urgência, de ousadia. Uma declaração de guerra a tudo o que é comezinho e arrumadinho.
É fácil ficar enfeitiçado com as letras de Rodrigo Vaiapraia. O moço parece escrever com a desenvoltura do Sérgio Godinho, brincando com as palavras e a dicção – “O x-ato lamina, a tesoura recorta / O tempo fulmina a memória torta” – e as narrativas cruzadas do Lobo Antunes – “Ecos a rugir, boom, chinfrim / Eu não te consigo ouvir, nem tu a mim” (Ulucrudador). A história não é direta nem explícita – o Carlos Tê não mora aqui – e dá mais do que espaço para conjeturar, imaginando o que esta criatura estará a pensar, estará a viver, estará a imaginar do que viu, ouviu e/ou viveu!
Musicalmente, Alegria Terminal é o expoente máximo daquilo a que se pode chamar rock apunkalhado e louco e divertido. Um novo punk que foge às fórmulas e privilegia a desarrumação e a atitude provocatória. Tal como nas letras, misturam-se e sobrepõem-se influências, estéticas e épocas. A produção é austera, mas perfeita para ouvirmos as melodias, as mudanças de tempo e todos os detalhes. Juntam-se os teclados modestos mas incisivos de Rodrigo às deliciosas frases das guitarras de Francisca Ribeiro (Chica) que passeiam entre o puro punk, o indie rock e o belíssimo goth dos oitenta, numa orquestração sustentada por uma esquizofrénica secção rítmica a cargo do baixo de Beatriz Diniz (April Marmara) e da bateria de Ana Farinha (Candy Diaz). No topo deste muffin caseiro de caramelo salgado, a reluzente cereja de uns coros que já não se ouvia há muito tempo!
Mão Morta
Viva La Muerte

Em Viva La Muerte, disco conceptual, está lá tudo, numa crítica letrada de Trump aos neofascistas que fetichizam o Estado como entidade nacionalista, que pregam os bons costumes, a pureza étnica e o culto da violência como forma de purificar um povo que será pobre, mas que terá sempre o consolo de se sentir útil para o Líder. É um trabalho necessário, uma reinvenção da música de intervenção à moda particular dos Mão Morta, uma obra marcante e urgente que tem de ter a nossa atenção.
A Garota Não
Ferry Gold

Em Ferry Gold, A Garota Não expande o seu universo poético e musical, transformando cada canção em retrato íntimo e denúncia social, mostrando que o um e o todos não têm de ser entidades separadas. Um disco exigente, belo e profundamente emotivo, que pede atenção, entrega e, sobretudo, um coração aberto. Vale a pena ver este disco ao vivo, porque é nesse encontro entre artista e público que a poesia, a música e a emoção se completam verdadeiramente, à nossa frente.
Femme Falafel
Dói-Dói Proibido

No seu disco de estreia, Femme Falafel dá-nos acesso privilegiado ao seu monólogo interior, enquanto lida com as dores de ser uma mulher a tentar sobreviver ao século XXI. Sendo um disco formal na sua matriz jazz, é também louco nas batidas house e nos sintetizadores idiossincráticos, mas são os versos rápidos e intrincados, quase como um fluxo de consciência sem grandes filtros, carregados de ironia e de trocadilhos inesperados, que tornam este disco divertidíssimo do princípio ao fim.
Minta & The Brook Trout
Stretch

Como em todos os discos de Minta, esta é uma rodela para consumir por inteiro. É dessa forma que melhor funciona um certo efeito hipnótico e calmante que sempre os acompanha sem esquecer qualquer canção, todas discretas obras de relojoaria cançoneteira, com arranjos bonitos e inteligentes a esconderem-se por baixo da simplicidade da superfície. Com mais um excelente disco de folk-pop, os Minta & The Brook Trout descansam-nos e dizem-nos que ainda estão aqui, connosco, e que sim, a vida tem altos e baixos, mas que podemos encontrar conforto neste disco, o companheiro ideal para qualquer outono.
Noiserv
7305

7305 é o quinto trabalho de estúdio de Noiserv, disco onde mantém o seu experimentalismo e a sua conceptualidade. A música navega num território entre o intimismo, a melancolia e o cinematográfico, construída em torno de camadas de sons, com instrumentos clássicos e texturas eletrónicas, a que se juntam vozes suaves. Neste trabalho, canta quer em português, quer em inglês, e conta com vários convidados como Surma, Milhanas ou A Garota Não. Um disco para saborear com atenção e ouvir uma e outra vez, descobrindo cada camada escondida que aparece a cada nova audição.
First Breath After Coma + Salvador Sobral
A Residência

A Residência é um trabalho conjunto dos First Breath After Coma e Salvador Sobral, que se fecharam na Casa Varela, em Pombal, e trabalharam sofregamente num projeto que começou por ser pensado para o palco e que resultou num dos discos mais impactantes da música nacional dos últimos anos. O álbum está concebido com a intenção de nos transportar até àquela residência – ao início até se ouve uma porta a ranger, abrindo-se para nos deixar espreitar. Há, ao longo de todo o disco, uma força gravitacional que nos faz ficar colados ao chão. Não vale a pena tentar resistir.
Jasmim
Dias em Branco

Num cenário musical muito marcado pela predominância da ironia – na pose e nas letras –, é refrescante ouvir alguém para quem a canção não é uma mera brincadeira lúdica de plasticina. Jasmim, nome artístico do músico, cantor e escritor de canções português Martim Braz Teixeira, não precisa de pose. Isto é um rapaz que ouviu muita música boa, de que foi bebendo e que foi misturando numa liquidificadora, até encontrar a sua receita própria, original e de instintos certeiros. Os arranjos são seriíssimos, por vezes solenes, de uma delicadeza e de um bom gosto inatacáveis.
Hetta
Acetate

Acetate é o primeiro álbum dos Hetta, mas traz mais do que a continuação dos temas soltos editados no passado – os gritos, a velocidade, a violência, continuam lá. Mas a voz não está sempre no mesmo lugar, canta, berra, lamenta. Enquanto a guitarra chora, o baixo socorre e a bateria não arreda pé. A beleza no caos, a morte ao silêncio. Tudo no mesmo saco. Se os passos pequeninos dos Hetta os fizeram grandes, o álbum de estreia torna-os reais. A sua missão não se fica por aqui: evangelizar com o peso da música para retirar o peso da vida.
Evols
The Ephemeral

Há muita coisa a descobrir em The Ephemeral, camadas sobre camadas de saborosas melodias, improvisações espaciais e exploração de novos estilos musicais, tudo trabalhado com o máximo cuidado, E não são apenas as colaborações que trazem uma nova dimensão ao som dos Evols, mas também a composição cuidada de cada tema, a atenção que dão ao pormenor, ao detalhe, que contrasta, lá está, com a efemeridade dos tempos. Quando damos o tempo necessário ao que quer que seja, o resultado é sempre melhor. Um belo disco de raiz rock, mas onde cabe muita outra coisa.
TOP 10 INTERNACIONAL
Rosalía
Lux

Em Lux, estamos perante algo que é tudo e o seu contrário, mas no bom sentido. É uma espécie de pop-antipop com um cariz profundamente humano, que funciona e encaixa como uma luva nas imagens de marca da cantora.
Depois de três álbuns com posturas diferentes, surgiu Berghain, o primeiro single deste novo trabalho, e toda a gente ficou baralhada. Por um lado, por causa da surpresa nesta nova mudança de registo, por outro, o impacto musical da canção – orquestrações sinfónicas que nos gritam ao ouvido um emocionado desamor jovem – era esmagador. O mundo inteiro começou a teorizar sobre esta mudança, os significados escondidos da canção, o caminho que seguiria o novo disco e muito mais. Depois pudemos ouvir o álbum completo e tornou-se bastante óbvio que tínhamos virado uma página importante, a reboque do talento inquestionável de uma jovem com pouco mais de 30 anos.
Lux é a expressão física de uma nova persona de Rosalía. Há uma maior maturidade, as letras são mais refinadas, os temas que as inspiram menos triviais e toda a parte instrumental ganha uma elevação de que não há memória – pelo menos, eu não a tenho – na história recente da música pop. Sim, porque isto é um disco pop. Não é por ter orquestras e canto lírico que deixa de o ser – e nem era preciso a própria Rosalía o dizer.
Saber mudar de pele com tanto equilíbrio e sem perder identidade é uma característica reservada para os maiores. É tão fácil correr mal que conseguir fazê-lo é sinal de virtuosismo. E Rosalía é uma virtuosa, este Lux assim o comprova.
Turnstile
Never Enough

Este é um álbum cheio de riffs poderosos, intercalados com a voz melódica de Brendan Yates, conseguindo saltar da bolha do hardcore, sem perder a sua essência. Mas é, sobretudo, pela boa música que criam que os Turnstile são considerados uma das bandas mais interessantes que por aqui andam, em particular neste grande mundo do rock. Never Enough é uma pérola de músicas bem construídas, que se colam umas às outras de forma muito fluida, que nos agarram desde o primeiro acorde, e onde os 45 minutos de álbum parece que voam. Um disco de canções mascarado de um disco de rock “pesado”.
Geese
Getting Killed

Getting Killed é um turbilhão de rock experimental que desafia todas expectativas: rude, referencial e nervoso, abraça o caos com cadências instáveis e letras crípticas que parecem tanto profecias como piadas internas. É tão fascinante quanto irritante, uma demonstração de força dos Geese e do seu vocalista, Cameron Winter, que não deixará ninguém indiferente. Getting Killed é o disco de rock mais marcante do ano, com muitos a colocarem os nova-iorquinos como porta-estandarte de um novo renascimento do género.
Annahstasia
Tether

A voz de Annahstasia parece ter nascido antes de o tempo ser tempo, uma mistura rara de força e fragilidade. Há nela uma densidade que lembra Tracy Chapman, mas também uma doçura aérea, quase espiritual, que a aproxima de Nina Simone nos momentos mais introspetivos. O timbre é aveludado, quente, com um grão natural que faz cada palavra parecer vivida, respirada. Em Tether, essa voz é o centro magnético de tudo, mas este não é só um disco: é um mapa para a alma, onde as bússolas são uma viola, uma voz transcendental, silêncios e a certeza de que cada nota mexe com as nossas emoções.
Panda Bear
Sinister Grift

Apesar de não dever ser visto como um disco que chora um divórcio recente, é provável que essa perda sentimental esteja presente em Sinister Grift. Os temas vão-se tornando, aos poucos, mais contemplativos, sem perderem os focos centrais de todo o álbum, a beleza etérea que emana por todos os sulcos de vinil percorridos pela agulha do nosso contentamento. Se é verdade que existe por aqui uma elegante inquietude, alguma sombra e escuridão, até mesmo nas mais ritmadas canções, a luz que vem dos arranjos vocais e das melodias acende-nos o coração.
Bad Bunny
DeBÍ TiRAR MáS FOToS

DeBÍ TiRAR MáS FOToS é o melhor disco de Bad Bunny e mostra-nos que o reggaeton pode ser mais do que apenas versões plásticas e vulgares que fazem dançar. A sua história mostra o quão permeável é este estilo e este disco mostra que é um género em mudança e que tem potencial para ser mais do que música mexida. A fase em que Bad Bunny está revela uma maior maturidade, uma crescente capacidade de ir além dos rabos a abanar, mantendo-se fiel às origens. Esta é a receita de um Benito mais adulto e consciente da vida, do amor e do mundo que o rodeia. Tudo isso enquanto nos põe a abanar as ancas.
Big Thief
Double Infinity

Há um substantivo sempre presente quando falamos em Big Thief: vulnerabilidade. Seja na voz de Adrianne Lenker, nas melodias folk arrastadas e melancólicas ou nas letras sentidas e pessoais. Nada disso muda com este sexto álbum, mas seria injusto esperar que fosse exatamente igual aos anteriores. Não podemos esquecer-nos de que as bandas têm direito a procurar novos caminhos e novas sonoridades. Double Infinity representa bem a escolha (por vezes difícil) de deixar o passado para trás e seguir em frente, com os devidos medos. Crescer não é fácil, mas os Big Thief persistem (e bem).
Sharon Van Etten
Sharon Van Etten & the Attachment Theory

Ao sétimo trabalho de estúdio, a norte-americana Sharon Van Etten apresenta-se renovada: este é o primeiro disco em que colabora integralmente com a sua banda, The Attachment Theory, e onde apresenta uma sonoridade diferente, mais sombria e melancólica, mas também com uma componente eletrónica mais vincada e mais longe do seu habitual campo do folk introspetivo. Este é um disco diferente, com um toque gótico, onde se sente a influência post-punk e uma prova da capacidade de reinvenção de Van Etten, à boleia de algumas grandes canções.
Stereolab
Instant Holograms on Metal Film

Depois de muitos anos de ausência, o mais recente trabalho dos Stereolab é um daqueles discos que merecem ser avaliados e consumidos por inteiro, para assegurar uma eficaz imersão neste universo tão particular. É, de certa forma, um disco de Stereolab total, porque traz todas as suas marcas de sempre, e das quais tanto gostamos: as melodias, uma produção imaculada e a dose certa de exploração sónica. Os Stereolab estão onde sempre estiveram, numa elegante cápsula espacial dos anos 60, a beber um cocktail colorido enquanto discutem filosofia. E, claro, em grande estilo.
Suede
Antidepressants

Antidepressants é um disco negro, desde o tema das canções à sonoridade propulsora, com uma aura de pós-punk. Mas é sobretudo um disco em que a guitarra cortante e o baixo ganham presença, resultando num retrato urgente, frio e negro das relações humanas em curto-circuito permanente. No seu conjunto, é um disco muito bem conseguido, um triunfo estético e imaculadamente coerente, com o gelo e a escuridão a serem complementados por algo que os Suede sempre tiveram e que faz toda a diferença: o seu profundo sentido melódico, a noção de que uma canção deve interpelar-nos e mexer connosco.