Desengane-se o leitor que pensa que o fado é coisa de (ou para) “velhos”, para gente “cota”. O fado pode não passar nas discotecas da moda, ou não ser incluído pelos mais jovens na listagem musical que seleccionam para os iPod ou Mp3, mas ele continua a ouvir-se em Lisboa e em silêncio. São maioritariamente fadistas profissionais, cada vez mais novos, que actuam e animam as noites nas casas de fado, embora na “plateia” as várias gerações se misturem…
Fado vadio
Qual tristeza, qual destino, qual mágoa. Antes pelo contrário. Foi num ambiente festivo, de copo de cerveja ou de vinho tinto na mão, e rostos sorridentes, que a VISÃO7 encontrou os clientes da Tasca do Chico, no Bairro Alto. Aqui não é preciso ser-se profissional para ter direito a usar o microfone. Ter vontade de cantar… fado, pois claro, é o único requisito. Até porque ninguém recebe cachet… Depois, a maior ou menor quantidade de palmas dita o êxito da actuação. Para confirmar o sucesso destas noites de fado vadio, Francisco Gonçalves, mais conhecido por Chico, dedica-lhe duas noites por semana: as segundas e as quartas-feiras. Agora começa, também, a apostar na quinta-feira.
Desde 1996 (ano de abertura) que a rotina se repete, ou melhor, que a casa recebe muitos fadistas, conhecidos ou desconhecidos, a maioria amigos do proprietário, que, em 1972 se mudou de Amarante para o Bairro Alto, e por aqui ficou. Até aos dias de hoje.
Qualquer pessoa ali pode entrar e cantar durante breves minutos – mesmo que seja estrangeira. O importante é mesmo sentir o fado. Prova disso são as já famosas actuações da japonesa Kumiko Tsumori, natural de Osaka, 28 anos, que aqui costuma actuar. A “fórmula” herdou-a do seu amigo, e também japonês ,Taku, a quem o Chico já disse: “Um dia ainda vais ficar conhecido como o Camané do Japão.” Taku decorou os versos e o ritmo do fado através das gravações que fazia naquela tasca, sempre que a frequentava… Kumiko seguiu-lhe os passos e, hoje, encanta os muitos clientes habituais, de todas as idades, que frequentam a Tasca do Chico.
Na noite em que ali fomos ouviram-se as vozes de Alexandra Freire e de Mário Lundum, ambos acompanhados à guitarra por Ângelo Freire.
A Tasca do Chico
R. Diário de Notícias, 39 T. 21 343 1040. Noites de fados, às segundas, quartas e quintas até às 2h
Fado apaixonado
‘Sou músico desde sempre e compositor a partir de certa idade…” – estas palavras pertencem a Mário Pacheco, um guitarrista exemplar, um apaixonado pelo fado, e também o proprietário do Clube de Fado, junto à Sé, em Lisboa.
O empenho, profissionalismo e a sua total entrega valeram-lhe a entrada no Top of the World da revista britância Songlines, com o trabalho A Música e a Guitarra, considerado um dos melhores álbuns, em 2007. Porém, diz-se igualmente “premiado” pelo facto de ter acompanhado muitas das grandes vozes do fado, como Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro e Hermínia Silva. Camané, Ana Sofia Varela e Mariza são outros nomes com quem já partilhou os palcos.
Quando as luzes se apagam no Clube de Fado, os clientes sabem que se vai dar início ao espectáculo, logo, o silêncio é quase imediato. Do elenco fixo desta casa de fados constam os nomes de Cuca Roseta, Rodrigo Costa Feliz, Joana Amendoeira, Miguel Capucho, Carla Pires, Lina Rodrigues, Miguel Capucho, Luísa Rocha, Tereza Lopes Alves.
Sempre que a disponibilidade o permite, é Mário que os acompanha com a sua inseparável guitarra portuguesa. “Quando ando em digressão orgulho-me de ter o meu mestre José Fontes Rocha como meu substituto”, explica.
Este é, de facto, um espaço que alia a boa cozinha tradicional portuguesa com um elenco de fadistas de luxo.
Clube do Fado
R. S. João da Praça, 94 T. 21 885 2704. 20h-2h
Fado sem regras
Éum espaço alternativo, onde a tradição já não é o que era, onde as regras e a disciplina ficam no lado de fora da porta. Isto não significa que no seu interior reine a confusão. Aqui canta-se pelo prazer, seja de fato e gravata, de xaile, ou mesmo de calças de ganga.
Porque não quis abrir uma casa de fados tradicional, igual a tantas a funcionar na capital, Pedro Castro, o proprietário, fez uma lista das “situações” que nunca usaria. E nelas incluía-se o tradicional chouriço assado e o caldo verde, o ambiente formal e os altos preços. Aqui, se um fadista lhe apetecer cantar dez músicas de seguida terá sempre o seu consentimento.
Quando se entra pela primeira vez na Mesa de Frades, principalmente a horas mais tardias, quando os fadistas ainda não ocuparam o plateau, esta mais parece um restaurante ou um bar, tal é a concentração de clientes maioritariamente joven que animam esta antiga capela.
Este é o elenco da casa: às segundas-feiras, Carminho e Rão Kyao; às quartas, Carminho; quintas, Aramac; sextas, Pedro Moutinho; e, ao sábado, Ana Sofia Varela e Ricardo Ribeiro. Pedro de Castro, que os acompanha à guitarra todas as segundas, quartas e sábados, espera, em breve, dar vida ao outro espaço que gere dentro do Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa, chamado Casa de Fados. Esse, sim, será local com todo o conforto, onde os clientes podem escutar fado num ambiente moderno.
Mesa de Frades
R. dos Remédios, 139A, Alfama T. 91 702 9436. Seg, Qua-Dom 19h-2h30 (encerra ao Dom até Março)
Fado companheiro
Elsa Laboreiro, 48 anos, Cristiano de Sousa, 32, Luís Moutinho, 32, e Filipe Acácio, 60, são alguns dos fadistas de “serviço” no Café Luso. A par da música, a simpatia é outra característica que os une.
Elsa ainda hoje recorda o dia em que partilhou este mesmo palco com Amália Rodrigues, um sonho que conseguiu realizar; Cristiano confessa que “o fado é a minha forma de estar na vida”. Foi mordido pelo “bichinho” quando tinha 11 anos de idade, por influência familiar (a avó, Maria Pilar, também canta). Mas, apesar desta sua paixão, em casa ouve outros ritmos, como o jazz, hip-hop e metal; Luís Moutinho (irmão de Camané), não tem dúvidas: o fado está “completamente na mó de cima”; Filipe Acácio, o membro mais brincalhão deste grupo, acumula ainda as funções de chefe de sala, mas isso não lhe tira a vontade de cantar. É necessário, porém, referir outros nomes que ali actuam: Jorge Carreiro (contrabaixo), António Neto (viola), Luís Guerreiro (guitarra portuguesa) e a fadista Iola Dinis.
Nesta casa, fundada nos anos 30, pode ainda assistir a espectáculos de folclore. Para que a noite fique completa não se esqueça de reservar mesa para jantar: garoupa no forno com crosta de azeitonas ou bacalhau gratinado com queijo amanteigado.
Café Luso
Tv. da Queimada, 10 T. 21 342 2281. Abre todos os dias às 19h30, 20h30-22h (espectáculos alternados de Folclore e Fados), 22h30-2h (só fado)
Outros Fados
Casa de Linhares
O elenco desta casa é composto por Ana Moura, Maria do Carmo, Raquel Tavares, Manuel Bastos, Maria da Nazaré, Celeste Rodrigues, Vânia Duarte e Jorge Fernando, entre outros. Beco dos Armazéns do Linho, 2, Alfama T. 21 886 5088. Seg-Dom 20h-1h
Faia
R. da Barroca, 56 T. 21 342 1923. Seg-Sáb 20h-2h (os espectáculos começam a partir das 21h30)
Parreirinha de Alfama
Propriedade da fadista Argentina Santos, com espectáculos todos os dias. Beco do Espírito Santo, 1, Lisboa T. 21 886 8209. Seg-Dom 20h-1h
Severa
Espectáculos todos os dias, na voz dos fadistas Lina Santos, Alvira de Sá, Natalino Jesus e João Queiroz. Também existem actuações diárias de folclore. R. das Gáveas, 21 T. 21 346 1204. Seg-Ter, Qui-Dom 12h-15h, 19h30-2h
Timpanas
Actuações dos fadistas Celeste Maria, Isabel Pinheiro e Hélder Santos. R. Gilberto Rola, 22-24 T. 21 390 6655. Seg, Qua-Dom 20h-2h
Velho Páteo de Santana
Fados na voz de José Manuel Barreto, António Ganhão, Maria Valeixo e Cristiana Pereira. R. Dr. Almeida Amaral, 6 T. 21 314 1063. Ter-Dom 20h-1h.