1 Almeida Garrett foi um dos sete mil e quinhentos soldados que, em 1832, vieram com D. Pedro IV dos Acores para o Porto para combater o absolutismo de D. Miguel. Integrava o Batalhao Academico que mal entrou na cidade se instalou no edificio do antigo mosteiro dos frades Agostinhos Descalcos, vulgarmente conhecidos pelos “Grilos”. Ainda hoje este templo e conhecido como “a igreja dos Grilos”.

2 Nesta porta, anexa à igreja dos Grilos, Almeida Garrett esteve várias vezes de sentinela. Nos momentos em que aqui não esteve, e nos poucos em que não teve que andar envolvido em combates nas ruas do Porto, frequentou a biblioteca do mosteiro. Foi nela que encontrou um velho manuscrito a partir do qual escreveu o romance, O Arco de Santa Ana, a sua mais bela obra sobre o Porto.

3 Fronteiro à fachada da igreja dos Grilos fica este amplo logradouro. Era aqui que no tempo de Garrett se fazia uma grande festa em honra de Santa Ana. É o próprio escritor que a descreve: “um coreto onde grasnava a música; um púlpito onde berrava um frade; toda a gente em dia de folgar; e muito se namorava, e muito se comia e todos iam para o céu…”

4 E aqui está a Rua de Santa Ana. Muitas vezes Almeida Garrett a desceu, a caminho dos mais variados lugares de combate, empurrando a ombro uma peça de artilharia… porque não havia cavalos para fazerem esses serviços. Tinha porém um agradável lenitivo quando, ao descer a íngreme artéria, os seus olhos se pendiam numa determinada janela onde “entre o festival azul e branco lhe sorria uma constitucional beldade…”

5 Isto é o que resta do velho Arco de Santa Ana, demolido em 1820. Garrett recorda-o, cerca de quinze anos mais tarde, com estas palavras: “… caíste como, em nossos minguados dias, vai caindo, às mãos de inovadores plebeus, quanto há de nobre e antigo…” Palavras que ainda hoje são de uma flagrante atualidade. O património cultural e histórico da cidade continua a ser impunemente destruído.

6 O açougue das “assopradas tripas”, como se lhe refere Almeida Garrett, ocupava um enorme espaço que ficava entre as atuais ruas das Aldas e da Pena Ventosa, ambas ainda de traçado nitidamente medieval. Esta última artéria, como no tempo de Garrett, é a que “vai do Arco de S. Sebastião, pela Porta dos Açougues, para a rua das Aldas”. A Porta dos Açougues ainda lá está. É esta.

7 Garrett nasceu no Porto mas cresceu em Gaia, como diz na introdução do seu livro. Mas lembra-se da estátua “O Porto” que, no alto do morro da Sé, “olha, como do próprio trono, sobre os domínios da sua jurisdição.” Em contraste com este outro Porto que, como se prova, virou ostensivamente as costas aos seus domínios. Claro que esta não é a estátua que o Garrett conheceu. Mas foi inspirado nela que o mestre pedreiro João Silva fez esta estátua.
