Em frente da bancada de Nuno Mota estão uma ocarina e um apito que ainda funcionam, um pente e contas de cabelo, peças de um jogo, um molde de projétil, uma agulha de tear… ou talvez de pesca, ainda não se sabe.
Esta é uma pequena amostra dos objetos em estudo no novo Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL), retirados dos silos encontrados em Carnide, aquando do início das obras de requalificação do Largo do Jogo da Bola.
“Já sabíamos que existiam ali umas estruturas para armazenamento de cereais, mas não em tão grande número”, conta o arqueólogo. Ao todo são entre 120 e 150 os silos encontrados, o que indicia que aquela antiga área rural terá sido o celeiro de abastecimento da cidade até ao século XVI, abandonada, depois, na viragem para o século XVII, transformando-se numa “lixeira subterrânea”.
Estamos na chamada zona dos limpos, à qual chegam as peças já sem vestígios de terra e pó, e onde se inicia a fase de estudo que permite contar como era a vida de outros tempos na capital.
Lisboa é o município português no qual se regista o maior número de intervenções arqueológicas e o caso de Carnide é apenas um dos exemplos dos trabalhos a decorrer na cidade. A sua origem remota e a ocupação intensa conferiram-lhe uma dimensão cosmopolita. Depois, o terramoto de 1755 fez da cidade um “caso singular, no mundo”, explica o arquiteto Miguel Marques dos Santos.
No novo CAL, herdeiro do serviço de arqueologia sediado no Museu da Cidade, juntam-se, agora, arqueólogos e técnicos, “potenciando, assim, o trabalho de equipa”, diz Francisco Motta Veiga, diretor municipal de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa. “E isto vale tanto para dentro como para fora, no sentido em que o CAL funciona também como uma plataforma de estudo aberta a outros investigadores, arqueólogos, estudantes e estagiários.”
Também Moisés Costa Campos, técnico do laboratório de conservação valoriza esta aproximação: “Permite a troca de ideias e isso é fundamental.” A sua função consiste “na conservação paliativa das peças”, o que, resumido, é a ciência ao serviço da arte aplicada. A esta sala das máquinas com nomes esquisitos, juntam-se outras duas salas de depósito e ainda um centro de documentação.
Museu de Lisboa A inauguração do Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL) é o primeiro passo no sentido da nova configuração do Museu da Cidade, que, no futuro, se chamará Museu de Lisboa. Nos quatro anos de concretização do projeto, efetuar-se-ão obras no Palácio Pimenta, a sede do museu, no Campo Grande, e será criado um novo núcleo, no Torreão Poente do Terreiro do Paço.