Depois de se saber, no início desta semana, que o secretário de Estado do Desporto, João Paulo Correia, de 47 anos, foi internado no Hospital de Gaia, na sequência de uma infeção por Gripe A, a que se seguiu um choque séptico, a dúvida levantou-se: em que consiste, afinal, um choque séptico?
Gustavo Carona, médico, desconhece a história clínica que levou o governante aos cuidados intensivos daquela unidade hospitalar, mas, enquanto intensivista, está muito familiarizado com o termo e já tratou de muitos doentes nesse estado.
“Estamos perante o nível mais grave de reação inflamatória – uma disfunção cardio-circulatória na sequência de uma infeção”, explica. Ou seja, primeiro surge a infeção que gera inflamação e só depois pode dar-se o choque.
Anatomicamente, há uma vasodilatação forte e uma quebra de tensão grave (o sinal clínico mais evidente). A partir daí, a entrega de oxigénio aos tecidos, através de hemoglobina, fica condicionada. Gustavo Carona usa a metáfora do sistema de canalização para ser mais explícito: “Os canos aumentam de diâmetro, mas a água é a mesma e por isso perde pressão, deixando de chegar a todo o lado como até então.” Com o choque, a profusão passa assim a ser inadequada e a oxigenação celular insuficiente.
Como resultado, os órgãos internos, como os pulmões, os rins, o coração e o cérebro, geralmente recebem muito pouco sangue, causando seu mau funcionamento.
Perante este quadro clínico, há que reagir, ou ele levará à morte. Essa reação deve acontecer a dois tempos: tratando a infeção causadora do choque e compensando o sistema cardiovascular com soros e medicação para a tensão (uma “prima da famosa adrenalina”). É assim que os “canos” diminuem de novo de diâmetro e o sangue passa a circular normalmente.
A eficácia do tratamento está ligada à rapidez de atuação e à gravidade da infeção. “Dependendo da quantidade de toxinas inflamatórias que a infeção liberta para o organismo, os doentes podem passar dois ou três dias nos Cuidados Intensivos ou dois ou três meses”, avisa o médico.
Ao mesmo tempo, Gustavo Carona faz questão de distinguir o choque séptico de uma condição bem mais conhecida, a septicémia. Nesses casos, trata-se de uma bactéria que se encontra na corrente sanguínea. “É uma questão de localização, não da gravidade da consequência da inflamação.”
Por ter sido tratado a tempo, o secretário de Estado do Desporto já está livre de perigo e encontra-se em recuperação, sem que se esperem sequelas do choque séptico.